cárcel de menores

Posted On 2022-06-22 In Aliança solidária, obras de misericórdia, pastoral prisional, Projetos, Schoenstatt em saída

E, enquante come, a multidão dá-se conta que Jesus toma conte de tudo

PARAGUAI, Maria Fischer •

“Jesus cuida da grande multidão que o seguiu para ouvir a Sua palavra e para se libertar de vários males”, disse o Papa Francisco no Angelus no Domingo 19 de Junho, Solenidade de Corpus Christi em Itália e em muitos países. “O milagre dos pães e peixes não acontece de forma espectacular, mas quase de forma reservada, como no casamento em Caná: o pão aumenta, passando de mão em mão. E à medida que comem, a multidão apercebe-se de que Jesus toma conta de tudo”. Penso nos “pães” distribuídos, sábado após sábado, no Reformatório de Itauguá, Paraguai, e na visita que fiz a esta prisão há quase dois meses, juntamente com a Cristy, o Pe. Pedro e toda a equipa da Pastoral Prisional, os casais de San Lorenzo e os jovens das MUC (Missões Universitárias Católicas). —

“Tens olhos claros”. As primeiras palavras após quatro anos sem poder visitar o Reformatório em Itauguá. “Ninguém aqui tem olhos claros…”. Há muitas pessoas com olhos claros no Paraguai, mesmo entre a equipa que está a visitar os jovens atrás das grades nesta tarde quente. “Quando eu era criança sempre quis ter olhos escuros, achava-os mais bonitos”, respondo aos dois jovens sentados junto à porta. Esta frase é “minha”, aquela que mais tarde digo, não sei de onde vem: “Bem, Jesus também tinha olhos escuros”. E nesse momento vejo-O, vejo Jesus nos olhos destes dois jovens, cujas histórias de vida só posso adivinhar. Com eles, vou para dentro e sinto que estou finalmente de volta… e o quanto tive saudades desta visita, destes jovens. “Roubaram-te o coração?”, pergunta-me Cristy, e é mais um comentário do que uma pergunta. “A mim também”.

Mis tres amigos

Os meus três amigos

Escutar, falar, partilhar

Tal como na história da multiplicação dos pães, a refeição vem em último lugar nestas visitas ao Reformatório Há três lugares onde nos encontramos com eles: no átrio dos pavilhões de menores, na nova ala para aqueles que atingiram a maioridade durante o seu período de encarceramento e podem agora ficar aqui. Antes disso, tinham que ir para a prisão de adultos, Tacumbú, a maior prisão do país, que conta actualmente com 2.954 reclusos quando só pode albergar 1.560 homens. É um inferno. Especialmente para jovens de 18 anos com histórias de abuso, violência, abandono… O último lugar que visitámos foi “La Esperanza”, uma prisão semi-aberta para jovens com um bom prognóstico.

Como nessa altura em Betsaida, primeiro ouvimos os jovens e falámos com eles. O Pe. Pedro sabe como apresentar os casais de San Lorenzo (que há alguns meses atrás prometeram dar empanadas e refrigerantes a estes jovens e que também querem participar nas visitas), os jovens que foram em missão à prisão durante a Semana Santa, a equipa da Pastoral Prisional e esta senhora alemã, que veio desse mesmo país, a Alemanha. “Quero ir para a Alemanha”, grita Alexis, um dos três rapazes que já se tornaram meus amigos. Ahh, diz o Pe. Pedro, então têm de poupar muito para o bilhete… e aprender alemão. Ohhh….

Os jovens que se preparam para receber os Sacramentos vão para uma pequena catequese, aqueles que querem “falar” com o Pa’i vão com ele… e os outros ficam comigo. São muito jovens, muitos deles estão na prisão apenas há duas ou três semanas. Eles têm medo, têm sonhos, têm histórias… Quando percebem que eu não entendo Guarani – vários deles não sabem falar espanhol – acabamos com aulas de Guarani para mim (apesar dos esforços dos meus três amigos e outros, um fracasso total da minha parte) e de alemão para eles – com um pouco mais de sucesso, porque de repente um alto “Tschüss, Pater Peter!” pode ser ouvido em todo o lado… Tanta alegria nestes rostos…

Carcel de menores

Por quem rezamos?

“O milagre dos pães e peixes não acontece de uma forma espectacular, mas quase de uma forma reservada, como no casamento em Caná…”, diz o Papa Francisco. Estamos neste novo pavilhão, o pavilhão recentemente construído para os mais velhos. Após a catequese, as trocas, os abraços, vem o grande momento dos “pães e peixes”. Mas primeiro, este momento inesquecível de oração: por quem rezamos, pergunta o Padre Pedro, e as respostas vêm ansiosamente, sem pensar, sem parar: pela minha mãe, pela minha avó, pela minha namorada… sim, é assim que rezamos. “Por esta mulher que agredi…”, pelas pessoas que sofreram por causa dos meus roubos, pelas pessoas a quem fiz mal, por aqueles que nos visitam, pela tia Cristy e pela tia Maria…

Sob este sol inclemente, com este cheiro de prisão, fome e solidão, a água transforma-se em vinho… e rezo uma das minhas mais intensas e puras orações pelas pessoas que enganei, pelos jovens que conheci hoje e nas visitas anteriores, pelos benfeitores, pelos amigos que estão sozinhos, doentes neste momento…

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Oração

À volta da mesa

Quando chegamos, já ao anoitecer, ao “La Esperanza“, não há ninguém… Minutos depois, os jovens regressam. Estavam a brincar no exterior… pela primeira vez após os dois intermináveis anos da pandemia.

Em “La Esperanza”, como em todas as instituições prisionais, as visitas têm lugar ao ar livre, como protecção contra o contágio do COVID. Aqui há uma longa mesa, e quase todos nós estamos sentados à volta desta mesa, a conversar, a ouvir… O grupo de catecismo vai para um lugar um pouco distante, alguns dos outros jovens vêm e vão, e vários “conversam” com o Pe. Pedro, com absolvição final para os baptizados, com um abraço a toda a volta…

Finalmente, a refeição. Empanadas, refrigerantes, alguns doces… E como naquele momento da multiplicação dos pães, sobrou comida no final. Com grande cuidado, os casais partilham o que resta com grupos de dois ou três que têm de partilhar uma empanada ou uma lata de refrigerante. Estamos na prisão…

E à medida que comem, a multidão apercebe-se de que Jesus cuida de tudo.

Cárcel de menores

Para continuar o programa de visitas, ao Reformatório a equipa precisa de orações (muito), Capital de Graças (muito também) e donativos (uns poucos não tão poucos):

Donativos
Conta bancária no Paraguai
Banco GNB
Conta corrente nº 001-065259-003
Em nome de: Congregação Padres de Schoenstatt

Conta bancária na Alemanha
Nome: Schönstatt-Patres International e. V.
IBAN: DE91 4006 0265 0003 1616 26
BIC/SWIFT: GENODEM1DKM
Ao cuidado de: Pe. Pedro Kühlcke, Pastoral Prisional

Fotos: Cristy Santacruz, Maria Fischer

Original: espanhol (20/6/2022). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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