Colocado em 18. Março 2019 In Casa Mãe de Tuparendá, José Kentenich

Pedagogia kentenichiana na periferia

 Pedagogia kentenichiana na periferia  (2), P. Pedro Kühlcke •

Compartimos las experiencias y conclusiones del P. Pedro Kühlcke, en la aplicación de la pedagogía kentenijiana en la periferia, concretamente en una cárcel de menores y en el programa de reinserción social “Casa Madre de Tuparenda”. Se trata de la segunda parte de un texto elaborado desde una conferencia para la Juventud Masculina de Schoenstatt de Tuparenda.—

Partilhamos as experiências e conclusões do Padre Pedro Kühlcke na aplicação da pedagogia kentenichiana na periferia, concretamente numa prisão para menores e no programa de reinserção social “Casa Mãe de Tupãrenda”. Trata-se da segunda parte de um texto elaborado a partir de uma conferência para a Juventude Masculina de Schoenstatt de Tupãrenda.

 

Pedagogia da confiança e do movimento

O Padre Kentenich fala das estrelas da pedagogia schoenstatteana. Na nossa pedagogia, escreve o Pai-Fundador, isto em 1950, distinguimos estrelas e formas fundamentais. Mas, não me atrevo a gastar tempo para explicar isto mais pormenorizadamente.[1] Menos mal, porque quando o Pai “explica pormenorizadamente” são assim umas 10 conferências para falar, apenas, da primeira estrela. Perguntem ao Pe. Oscar que acaba de fazer um curso de três semanas para o “Kentenich Magister”. A que conferência chegaram com a primeira estrela?

São as seguintes: pedagogia de ideais, pedagogia de vinculações, pedagogia de Aliança, pedagogia de confiança e pedagogia de movimento. Cinco expressões com um rico, muito rico conteúdo[2]. Parece-vos que conhecem alguma destas cinco? “Aliança”, “Vinculações”, “movimento”… para alguma coisa somos um Movimento e não uma estrutura estática, uma instituição. Pedagogia do Ideal parece-vos conhecida? Pedagogia de confiança? Estas são as cinco estrelas; e, de uma maneira ou outra, as vivemos em Schoenstatt, ainda que, não saibamos o nome, ainda que, nunca tenhamos ouvido falar delas explicitamente.

Pedagogía de confianza

“Em primeiro lugar trata-se da confiança muito grande e forte no bom que há nas pessoas, nos seres humanos. Posteriormente, demos a isto um nome convincente e clássico: pedagogia de confiança”

Analisemos, por exemplo, um pouco esta estrela da confiança. O Padre Kentenich diz:

 “Em primeiro lugar trata-se da confiança muito grande e forte no bom que há nas pessoas, nos seres humanos. Posteriormente, demos a isto um nome convincente e clássico: pedagogia de confiança”.[1]

É isto que me maravilha no Pai, tem uma visão tão positiva! Há, em vocês, alguma coisa boa? Claro que sim! Há alguma coisa boa num ladrão, num criminoso de gangues? Aí já a pergunta fica bastante complicada… Em todos há alguma coisa boa, inclusivamente, naqueles que não sabem isso!

Reparem como o Pai-Fundador aprofunda isto:

“Se me permitem que utilize uma expressão drástica que já usei numerosas vezes ao dirigir-me às Irmãs: é uma arte superar, em nós, o escaravelho esterqueiro e, cultivar, em nós, a abelha. Certamente percebem o que a frase quer dizer. Temos que dar ao outro, também, o direito ao seu ser. Isto é, educar-nos, primeiro, a nós próprios, para vermos nele o mais positivo, o valioso, em vez de, estarmos sempre a pôr em primeiro plano o que não gostamos nele”. [2]

Escaravelho esterqueiro – este bichinho típico da Alemanha que, está sempre à procura do lixo; aqui, haverá certamente uma coisa parecida. Já viram que, quando uma vaca deixa cair alguma coisa, juntam-se lá as moscas todas e outros tipos de bichos.

Diria com outras palavras: Podemos ter olhos de mosca ou podemos ter olhos de abelha. O que acontece se, num campo soltais uma mosca e uma abelha? Passado um bocado vem a mosca e diz: “Este campo está cheio de esterco!” A abelha, ao contrário, regressa e diz: “Este campo está cheio de flores!” Mas, é o mesmo campo! A mosca vê o mau, o lixo, o esterco – a abelha vê as flores!

Há pessoas que veêm tudo com olhos de mosca porque, preferem ver o negativo, o mau, o esterco. Mas, também há pessoas que aprenderam a olhar com olhos de abelha – escolhem ver o bom, as flores. Em todo o lado há o negativo e o positivo; sou eu quem escolhe o que prefere ver.

Lá, na prisão também tratamos de olhar sempre com os olhos de abelha. Muitas vezes, encontramos rapazes cuja vida é um desastre: drogados, criminosos de gangues, assassinos… encontra-se de tudo. Há rapazes que fizeram coisas horríveis. Quando, geralmente, pela primeira vez na sua vida, se abrem e reconhecem tudo, dão-se conta que o seu coração parece uma pedra dura, fria, escura, com muita vergonha e desprezo por si próprios – por vezes com um vazio tremendo de solidão e sofrimento, por vezes com um caudal de lágrimas que nunca tinham podido sair daí – e, tudo muito bem escondido por trás de uma máscara de macho duro e sorriso falso.

E, sabem o que lhes digo? “Tu tens um coração de ouro!” O rapaz olha-me com uma cara como a dizer: “Mas, de que é que está a falar este Padre, se acabo de lhe contar tudo o que de mal fiz na minha vida?” Eu insisto: “Tens um coração de ouro, sabias?”. Não, não sabia! Nunca ninguém, alguma vez, lhe tinha dito uma coisa assim.”

E, sabem o que lhes digo? “Tu tens um coração de ouro!”

Porquê um coração de ouro? E, então, é preciso explicar-lhes um pouco como descobri o seu coração de ouro. Por exemplo: teve coragem para se aproximar de um sacerdote para falar, coisa que nunca tinha feito na sua vida; teve coragem para reconhecer o que tinha feito… De onde veio a confiança para contar o que nunca tinha contado a ninguém? Não do coração de pedra mas, do coração de ouro. Ou, donde vem o que diz: “Realmente, fiz coisas muito más, preciso de pedir perdão a Deus e às minhas vítimas, preciso de mudar?” Do coração de ouro! Esse coração que quer brilhar mas que, estava tapado com muito esterco… Ajudar o outro a descobrir que tem alguma coisa boa , isto é pedagogia de confiança. E funciona e muda vidas!

Um dos rapazes tinha-me contado que toda a família dele vivia no crime: a avó dedicava-se ao tráfico de drogas, a mãe era “carteirista”, o pai assaltante e bandido…todos já tinham passado ou estavam a passar bastante tempo na prisão. E, pensamos: “Claro, o que teria podido aprender este rapaz em toda a sua vida?” Quando a mãe se zangava com ele, o que acontecia muitas vezes, dizia-lhe que ele ia ser como o pai ; e, então, no seu sub-consciente ficou que, também, tinha que ser assaltante, bandido, presidiário. Nunca imaginou outra alternativa. Quando lhe falei do seu coração de ouro, foi uma revelação para ele:”Posso ser diferente, posso mudar a história da minha família!” Agora, anda na catequese porque quer baptizar-se e ser um bom filho de Deus. O outro dia disse-me orgulhoso: “Padre, já sei o Credo quase todo de cor! Quando me baptizas?”

Vocês conhecem rapazes que andam por aí a cultivar o seu complexo de inferioridade? “Não sirvo para nada; não posso; não, é melhor pedir a outro…”Quando pedem a alguém que faça a oração no início da reunião: “Não, eu não sei rezar.” O quê? Ou que seja chefe de grupo: “Não, é melhor outro que esteja mais preparado, eu não tenho jeito para isso.” Puro complexo de inferioridade! Todos sabemos, obviamente!  Todos temos coração de ouro, todos temos alguma coisa boa. O Padre Kentenich ensina-nos a procurar e a encontrar o bom em nós e nos outros – muito conscientemente exercitar-nos a fechar os olhos de mosca e a abrir os olhos de abelha. Na nossa convivência com o próximo, conscientemente, procurar o positivo. Posso assegurar-vos que isso muda vidas!

Lembro-me que uma vez um jovem me enviou uma mensagem, um bom tempo depois de ter saído da CEI. Contou-me que voltou a cair nas drogas, roubou, e mais umas quantas coisas…Foi apanhado pela polícia e, como já tinha 18 anos foi colocado na prisão para adultos: lá tudo é muito mais complicado que na CEI! Em todas as prisões estão proibidos os telemóveis mas, por vezes, conseguem, ter um,por breves instantes. Foi, mais ou menos, assim o diálogo por mensagem: “Olá Padre, tanto tempo! Como está?” “Tudo bem, e tu?”“Tudo bem, também!” Respondi-lhe frontalmente: “Mentira! Onde estás?” “Na prisão, novamente.” “A sério, o que se passou?” “Voltei a cair.” “Como estás agora?” “Mais ou menos, mas estou a batalhar.” “E, queres mudar realmente?” “Sim, Padre! Lembro-me sempre do que me disse que tenho um coração de ouro.” Imaginem que fazia mais de ano que lho tinha dito mas, o rapaz lembrava-se perfeitamente de que, alguém, uma vez, lhe tinha dito que tinha um coração de ouro. E, por mais que tivesse caído, por mais que tivesse feito asneira outra vez, ficou isso: o coração de ouro e a vontade de lutar e continuar para a frente, apesar de tudo.

Percebem quão importante é esta pedagogia de confiança? Por exemplo, estava com um grupo e alguém me disse:”Na realidade gostaria de ajudar em tal assunto mas, não tenho coragem porque, não sei se me vou sair bem.” Mas claro, com certeza, vai, fá-lo!” Vais fazer erros? Claro! Ninguém nasce com a garantia de nunca cometer erros. Mas, de qualquer maneira podes fazê-lo!”

Pedagogia de confiança: oferecer confiança ao outro, ver o bom no outro. Isto vem de se ter confiança em si próprio e acreditar que também se nasceu com um coração de ouro.

Misa con los jóvenes de CMT en el Santuairo de Tuparenda

Pedagogia do movimento

Muitos outros Movimentos estão bastante mais “estruturados”; primeiro é preciso fazer isto, depois aquilo e assim por diante. Em Schoenstatt temos esta maravilhosa liberdade de seguirmos um caminho pessoal – para esse objectivo claramente reconhecido

A seguir o Pai fala, também, da pedagogia de movimento que, tem muito a ver com a pedagogia de confiança. O que é a pedagogia de movimento?

O Padre Kentenich diz-nos de modo muito concreto:

Deitemos “um olhar para o interior de um reino que se rege pela pedagogia de movimento. Se bem que, haja muita baixa-mar e praia-mar e as correntes choquem com frequência no seu âmbito, a saúde da disposição psíquica encontra em todo o lado, a seu tempo, o ponto de repouso e o equilíbrio.” [1] Tudo claro? Comecemos a traduzir…

Quem, de entre vós, já foi de férias para ao pé do mar, na praia, no Brasil, no Chile?  No mar acontece uma coisa que, de ordinário, no rio não acontece tanto – no rio acontece uma vez ao ano e, no mar todos os dias: a água sobe, “Praia-mar” e, de repente, volta a baixar “baixa-mar”às vezes de noite; às vezes de dia, porque isto depende da lua. No rio, depende de outra coisa: quando chove, o rio sobe e há inundações típicas dos nossos bairros periféricos.

Praia-mar e baixa-mar: não somente no mar ou no rio, isto acontece em muitos aspectos da vida: Às vezes as coisas sobem, crescem, está tudo bem; e às vezes baixam, tudo é seca, calamidade. Mas, com o tempo, diria o Padre Kentenich, alguma coisa se vai canalizando, encontrando um equilíbrio. Por exemplo, a nossa Juventude Masculina de Schoenstatt: um ano tudo óptimo, cinco grupos novos, escola de chefes, dez consagrações de membros, fantástico! E, no ano seguinte? Baixamos, não resta nada, calamidade: dêmos um tiro na cabeça, acabou-se tudo! Não, não vamos dar um tiro! Vamos continuar a lutar porque, em algum momento regressa a praia-mar, a situação muda. A isto o Padre Kentenich chama a “pedagogia de movimento”: Vamos, vimos, alguns vão-se embora, alguns voltam a aparecer ao fim de uns anos…Não é verdade? Há muito movimento. Não é que avancemos todos igualmente como na escola: primeiro ano, segundo ano, terceiro ano. Cada um cresce por sua conta, às vezes por caminhos muito sinuosos – e, de repente, o rapaz que menos  imaginámos, está, de joelhos, à nossa frente no Santuário a selar a sua Aliança de Amor.

“A pedagogia de movimento conduz pelo caminho do movimento com fins claramente reconhecidos”[2]

Por exemplo: a este grupo agora tocar-lhes-ia uma coisa determinada, mas dizem: “Não, queremos fazer outra coisa!” “Perfeito, são livres, vocês decidem”. Mas, o objectivo primordial, o fim claramente reconhecido é a Aliança de Amor – pelo caminho que vocês escolham. Se estamos em Schoenstatt é porque nos queremos vincular ao Santuário, à Mater e ao Pai-Fundador. Se, um grupo chega e diz: “Não, isto da Aliança e de rezar e ir à Missa aos Domingos, isto não é para nós!” Então, tudo bem, então vão para outros grupos como o Techo ou os Rotários, ou procurem outra coisa. Em Schoenstatt temos um objectivo claro: somos um grupo religioso, queremos selar a Aliança… Temos um objectivo claro mas, o caminho pode ser bastante diversificado. Isto é pedagogia de movimento.

“Quanto mais você meditar sobre todas estas coisas, tanto mais convencido estará de quanta liberdade pessoal reina e irrompe em todos os lados, muito mais que noutras comunidades”.[3]

Muitos outros Movimentos estão bastante mais “estruturados”; primeiro é preciso fazer isto, depois aquilo e assim por diante. Em Schoenstatt temos esta maravilhosa liberdade de seguirmos um caminho pessoal – para esse objectivo claramente reconhecido. O Pai continua a dizer: “Enquanto houver uma mente esclarecida que veja a totalidade do conjunto e uma mão firme por cima de tudo, sem querer aplacar as ondas antes do tempo…” [4] Não se trata de uma “ordem de quartel”: “Vocês querem fazer isto? Não, agora faz-se isto, ponto final, acabou a discussão!” Não, pelo contrário: Façam o vosso próprio caminho, façam as vossas experiências! É o que vivemos na JM de Schoenstatt e, é o que também vivemos na prisão: pedagogia de movimento!

Por exemplo, lembro-me de um jovem que saiu da prisão, veio para cá, para o nosso programa da Casa Mãe de Tupãrenda, começou muito bem durante um ou dois meses. De repente, um fim-de-semana, o que aconteceu? Vejo-o, de novo, na prisão na segunda-feira. “O que te aconteceu, se estavas tão bem?” “Encontrei uns amigos…” “A tua malta reunida?” “Sim, Padre. Começámos a beber cerveja, a seguir vodka. Um trouxe marijuana e, a seguir quisemos fumar uma coisa mais forte, fui roubar um telemóvel, a polícia apanhou-me e, cá estou, outra vez”.

Lembram-se, na sua visita ao Paraguai, no encontro com os jovens na Costanera? Lá acrescentou: “Façam balbúrdia mas, organizem-na bem!” Isto traduzido é pedagogia de movimento e de confiança. E, complica-nos a vida. Seria muito mais fácil ter tudo arrumadinho, certinho, organograma para cá, esquema para lá…mas, a vida não é assim. A vida é desordenada mas, a vida tem que ter, sempre, um objectivo.

O que diriam vocês? “Que calamidade, esquece, não serves para nada!” Não! Disse-lhe: “Bom, agora vais estar um tempo aqui na prisão, vais voltar a cultivar o teu coração de ouro e, quando saíres, se realmente queres levar por diante a tua vida, espero-te de novo em Tupãrenda. “Este rapaz agora já se graduou na Casa Mãe, cumpriu muito bem os nove meses – na sua segunda tentativa! – e, está a trabalhar profissionalmente numa padaria, com contrato a termo, salário regular e Segurança Social. Mas, se a este rapaz não lhe tivessem dito: “Bom, meteste a pata na poça, já está, mas confio em ti, tu podes, tornar a lutar!” Na melhor das hipóteses hoje estaria noutra prisão qualquer ou, inclusivamente, num lugar pior. Estão a ver? Isto é pedagogia de movimento: faz o teu caminho, comete os teus erros, não há problema! Mas, temos um objectivo: queremos avançar; ou na JM diríamos: queremos selar a Aliança, queremos ser bons filhos de Deus e da Mater.

Pedagogia de confiança e de movimento: a propósito, mencionei-as em primeiro lugar porque são um bocado menos conhecidas mas, são as que, realmente, vivemos, ou pelo menos queremos viver. O problema destas duas estrelas é que nos complicam a vida. Por exemplo, quando na reunião de chefes da JM estão a analisar como está cada grupo: “Este grupo é uma calamidade – agora ocorreu-lhes não sei que coisa…” Mas que fantástico, maravilha-me, para a frente! Mas, vão querer selar a Aliança de Amor em algum momento, ou não?

“Desordenem, façam balbúrdia!”, diria o Papa Francisco. Lembram-se, na sua visita ao Paraguai, no encontro com os jovens na Costanera? Lá acrescentou: “Façam balbúrdia mas, organizem-na bem!” Isto traduzido é pedagogia de movimento e de confiança. E, complica-nos a vida. Seria muito mais fácil ter tudo arrumadinho, certinho, organograma para cá, esquema para lá…mas, a vida não é assim. A vida é desordenada mas, a vida tem que ter, sempre, um objectivo.

Página oficial de Fundaprova/Casa Mãe de Tupãrenda,  www.fundaprovapy.org

Fotos: Maria Fischer @schoenstatt.org
[1]Herbert King (ed.), José Kentenich: Uma apresentação do seu pensamento em textos. Volume 5: Textos pedagógicos. Ed. Nueva Patris, Santiago de Chile, 2008. Citado como “King”. Pág. 119.
[2]King, 119.
[3]      King, 208.
[4]      King, 215.
[5]      King, 314.
[6]      King, 312.
[7]      King, 315.
[8]      Íd.

Original: espanhol (10/3/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

Liberdade na prisão?

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