2020 peor año

Colocado em 2021-01-07 In Artigos de Opinião

2020: o pior ano de sempre? Com os olhos da fé, façamos um balanço

ARGENTINA, Juan María Molina •

A revista Time nos Estados Unidos publicou a sua sentença numa capa no início de Dezembro: “2020 the worst year ever”  (o pior ano de sempre). Para aqueles de nós que, não se dão muito bem com o inglês, o desenho foi ainda mais eloquente: esse 2020, riscado a vermelho. Não é preciso forçar o meu pobre inglês nem, a escassez da moeda americana para imaginar as razões dadas dentro da revista. Sem dúvida, fomos testados de todas as maneiras e, as dificuldades próprias, só foram superadas pelas dificuldades de algum vizinho. —

Time: 2020 worst year ever

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O que significa olhar para o ano com uma visão de crente?

No final de cada ano é inevitável fazer o exercício dos contabilistas: o balanço. Em duas colunas limpas seremos capazes de distinguir as receitas e as despesas; isso mesmo que, em difícil, dizem deve e haver. Na sequência do que a revista estrangeira disse, é de esperar que os números sejam vermelhos. Vermelho nas perdas humanas, vermelho na verdade e transparência, vermelho no desenvolvimento, vermelho na pobreza, vermelho nos direitos humanos, vermelho na vergonha. Tudo vermelho. Contudo, não somos contabilistas encarregados de ordenar e contabilizar, nem somos jornalistas sensacionalistas encarregados de fazer títulos cintilantes que vendem e têm impacto. Nós somos crentes. Somos a família do Padre Kentenich.

O que significa olhar para o ano com uma visão de crente? Apresso-me a responder para não ser acusado de ingénuo: significa acreditar que, mesmo no meio das maiores dificuldades, Deus intervém. É o que nós em Schoenstatt definimos como “fé prática na Divina Providência”. Embora nos devamos lembrar que, mais do que um método, é uma visão do mundo. Isto faz parte do ensinamento de Paulo aos Romanos quando os convida a acreditarem que, para aqueles que amam a Deus, todas as coisas concorrem para o bem (cf. Rom. 8,28).

Nunca é demais sublinhar que esta visão de crente não é, nem pode ser uma visão ingénua, sobrenaturalista ou indiferente às dificuldades deste ano. Estes olhares pecam, frequentemente, nos seus fundamentos: a visão autêntica do crente não escapa à realidade. Mais ainda, atrevo-me a dizer que, está tão imbuída do que está a acontecer que sofre com isso. Na própria realidade de cada um e na dos outros. As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo…” (cf. Gaudium et Spes, 1).

A verdadeira sabedoria pressupõe o encontro com a realidade

Neste sentido, Francisco ensina em Fratelli Tutti: ” A verdadeira sabedoria pressupõe o encontro com a realidade… Em consequência, implementa-se um mecanismo de «selecção», criando-se o hábito de separar imediatamente o que gosto daquilo que não gosto, as coisas atraentes das desagradáveis. (FT 47). Por outras palavras, é receber a vida tal como ela acontece. Pela mesma razão, a visão do crente sobre a realidade é um olhar amoroso. Poeticamente, o padre português José Tolentino de Mendonça explica: “É necessário escolher… entre amar a vida hipoteticamente pelo que se espera dela ou amá-la incondicionalmente pelo que é, muitas vezes, pura impotência, pura perda, falta irresolúvel[1].

Quando olhamos para este ano que, nos deixa, de um ponto de vista crente, podemos ver o futuro de uma forma diferente: distanciamo-nos da resignação que “é uma cobardia, é o sentimento que justifica o abandono daquilo pelo qual vale a pena lutar, é, de alguma forma, uma indignidade[2] para dar lugar a essa esperança que” é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais, das pequenas seguranças e compensações que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna».(FT 55). É necessária a visão de crente. Ainda mais, quando por detrás da promoção dessa resignação e desespero existem outros interesses. Como nos adverte Francisco na referida encíclica: “A melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores” (FT15).

Será possível olhar para este ano com a visão do mundo da fé prática na Divina Providência? Seremos capazes de tocar a realidade deste ano difícil e até amá-la para descobrir que Deus esteve sempre presente? Teremos a audácia de olhar com esperança ou permitir-nos-emos ser vencidos pela cobardia da resignação? Façamo-lo juntos para não sermos deslumbrados por aquelas luzes monocromáticas pagãs que, querem fazer-nos acreditar que, neste 2020 não há absolutamente nada a salvar porque foi o pior ano da História.

Não entrar em pânico com a mescla

Pode parecer um pouco mórbido ir contra a tendência natural de esquecer o mau. Contudo, isso é mais como varrer o lixo para debaixo do tapete do que uma verdadeira visão de crente. Este é um dos ensinamentos fundamentais desta época natalícia que estamos a celebrar: Jesus nasce numa manjedoura. No meio de dificuldades e deficiências, nasce Jesus. Pela mesma razão, “Por isso, se ousarmos ir às periferias, lá O encontraremos: Ele já estará lá. Jesus antecipa-Se-nos no coração daquele irmão, na sua carne ferida, na sua vida oprimida, na sua alma sombria. Ele já está lá. ” (Gaudete et Exultate 135). Depois deste ano podemos também dizer que podemos encontrar a presença de Jesus na nossa carne ferida, na nossa vida oprimida, na nossa alma escurecida, na nossa própria periferia. Recordaremos assim que a salvação de Cristo atinge a sua plenitude na Páscoa (e não antes).

Ao ler, por estes dias, o escritor italiano Alessandro Baricco, encontrei uma boa rota para ver este ano. “O mapa do que estamos a realizar está desenhado no reverso dos nossos medos[3], propõe o autor. Pensei que era um bom exercício para investigar o que temos por detrás dos medos e dores deste ano. Mais uma vez, não é uma questão de ignorar tudo isto, mas sim de olhar para o seu reverso. Nesta tarefa foram-me dadas boas pistas por um dos filósofos mais conhecidos em França, Comte-Sponville. Um ateu e humanista, numa entrevista que li, deixou-me uma frase sob a forma de uma pergunta que me iluminou nesse sentido: “Somos capazes de amar a vida tal como ela é – isto é, mortal – e, portanto, de aceitar a nossa finitude?[4]

Precisamente, tenho a impressão de que se houve algo que nos incomodou este ano, foi a consciência da nossa finitude, da nossa fragilidade, da nossa vulnerabilidade. Este sentimento tem sido tão democrático como a pandemia: não conheceu diferenças sociais, culturais ou políticas. Recordou-nos que estamos todos no mesmo barco. E, ainda mais grave “Por isso,a tempestade – dizia eu – desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. (…) Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso “eu” sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, esta (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos» (FT 32). Com a queda de tudo isto, uma primeira questão para este balanço de crente pode ser: o que ficou de pé? Como um poeta amigo que nunca conheci pessoalmente diz:  “quando o tudo ao meu redor é abalado, és Tu o amigo e permaneces[5].

Crescer na nossa fé é sermos capazes de olhar para as nuances da vida interpretando o tempo em que vivemos, tal como sabemos que, quando vemos nuvens a subir no Ocidente vai chover (cf. Lc.12, 54-56).  Amadurecer a nossa fé não é oferecer a nossa visão da realidade aos ventos da moda para vivermos da nossa própria força. Tal como o povo de Israel nos anos do exílio (cf.  Is.33-45) e os primeiros seguidores de Jesus (cf. Mc 8), neste apelo de 2020 reconhecemos que, este ano pôde favorecer o crescimento e o amadurecimento da nossa fé. Neste sentido, outra questão que nos pode ajudar é: Como é que tudo o que vivemos teve impacto na minha espiritualidade? Que imagem de Deus me foi revelada? Do ponto de vista do crente, este ano tornou-nos possível viver no espírito das Bem-aventuranças (cf. Mt.5). Entrar nas contradições da vida – particularmente deste ano – é experimentar as Bem-aventuranças. Isto é o que acontece quando somos capazes de viver a realidade sem cortes ou atalhos, com o valor e o sabor da normalidade quotidiana.

Numa dessas nuances, poderemos perceber que este ano não foi o pior da História, mas que desarmou dolorosamente o que tínhamos planejado, o que tínhamos conseguido fazer, e despertou novas forças. Este ano terá algo resgatável?  Situações como as que estamos a viver não permitem muita preparação, mas uma vez nelas, a partir desta visão de crente e com uma fé prática na Divina Providência, é possível tirar partido da mesma. O triunfo final de Deus na Ressurreição de Jesus no-lo confirma. Há apenas uma coisa que nos impede de reconhecer o que é redimível neste ano: não aceitar que a realidade é uma mescla, que vivemos numa mescla, que somos uma mescla. Depende do discernimento e da aceitação do Deus que Se nos revela nestas circunstâncias.

Para uma síntese pessoal

Podemos ir um passo mais longe. Se, até ao momento, temos vindo a elaborar algumas directrizes, posso pensar em algumas áreas onde poderemos salvar este ano, recapitulando de uma forma mais consciente o que temos vindo a desenvolver. Serão espaços arbitrários, pessoais; quase como uma ventilação do meu mundo interior e do que experimentei.

1Começando com o mais elementar, far-nos-á bem contemplar a aparente insignificância da nossa realidade quotidiana tão afectada pela pandemia. Essa sucessão de momentos que constituíram a nossa vida quotidiana e, portanto, o nosso ano. “Não há outra forma de alcançar a eternidade senão mergulhando no instante… Temos de reavaliar o pequeno lugar e o pouco tempo em que vivemos” [6]. Contemplar o insignificante, onde nada acontece e há um puro desdobramento do ser. “O elogio da criação não é um extra, um acréscimo ao que é, mas no resplendor do seu ser” [7] Pela mesma razão, este ano será melhor perguntarmo-nos quem fomos do que perguntarmo-nos o que fizemos. Que novos talentos descobri eu? Que aspectos da minha personalidade e identidade foram iluminados? E, daqueles que partilhei na insignificância diária? Pode ser paradoxal, mas nas coisas mais pequenas vêem-se as maiores. O nosso fundador lembra-nos disto: “Quantas vezes na história foi o pequeno e insignificante início do grande, do maior? [8]O insignificante é cuidado, celebrado, valorizado e partilhado, formando uma rede de insignificâncias cheias de sentido.

2Uma segunda área não tão distante do acima mencionado, onde podemos resgatar algo do que vivemos neste 2020, está na nossa experiência religiosa e espiritual. A religião é a relação transcendental e original do Homem com o fundamento do seu significado, existência, essência. Foi assim que o aprendi para o exame do meu curso em que menos brilhei, mas pelo menos serve-me para colocar esta questão praticamente existencial: Como foi essa relação com o que é fundamento? Tenho a impressão de que este ano exigiu da nossa fé as respostas mais importantes, mais pessoais e mais autênticas. Isto torna possível passar de uma experiência religiosa e espiritual sustentada pela tradição ou hábito ou rotina para uma experiência religiosa enraizada na própria experiência de Cristo. Ainda mais para nós schoenstatteanos. Depois deste ano haverá um futuro promissor se, deixarmos de procurar segurança no nosso caminho de fé e, começarmos a procurar a vida, que é a amizade com Jesus Cristo e a proximidade a Nossa Senhora em Schoenstatt capaz de tornar novas todas as coisas (Cf. Apocalipse 2,15)

3Uma terceira área tem a ver com as minhas relações e vínculos no sentido mais lato destas palavras. Porque apesar do isolamento que este ano impôs, ” Mas não posso reduzir a minha vida à relação com um pequeno grupo, nem mesmo à minha própria família, porque é impossível compreender-me a mim mesmo sem uma teia mais ampla de relações: e não só as do momento atual, mas também as relações dos anos anteriores que me foram configurando ao longo da minha vida.” (FT 89). Pela mesma razão, far-nos-á bem agradecer às pessoas que me apoiaram durante este ano, aquela “nuvem de testemunhas… da luta que está perante nós” (Hb.12,1). Aqueles que estão sempre presentes e os novos amigos. No fim de contas, ” ganhamos plenitude, quando derrubamos os muros e o coração se enche de rostos e de nomes!” (Evangelii Gaudium 274).

O nascimento 

Finalmente, uma experiência pessoal. Há alguns meses, nasceu Iñaki, o meu sobrinho. No meio do pior momento da pandemia e da quarentena, a minha cunhada teve a coragem de dar à luz. Após a minha Ordenação como diácono e já de regresso à Argentina, tive a oportunidade de celebrar o seu Baptismo. A cena foi muito significativa e eu queria recitar-lhe estes versos de Ismael Serrano: “Verás que há dias com espinhos e que pode doer viver, mas lembra-te que todos os dias o mundo amanhece em ti[9]. Ver o recém-nascido traz uma novidade que não esperávamos. Ver o recém-nascido fala-nos de promessa. Ver o recém-nascido compromete-nos com o futuro. No meio deste 2020 muito complicado, celebrámos o Natal. Arranjámos a palha e os animais na nossa manjedoura e reconhecemos este Menino que já nasceu no meio de nós.

Presépio na Igreja St Hipólito em Troisdorf, Alemanha | Foto: Fischer

 


[1] Mendonça, José Tolentino. “O pequeno caminho das grandes perguntas”. Ed Quetzal (2017)
[2] Sábato, Ernesto. “A resistência”.  Edição (2000)
[3] Baricco, Alessandro. “The game”. Ed Anagrama, Barcelona. 2019 p.23 (Não traduzido ao PT)
[4] Comte-Sponville. “Los más jóvenes pagarán el precio de las medidas contra la pandemia”. Entrevista jornal La Nación 1/12/2020 disponível em:  https://www.lanacion.com.ar/el-mundo/comte-sponville-los-mas-jovenes-pagaran-precio-medidas-nid2526858  (ES)
[5] Gumucio, Esteban.“Quiero ser tu amigo, Jesucristo”
[6] Sábato, Ernesto. “A resistência”.  Edição (2000)
[7] Bauckham em Elizabeth Johnson, “La comunidad de la creación
[8] Kentenich, J. “Acta de pré- Fundação
[9] Serrano, Ismael. “Regalo para un primer cumpleaños”

 

Fonte: www.schoenstatt.org.ar – com autorização dos editores e do autor

 

Do mesmo autor:

Diário do amigo. Uma crônica da minha ordenação diaconal

Original: Espanhol (3/1/2021). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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