Colocado em 2020-05-23 In Artigos de Opinião, Coluna - Ignacio Serrano del Pozo

Porquê uma nova Coroação em Bellavista?

Por Ignacio Serrano del Pozo •

Começo esta coluna reconhecendo que não tem sido fácil para mim juntar-me à corrente da coroação que parece mobilizar a Família de Schoenstatt no Chile desde há alguns anos.  Há muitas razões, mas eu poderia resumi-las em três. —

Em primeiro lugar,

Pareceu-me que a preocupação de devolver a coroa roubada do Santuário de Bellavista em 18 de Janeiro, em plena visita do Papa Francisco ao país, era – para o dizer em linguagem simples – um disparate. A Igreja no Chile e Schoenstatt no Chile viviam a maior crise da nossa história, uma crise em que a inocência dos mais vulneráveis era espezinhada e que exigia fortes gestos de reconhecimento e perdão, pelo que não era apropriado preocuparmo-nos em reparar este acto criminoso.

Por mais significativo que fosse o símbolo que foi subtraído, ele só merecia um pouco de raiva e desânimo. Símbolos para o 31 de Maio já tínhamos suficientes

Em segundo lugar,

O meu descontentamento com este impulso de coroação deve-se ao facto de estar a ir contra uma outra corrente que começava a surgir fortemente e à qual me uni com entusiasmo, pois era o “Schoenstatt em saída”. Há Já algum tempo eu sentia que o nosso Movimento tinha de superar um certo encerramento em si mesmo e, terminar com este frenesim de celebração e comemoração de cada acontecimento do passado, para avançar fortemente na instalação da mensagem de Schoenstatt no mundo que se estava a desenvolver.

A fé prática na Divina Providência deve impelir-nos a estar em sintonia com o tempo presente, não com o passado. Para restaurar uma coroa que o Padre José Kentenich tinha colocado em 1949, parecia-me que era celebrar o 70º Aniversário da missão, olhando-nos ao espelho dentro de casa.

Em terceiro lugar,

A minha desconfiança deveu-se a um certo cepticismo contra as correntes meramente piedosas, que parecem ser tão bem recebidas na Família de Schoenstatt. Se olharmos para as grandes correntes da vida post mortem fundatoris, como a Mãe Peregrina, os Madrugadores , os Santuários-Lar e a corrente de união com o Pai e Fundador, estes tendem a destacar-se pela sua fidelidade religiosa.

No entanto, com eles, vale a pena perguntar sobre a insuficiência das correntes de renovação intelectual, cultural, moral e social. Não existem escolas de pensamento schoenstatteanas capazes de moldar a práxis pedagógica ou psicológica (quanto poderia ser contribuído neste campo!), e as iniciativas sociais como Maria Ayuda ou o programa FORTA de acompanhamento matrimonial são bastante escassas. Para José Kentenich, Schoenstatt é certamente um movimento de renovação religiosa, mas também de transformação do mundo, naquilo que tem de mundo. Porque é tão difícil para nós sintonizarmo-nos ou assumirmos estas correntes de renovação secular?  Talvez precisamente devido aos custos que isso implica.

 

O Pe. Kentenich no Santuário de Bellavista, 20 de Maio de 1949

 

“Na coroa, a nossa conversão pela missão!”

No entanto, os acontecimentos dos últimos meses, a crise social vivida no Chile, mas especialmente a pandemia global, mudaram gradualmente a minha percepção.  Provavelmente porque demonstrou – como muitos notaram – a enorme fragilidade humana e a necessidade urgente de nos refugiarmos no poder de Deus e na protecção da Virgem Maria. Mas também porque achei extremamente esclarecedor que a comissão organizadora da coroação de 31 de Maio tenha relacionado a coroação com o sentido de conversão.  “Na coroa, a nossa conversão para a missão!”

Na verdade, esta coroa convida-nos, não só, a implorar a intervenção divina, mas também a abrir-nos ao poder transformador da graça.  Nesta linha, atrevo-me a assinalar três características que devem ser tidas em consideração para este momento, para que não se trate de mais uma coroação ou, na pior das hipóteses, de um novo rito cénico de devoção íntimista.

Em primeiro lugar,

devemos recordar que a coroação é, acima de tudo, um reconhecimento da nossa fraqueza. Mas não da nossa fraqueza genérica devido à nossa condição de criatura – que é muito filosófica ou teórica – mas do reconhecimento de que omissões e pecados concretos eclipsaram o carisma luminoso de Schoenstatt.

O que não se assume não é redimido“, repetia o Pe. Kentenich, citando Santo Irineu. A crise da Igreja não é estranha a Schoenstatt; a crise da Igreja chilena deve muito à infidelidade à missão do 31 de Maio (paternidade e vínculos).  E a mesma explosão social também não deve ser alheia ao Movimento Chileno, pois deve muito à nossa indolência de leigos.

Em segundo lugar,

temos de notar que a coroa do cristão é, acima de tudo, a dos espinhos. Não podemos esperar que depois deste acto de coroação as coisas mudem magicamente, que recuperemos a nossa saúde, que o Movimento imprima a sua marca na sociedade ou que os nossos desejos se materializem.

Talvez só possamos esperar uma fecundidade lenta e silenciosa para os nossos sacrifícios na cruz. Na verdade, estou convencido de que se podemos mostrar a Deus algo nesta história de mais de 70 anos, é a dor de tantos que ofereceram tranquilamente a sua doença ou a sua angústia e que foram capazes de assumir os seus fracassos apostólicos ou as suas frustrações familiares sem vitimizações, confiando que ali o próprio Deus os estava a coroar.  Assim, a coroa do 31 de Maio deve ser fundida com o cancro de Mário, a doença do Padre Hernán, a dor paterna de Cedric Moeller, assim como o sacrifício amoroso de tantos religiosos e leigos que dão testemunho da “classe média da santidade”, essa santidade da constância diária que o Papa Francisco resgata.

Em terceiro e último lugar,

Penso que é fundamental recordar que esta coroação se materializará na festa de Pentecostes.  Isso significa que o tempo que se segue deve ser caracterizado pela ousadia, pelos saltos na fé, porque, como disse Bento XVI: “O sinal da presença do Espírito é a ausência de medo”.

Temos de avançar num Schoenstatt sem medo, fora da zona de conforto ou para além dos doces discursos de solidariedade.

Ouso dizer que esta é a primeira grande conversão. Um Schoenstatt que ousa dar respostas criativas face aos novos desafios, ou melhor ainda, dar os passos que tornem essas respostas possíveis.

Cada um sabe quais são os seus medos que impedem uma nova ordem social: para alguns pode ser não se atreverem a reduzir o seu nível de despesas e salário com vista a manter o emprego dos seus trabalhadores, para outros pode ser não se aventurarem a alargar a família, para um jovem schoenstatteano o medo pode estar a impedi-lo de se comprometer na política desacreditada, para um mais velho o medo pode estar em rejeitar a perda de autonomia como o seu Capital de Graças mais precioso. “Não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o Seu poder”, foram as palavras de S. João Paulo II, no início do seu pontificado. Nós poderíamos dizer algo semelhante à Santíssima Virgem Maria.

Estaremos dispostos a fazer d’Ela Rainha nessas condições? Fazer esta pergunta é fundamental antes de uma nova coroação.

 

 

Original: espanhol (21/5/2020). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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