Colocado em 2020-05-24 In A Aliança de Amor Solidaria em tempos de coronavírus, Artigos de Opinião

Modo de vida cristão “Corpo de Cristo”

Mons. Francisco Javier Pistilli Scorzara•

Todos os que partilhamos o dom da fé e a graça redentora do baptismo estamos unidos num só Corpo, o Corpo Místico de Cristo, como ensina São Paulo na sua carta aos Coríntios (1 Cor 12, 13). Se um membro sofre, todos participam no seu sofrimento. Se um membro é saudável, todos se regozijam. Os membros feridos não são amputados, mas são assistidos e ajudados a sarar.—

A pandemia do COVID-19 afecta-nos a todos, embora de formas diferentes. Por vezes afecta a unidade deste Corpo Místico, quando o medo do contágio gera reacções irracionais, agressões verbais, físicas e sociais, e relega o outro ao esquecimento e à indiferença.

Como se fossem um fardo

Podemos nós, pessoas saudáveis, ignorar os doentes ou desprezá-los, chamando-lhes impuros? Podemos passar sem o pessoal de saúde, assediando-os e atacando-os com palavras e actos violentos, por servirem nos hospitais e se exporem ao contágio? Podemos fechar ruas e bairros e deixar as famílias e crianças que precisam de abrigo à sua sorte? Podemos simplesmente pedir aos maiores de 65 anos e aos que sofrem de doenças, que os predispõem às formas mais graves de COVID-19, que não venham à Missa por qualquer razão e virar-lhes as costas como se fossem um fardo?

A atitude cristã nunca se exprime da mesma maneira: Se estás a sofrer é problema teu, não me chateies. Muito menos no caminho: não quero saber nadade ti, vai-te embora.

Veio, especialmente para os doentes

Aqueles que pertencem ao grupo vulnerável, que são os maiores de 65 anos e aqueles que sofrem de alguma doença, que os predispõe às formas mais graves de COVID-19, e aqueles que estão doentes ou são possíveis portadores do Coronavírus, são membros do corpo de Cristo e têm de suportar os sofrimentos do Senhor. Poderemos dizer-lhes que não podem comungar connosco, partilhar do nosso amor, ser preenchidos com a graça do Pão da Vida? Vamos reservar a graça da saúde e salvar a graça apenas para os membros, que afirmam ser saudáveis por agora?

Jesus diz-nos que veio especialmente para os doentes, que os saudáveis não precisam de um médico (cf. Mateus 9,12). Sabemos que estes irmãos e irmãs são os que mais anseiam por poder participar na Eucaristia, por se sentirem sustentados na comunhão. Não deve estar na nossa mente privá-los da graça de partilhar o Pão da Vida e negar-lhes o amor que merecem.

 

 

 

Continuar a apoiar-se mutuamente

O que fazer então? Qual é a coisa certa a fazer? A fim de cuidar, responsavelmente, da saúde pessoal de todos, precisamos da compreensão e colaboração de todos, para evitar a propagação desta doença e prevenir o mais possível os casos mais graves. Isto suscita a exigência de renunciar, temporariamente, a participar de forma presencial nas assembleias eucarísticas, de organizar formas de relacionamento com respeito e com medidas razoáveis que todos possam levar a cabo, de continuar a apoiar-se mutuamente.

Isto, que significa uma renúncia e um fardo anímico para todos, afecta mais profundamente esse grupo de irmãos e irmãs, atingidos pela doença, pelo seu trabalho na proximidade dos doentes ou pela sua condição vulnerável. São eles, no Corpo Místico de Cristo, que realmente sofrem. Com fé, devemos encorajá-los a compreender esse sofrimento, unindo os seus sofrimentos, de uma forma muito próxima ao Senhor sofredor, que sofreu como vítima inocente, como a Igreja o entende desde os seus primeiros dias: “Porque, assim como nós participamos abundantemente nos sofrimentos de Cristo, assim por Cristo abunda a nossa consolação”, (2 Coríntios 1,5). Nada une mais os discípulos de Cristo do que ter este privilégio humanamente indesejável de participar na sua cruz.

Ousas desprezá-los e virar-lhes as costas? Não foi na cruz que fomos resgatados? Podes chamar-te a ti próprio um cristão devoto e piedoso ao fazer isto? Ao afastares-te do crucificado, estás a separar-te do Corpo, no qual se encontra a verdadeira vida.

Os “sãos” não se salvam se rejeitarem os doentes

Na comunidade dos membros de Cristo, os sãos devem comprometer-se a acompanhar os doentes como cireneus, com a oração, a caridade e a assistência prudente necessária e possível, a fim de tornar real aquela verdade que o Apóstolo Paulo nos transmite: “Um membro sofre? Todos os outros sofrem com ele. Um membro é exaltado? Todos os outros partilham da sua alegria” (1 Cor 12,26). Acima de tudo, devem demonstrar verdadeira piedade, como Maria, que não só segura o corpo ferido e morto da Sua própria carne, mas abraça Aquele a quem Ela deu a vida, dando a Sua vida por Ele.

Os “sãos” não se salvam se rejeitarem estas pessoas doentes, que sofrem oferecendo os seus sofrimentos unidos a Cristo, completando nos seus corpos o sacrifício do Senhor. Estes membros supostamente saudáveis são aqueles que o Senhor separará da Sua comunhão no final dos tempos, porque deixaram de lado aquele que tinha fome, sede, estava doente ou abandonado, era estrangeiro ou prisioneiro, aquele que morreu sem amor. Porque eles não tiveram misericórdia.

 

Original: espanhol (23/5/2020). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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