kintsugi

Colocado em 2020-11-12 In Columna - Manuel de la Barreda, José Kentenich

O 10 já temos. Agora vamos ver o que temos que fazer para conservá-lo

Manuel de la Barreda, Espanha •

“O 10 já temos. Agora vamos ver o que temos que fazer para conservá-lo”. Esta frase, ou uma parecida, Michelle Pfeiffer disse no filme “Mentes perigosas” (“Dangerous Minds” 1995). A protagonista, uma professora que chega a um colégio problemático da Califórnia e lhe direcionam à sala com os alunos mais conflituosos, fala essa frase no início das aulas. Isso muda a perspectiva dos alunos e a partir deste começo consegue reconduzi-los. —

No fundo, Deus atua conosco da mesma forma. O 10 já nos presenteou através de Cristo. Já fomos salvos. O que precisamos fazer é conservar esse 10, esse A.

Muitas vezes nos ensinaram a partir do ponto de vista de que nossa vida espiritual nós temos que “ganhar”. A partir do voluntarismo, através do qual nós devemos ganhar a salvação. O mais compassivo dizia que a graça ajuda para que consigamos ganhar essa vida eterna que nos é prometida.

kintsug

A imagem do kintsugi (uma técnica de origem japonesa para arrumar partes quebradas da cerâmica com verniz de resina polvilhado ou misturado com ouro, prata ou platina. Faz parte de uma filosofia que diz que as quebras e os reparos fazem parte da história de um objeto e que devem ser mostradas, ao invés de serem escondidas, devem ser incorporadas, além disso deve ser feito para embelezar o objeto, revelando sua transformação e história) é muito bonita e ilustrativa. Recompõe-se com ouro e é mais valiosa que o objeto original, o qual já era muito valioso. São várias as mãos dos artesãos que atuam e, ao mesmo tempo, nunca de ser o que é. O ouro é a graça e a arte do artesão é o amor do mesmo que sabe atuar.

Mudança de perspectiva

Pessoalmente, acreditei que isso era um grande erro, mas até escutar esta frase que dá título ao artigo, não havia encontrado uma forma de expressar de forma precisa o contrário.

Santo Inácio de Loyola, grande inspirador do padre Kentenich, também dizia sobre o “fazer tudo como se não dependesse de Deus, mas sabendo que tudo depende de Deus”.

E é o padre Kentenich quem foi me tirando desse erro com sua pedagogia e fazendo-me mudar de perspectiva.

Diante das notícias publicadas sobre o padre Kentenich, como conservar esse 10? 

E agora sou, como parte da família de Schoenstatt, como os alunos daquela sala de aula que falava ao início. Não por sermos rebeldes, mas sim por estarmos machucados e desorientados. Por sentirmo-nos enganados, por julgar sem conhecer as circunstâncias. E sobretudo, por deixar-nos desanimar pelo primeiro contratempo.

Mas o 10 nós já temos. O 10 é o que temos vivido em Schoenstatt desde que começamos a andar por este caminho de santidade. Agora, diante das notícias que estão sendo publicadas sobre o padre Kentenich, como conservar este 10?

Nesta manhã estava rezando em meu santuário-lar e li um comentário de uma amiga, Paz Leiva, a qual muitos já leram aqui no schoenstatt.org. E me acompanhou em uma oração transformada em reflexões que compartilho agora.

1 O colégio dos legionários

Esta es la tercera vez en mi vida que me pasa algo parecido. La primera vez fue con el P. Maciel y el Regnum Christi y los legionarios de Cristo. Mis hijos iban entonces, y lo sigue haciendo la menor, a un colegio de los legionarios. La noticia fue confirmada y causó un tremendo revuelo entre los padres de los alumnos del colegio, muchos abandonaron el colegio. Muchos sacerdotes dejaron el movimiento y pasaron a las diócesis correspondientes. Muchas consagradas también salieron. Pero el colegio ahí sigue y las personas que no abandonaron el barco, sin que esta frase sea una recriminación a quienes salieron del movimiento pues las circunstancias de cada uno solo las conoce Dios y solo Él las puede apreciar en plenitud, siguen haciendo el bien a mucha gente formando a los jóvenes del mundo entero. Siguen haciendo el bien y cumpliendo una misión, un apostolado que les santifica.

Esta é a terceira vez em minha vida que acontece algo parecido. A primeira vez foi com o padre Maciel, o Regnum Christi e os legionários de Cristo. Meus filhos naquele tempo estudavam em um colégio dos legionários, ainda frequentado por minha filha mais nova. A notícia foi confirmada e causou um imenso tumulto entre os pais de alunos do colégio, muitos deixaram ao colégio. Muitos sacerdotes também deixaram o movimento e passaram às dioceses correspondentes. Muitas consagradas também saíram. Mas o colégio segue e as pessoas que não abandonaram o barco – sem ter a intenção de que esta frase seja uma recriminação aos que saíram do movimento, pois as circunstâncias de cada um somente Deus as conhece e somente Ele pode apreciá-las em plenitude – seguem fazendo o bem para muitas pessoas, formando jovens do mundo inteiro. Seguem fazendo o bem e cumprindo uma missão, um apostolado que os santifica.

A Arca

A segunda vez foi no início deste ano. Já escrevi aqui sobre a A Arca, L’árche, fundada por Jean Vanier. A Arca, a cabeça internacional da organização, contratou uma agência externa para conduzir uma investigação sobre acusações de abuso que foram feitas contra Jean Vanier. E comprovou-se que sim, que seis mulheres foram abusadas, as quais eram adultas e sem deficiências. Mas para mim, não importa quão abominável essa verdade possa ser, não me afeta na Fundação. A Arca de Madri que eu presido, os livros que escreveu, os ensinamentos que esta pessoa transmitiu, Jean Vanier, e a obra que cresceu em torno a ele, A Arca, são imprescindíveis no mundo da deficiência intelectual nos dias de hoje.

Frases de Jean Vanier:

  • “Durante estes primeiros meses aprendi muitíssimo. Estava começando a descobrir a imensa quantidade de dor oculta no interior do Raphael e do Philippe e de muitos outros irmãos e irmãs. Percebi que estavam quebrantados pela rejeição, pelo abandono e pela falta de respeito”. (Nota do autor: A Arca começa quando Jean Vanier, depois de visitar um manicômio em 1964 e impactado pelas condições nas quais viviam os que estavam internados ali, decide levar dois deles para viver com ele, Philippe e Raphael. Isto transformou todo seu entorno e a partir daí nasce A Arca).
  • “Ao mesmo tempo descobri algo da beleza e da ternura dos seus corações, sua capacidade de comunhão. Estava começando a sentir que viver com eles poderia me transformar, não pelo despertar e desenvolver minhas qualidades de liderança e inteligência, mas sim despertando as qualidades do coração, a criança que tenho dentro de mim”.
  • “Amar uma pessoa não consiste primeiramente em fazer algo por ela, mas sim em ajudá-la a descobrir sua beleza, sua singularidade, sua luz oculta, o sentido de sua vida. Assim comunicamos uma esperança e desperta-se o desejo de mudar e de crescer”.

Frases como estas mudaram a visão do mundo inteiro sobre as pessoas com deficiência. E fez com que nós, que nos aproximamos do mundo da deficiência, pudéssemos aprender com uns mestres magníficos, de coração limpo e de inocência angelical, como são as pessoas com deficiência intelectual.

Mas também aprendemos a lidar com o resto dos seres humanos:

  • “Qué difícil es acoger a la gente tal y como es, con todo lo bueno y herido que hay en ella. Los padres esperan mucho de sus hijos; los esposos esperan mucho el uno del otro. Si nos creamos una imagen del otro y no se corresponde con la realidad, nos decepcionamos y tendemos a rechazarlo. La imagen que tenemos del otro, o la imagen de lo que quisiéramos que fuera, impide la comunión”.
  • “Que difícil é acolher as pessoas tal e como são, como tudo de bom e as feridas que existem nelas. Os pais esperam muito de seus filhos; os esposos esperam muito um do outro. Se criamos uma imagem do outro e esta imagem não corresponde à realidade, nos decepcionamos e temos a tendência de desprezá-lo. A imagem que temos do outro, ou a imagem que gostaríamos que fosse real, impede a comunhão”.

Quem quiser negar a bondade e sabedoria que há nestas frases, por culpa dos fatos comprovados de abusos cometidos, não digo que esteja em erro, pois não sou ninguém para julgar, mas que sim perde-se um grande tesouro, ainda que esteja em um vaso de barro quebrado.

Se nossos piores medos forem confirmados

E agora o padre Kentenich. Partimos da base: diferentemente dos casos anteriores, contra o padre Kentenich não há nenhuma sentença nem fato demonstrado. Indícios sim, mas nada mais. Agora, se infelizmente for confirmado tudo sobre o padre Kentenich em sua pior versão, sua obra, inspirada pelo Espírito Santo e amparada pela Mãe de Deus, seguirá aqui e nos impulsionou e educou para chegarmos a quem somos e onde estamos no dia de hoje.

Continuo colocando-me na situação de que nossos piores temores sobre o padre Kentenich sejam confirmados. Fazer-se-ia vida então a palavra de São Paulo “em minha debilidade está minha fortaleza”, como tentei explicar antes com o Regnum Christi e A Arca e não só nestes casos. Sem Paulo – perseguidor da Igreja nascente, sem Pedro – covarde e traiçoeiro, não só na Paixão, mas também no final da sua vida quando fugia de Roma pelas perseguições, a Igreja não existira, ou melhor, Deus quer que a Igreja seja construída com eles, humanos e fracos.

Não é São Dimas o Bom Ladrão? E sua vida não foi exemplar, somente seus últimos minutos. Quem poderia dizer-nos então que tanto o padre Maciel, Jean Vanier ou mesmo o padre Kentenich (colocando-me novamente no pior dos casos como já dito antes) não sejam uns São Dimas por terem acolhido a misericórdia de Deus no último minuto, conservando este 10 que Deus nos presenteou com sua redenção?

Não será possível que o Pe. Kentenich não queira “ser santo”, canonizado pela Igreja, da forma como estamos?

Examinando de forma geral a obra de Schoenstatt e ecoando algumas frases do padre Alejandro em sua entrevista do dia 5 de novembro, talvez atualmente não estejamos à altura das expectativas que o Pe. Kentenich sonhou para nós. Talvez nos acomodamos muito e passamos a pentear ovelhas, como nos disse o Papa Francisco em 2014. Talvez perdemos como movimento essa ousadia de não ir pelo caminho fácil, de optar pelo Campo de Dachau, ao invés de optar por um simples atestado médico.

Não será possível que o Pe. Kentenich não queira “ser santo”, canonizado pela Igreja, da forma como estamos? Não seria possível que o padre Kentenich queira que nós o façamos santo em sua obra, tal como ele a inspirou desde o início? Afinal de contas, isso também foi dito pelo Papa Francisco, que nós é quem devemos fazer santo o padre Kentenich.

Isto implica em uma mudança de atitude geral em todos nós. Sim. Que se saiba a verdade e que seja investigado até o final, mas deixando de fora nossa vida e nosso trabalho, que deve ser orientado para aquele homem novo em uma nova comunidade para a Igreja do século XXI com a qual ele sonhava e pela qual deu sua vida.

A Mãe nos leva pela mão

A imagem que eu tenho do padre Kentenich não é de uma pessoa que gostaria que o defendessem em grande estilo, com argumentos e dados mais ou menos teóricos. Parece-me que o único que esse pecador, o padre Kentenich – como todo mundo – queria é que a Igreja seguisse adiante e ele contribuía com toda a sua visão e toda a sua obra para isso.

É mais fácil, em teoria, seguir alguém perfeito. Um santo certificado pela Igreja. A prática é diferente. O único perfeito é Cristo, é Deus, que criaram a Igreja tal como é e nós não paramos de dar-lhes trabalho. Por tanto, não é mais real seguir alguém imperfeito que deu sua vida e seus tropeços para seguir ao Único Perfeito?

Uma última coisa. Independentemente de tudo, do que sair, a Mãe de Deus nos leva pela mão. O que farei então? O que faremos? O que fará Schoenstatt?

Original: Espanhol (10/11/2020). Tradução: Luciana Rosas, Curitiba, Brasil

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