Colocado em 28. Abril 2018 In José Kentenich

Schoenstatt para o século XXI

Juan Zaforas, Madrid, Espanha, Equipa base de schoenstatt.org •

Se, realmente acreditamos que o Padre Kentenich era um profeta, então estaremos de acordo em que, como todos os profetas, possui uma visão dos acontecimentos futuros. Do mesmo modo que relemos várias vezes as profecias dos grandes profetas e as interpretamos à luz dos nossos dias, assim de igual modo, deveríamos fazer, com a vida e o testemunho do nosso Fundador, José Kentenich. –

Há uns dias atrás foi partilhado na Comissão Base de schoenstatt.org, um artigo publicado no “El País”, jornal de Espanha, sobre o tema de Big Data e a utilização de dados de redes sociais para montar estratégias políticas (Cambridge Analytica, Facebook, etc.). Fez-me reflectir sobre o que ali era dito e partilhei-o. O Pe. José María García e a Maria Fischer incentivaram-me a aprofundar mais e, foi o que fiz. Fruto dessa reflexão surgiu um texto que foi partilhado com toda a equipa de schoenstatt.org para procurarmos um feedback. O título é “Schoenstatt para o século XXI”, creio que se lê facilmente, ainda que, recomendo que o leiam várias vezes para chegarem ao fundo da questão. Foi escrito para reflectir e aplicar ao nosso projecto comunicacional schoenstatt.org mas, achamos que é um tema que não se limita à nossa equipa e ao nosso projecto. Obrigado pelo vosso tempo e compromisso responsável com a missão profética do Pe. Kentenich e da sua Família.

 

Schoenstatt para o século XXI

Kentenich

Se, realmente acreditamos que, o Padre Kentenich era um profeta, então estaremos de acordo em que, como todos os profetas, possui uma visão dos acontecimentos futuros. Do mesmo modo que relemos várias vezes as profecias dos grandes profetas e as interpretamos à luz dos nossos dias, assim de igual modo, deveríamos fazer, com a vida e o testemunho do nosso Fundador, José Kentenich.

 

Passemos em revista algumas passagens da sua vida:

  • Em 1912, Josef Kentenich que tinha o cargo de professor de Latim e de Alemão no Seminário Menor dos Padres Pallottinos no vale de Schoenstatt próximo de Vallendar, é encarregado de ocupar o posto de Director Espiritual do mesmo. Kentenich não confia nos métodos pedagógicos em uso no Seminário e decide mudá-los, mesmo apesar dos problemas que isso lhe poderia acarretar. O seu objectivo é formar personalidades firmes e livres que, vivam santamente no meio do mundo moderno, conduzindo os seus alunos a uma séria auto-educação, entregando-lhes Nossa Senhora como Mãe e Educadora.

A sociedade actual não é muito diferente da que existia e na qual viveu o Pe. Kentenich há cem anos. Mudaram as ferramentas, muito mais poderosas, rápidas e eficientes que as de então (Internet, Redes Sociais, BigData,…), mas não mudou o fundo do problema. Uma sociedade desinformada, incapaz de formar uma opinião com base nos seus próprios critérios e uma falta de valores fundamentais. Vejamos o que se passava na Alemanha e na Europa naquela altura e poderemos chegar à conclusão de que não estamos assim tão longe. O Pe. Kentenich não era alheio ao que acontecia à sua volta e decidiu agir, agir onde podia e onde tinha capacidade para o fazer, como Director Espiritual de um Seminário Menor dos Padres Pallottinos, o seu trabalho e tarefa diários.

  1. A primeira interpretação profética diz-nos que devemos agir no que é corrente (quotidiano), a partir dos nossos afazeres diários, dos nossos trabalhos e tarefas, tal como, fez o Pe. Kentenich. Observando a realidade que nos rodeia, traçando objectivos, questionando o estabelecido se for necessário, mudando os métodos obsoletos e colocando tudo nas mãos de Deus, permanecendo atentos à resultante criadora. Perguntemo-nos sempre “E agora, o que faço”, não tomemos nada como evidente, sejamos críticos e fixemos os nossos objectivos.

 

  1. Uma segunda interpretação desta passagem está no objectivo que o Pe. Kentenich tinha: formar personalidades firmes e livres. Sem dúvida nenhuma, este seria o melhor antídoto para evitar a sociedade despersonalizada na qual nos calhou viver. Eduquemos, informemos e instruamos esta sociedade a ser crítica, livre, a não acreditar em tudo, a não ser dependente de nada nem de ninguém e, muito menos, de ferramentas tão sofisticadas como as que nos rodeiam. Perguntemo-nos que fazemos à nossa volta no que diz respeito à educação e à formação dos outros.
  • Com um grupo de jovens seminaristas, fundou em 19 de Abril de 1914, uma Congregação Mariana, inspirado num modelo pedagógico muito popular dentro da Igreja Alemã. Posteriormente, em 18 de Outubro de 1914, em conjunto com um grupo de jovens da Congregação Mariana, sela uma Consagração, chamada Aliança de Amor, com Nossa Senhora, numa capelinha situada no jardim do Seminário e que, tinha sido, por eles, acondicionada como lugar de reuniões.

Este episódio é chave no porvir dos acontecimentos seguintes e no que são as bases do Movimento de Schoenstatt. Uma vez fixados os objectivos e tomada a decisão de agir, pelo Pe. Kentenich, o passo seguinte é fazer que aqueles rapazes que, lhe foram confiados, se convertam numa comunidade, estabeleçam vínculos entre eles, partilhem os objectivos, estabeleçam propósitos e metas. Mas, a comunidade não é uma comunidade qualquer, trata-se de uma Congregação Mariana e culmina com uma Aliança de Amor com Maria. Que melhor Aliada para levar a cabo a missão empreendida.

 

 

 

  1. A terceira interpretação profética mostra-nos que a tarefa é imensa e, na nossa pequenez é necessária ajuda, a primeira e da qual somos herdeiros, é a Aliança de Amor. Na medida em que, A vivamos, plenamente, estaremos a receber uma grande chuva de graças para podermos levar a cabo a tarefa. Mas, não esqueçamos o outro lado da visão profética. A comunidade de corações é fundamental para o conseguirmos. Vivamos a nossa Aliança com Maria intensamente e desenvolvamos vínculos na nossa comunidade.
  • Em 1919 é fundada a União Apostólica de Schoenstatt com a intenção de expandir o carisma mariano para além dos jovens seminaristas pallottinos.

Pouco depois de terminar a Iª Guerra Mundial, longe de se ter esgotado o que começou no Seminário Menor, em Schoenstatt, o Pe. Kentenich surpreende-se com o interesse despertado em homens e mulheres que, tendo sabido, na frente de batalha, da existência de Schoenstatt e do Pe. Kentenich, querem unir-se a esta ideia. O Pe. Kentenich em vez de se emocionar com o que está a acontecer, mostra-se receoso e precavido. Um destes momentos é vivido em Hoerde quando, nem sequer vai ao encontro e, aí, surge o gérmen do que, mais tarde, seria o Movimento e a União.

  1. Quarta interpretação profética. É preciso deixar-se surpreender e confiar em Deus como crianças. Façamo-nos crianças perante Deus e deixemo-nos surpreender.
  • Na década de 30, o movimento que estava a ser suscitado ao redor do Pe. Kentenich chamou a atenção do regime nazi, ao qual o Pe. Kentenich desde o seu início, se opôs tenazmente, através de constantes críticas. Em oposição à pedagogia de massificação social propiciada pelos nacional-socialistas, o Pe. Kentenich propunha uma pedagogia de liberdade interior e de decisão pessoal, a qual não estava, cegamente, adstrita a nenhuma ideologia mas que, garantia a liberdade individual e de consciência de cada pessoa à luz da fé e da educação mariana.

Pouco podemos acrescentar ao que acontece nesta etapa. O Pe. Kentenich conta já com uma ampla comunidade, tem uma Aliança com Maria e tem uns objectivos claros. Já só lhe falta agir, ainda que, com o risco do que possa acontecer mas, decide dar o salto que permita salvar uma sociedade doente e, para isso, propõe-se formar personalidades rectas e livres. Repete o esquema que já utilizou no Seminário mas, agora, enfrenta-se a uma sociedade mais complexa que um grupo de jovens e, sobretudo, a uma autoridade como o nacional-socialismo, em vez de, aos seus Superiores.

  1. Quinta visão profética. Os objectivos estão claros desde o princípio e mantêm-se, os aliados são basilares, a Aliança com Maria e a Comunidade mas, agora é necessária muita coragem e ousadia para agir. O cenário é outro e mais complexo mas, o Pe. Kentenich assume o risco, sai da sua zona de conforto e, de novo, faz frente ao estabelecido. Devemos agir com decisão e ousadia, ainda que, isso suponha termos dificuldades.
  • Depois de dar um Retiro a sacerdotes, Josef Kentenich foi feito prisioneiro em Coblença no ano de 1941 e, no ano seguinte, foi enviado para o Campo de Concentração de Dachau. Segundo fontes próximas do sacerdote, teve a oportunidade de evitar a sua transferência para o Campo de Concentração, por meio de algumas influências mas, segundo o seu próprio testemunho, dado anos mais tarde, na sua ida para o Campo de Concentração vislumbrava os planos de Deus para ele, entregando-se como oferta pela santificação dos schoenstatteanos e da Alemanha. A partir da sua visão de fé, a sua ida para Dachau estava nos planos de Deus como um meio de santificação própria e de santificação para a sua família espiritual, a Família de Schoenstatt. Em 20 de Janeiro de 1942, depois de renunciar à possibilidade de evitar este sofrimento, Josef Kentenich entra no Campo de Concentração de Dachau, partilhando a dor de milhares de judeus, prisioneiros políticos e de outras pessoas consideradas perigosas para o regime de Adolf Hitler, incluindo muitos outros sacerdotes e bispos.

Vivemos, sem dúvida, um dos momentos mais complicados da história do Pe. Kentenich e certamente da história do Movimento de Schoenstatt. A sua vida estava em jogo e todos os planos se podiam esfumar num ápice. O Pe. Kentenich vê, como voz de Deus, este episódio e não faz nada para o evitar, vislumbra-o como o plano de Deus para ele.

  1. A sexta visão profética mostra-nos como o Pe. Kentenich é capaz de ouvir a voz de Deus e os Seus planos apesar do perigo que rodeia a decisão. Está claro que, Deus “deita mão” a qualquer circunstância, boa ou má, para levar a cabo os planos que tem para cada um de nós. Somos instrumentos na Sua mão que, devem agir livremente, tal e como fez o Pe. Kentenich e tentarmos discernir qual é o plano que Deus tem para cada um de nós. Ouçamos a voz de Deus e ajamos a partir da nossa liberdade, após o discernimento.
  • A enorme influência espiritual que o Pe. Kentenich foi conquistando nos anos posteriores ao Campo de Concentração, assim como, a profundidade do vínculo que o unia à sua Fundação, começaram a provocar incompreensões em relação a ele e à sua Obra, tanto dentro da mesma, como nas autoridades eclesiásticas. Os métodos pedagógicos da espiritualidade schoenstatteana foram postos sob um ponto de interrogação por diversas pessoas, devido ao seu contraste com as formas pedagógicas da Igreja anterior ao Concílio Vaticano II. Se bem que, muitas autoridades eclesiásticas participavam, inclusivamente, nos seus Retiros. E a espiritualidade mariana de Schoenstatt foi, por alguns, considerada pouco tradicional e fizeram o pedido de uma Visitação Eclesiástica ao Pe. Kentenich e ao seu Movimento. Os resultados da Visitação poderiam ser considerados um êxito por qualquer pessoa, visto que aprovava todos os conteúdos e, é claro, a espiritualidade do Movimento, fazendo ressaltar, simplesmente, que certos métodos pedagógicos, talvez, devessem ser reconsiderados. A resposta do Pe. Kentenich não se fez esperar: para ele, os métodos que estavam a ser postos em dúvida eram, precisamente, os pilares do carisma do Movimento e o modo de garantir a educação “orgânica” da fé que ele tanto procurava. A Visitação produziu uma abundante correspondência do Pe. Kentenich para as autoridades eclesiásticas, acentuando a importância dos pontos postos em dúvida e, argumentando que a sua não compreensão era, precisamente, consequência das falhas na compreensão da fé por parte da autoridade eclesial anterior ao Concílio Vaticano II. Se bem que, actualmente, todas as suas correções são admiradas e, inclusivamente, foram consideradas na redação de certos pontos do Concílio, naquele tempo, foram causa de grande desgosto e, a dureza com a qual Josef Kentenich se expressou ocasionaram uma grande indignação em algumas autoridades. A resposta do Pe. Kentenich foi considerada desproporcional à simplicidade da recomendação eclesiástica, o seu comportamento crítico e enérgico foi tomado por alguns como um ataque e, sem nenhuma argumentação, foi ordenado a Josef Kentenich que se separasse do Movimento de Schoenstatt até que, certos pontos fossem esclarecidos. A separação da sua Obra deveria ser levada a cabo longe de qualquer dos seus Centros, razão pela qual, foi recebido com os seus irmãos pallottinos na cidade de Milwaukee, Estados Unidos. A medida disciplinar converteu-se num exílio e certas problemáticas prolongaram a pena pela dolorosa duração de 14 anos.

 

 

 

Se há algum episódio profético é, sem dúvida, este. O Pe. Kentenich ao longo desta etapa mostra-nos, pelo menos, duas questões importantes. A primeira é a permanência nos princípios que são a base da vida de cada um e dos objectivos fixados. A partir da sua liberdade e ainda que, apesar, das consequências, conserva a sua verdade e, nada nem ninguém o faz mudá-la. O segundo ensinamento que podemos tirar é a aceitação das consequências da sua decisão e que implica, nada menos que, um exílio de 14 anos e a separação da sua Obra. Duas atitudes que nos deixam uma mensagem clara do que é a sua visão profética.

  1. A sétima visão profética fala-nos, portanto, de mantermos os princípios apesar do que nos possa comprometer e complicar a nossa vida. Sejamos coerentes com os nossos princípios até ao fim sem nos determos nas consequências que possam daí resultar para nós.
  • O epitáfio do seu Túmulo, por ele escolhido, é uma síntese da atitude fundamental que o guiou durante toda a sua vida e obra, da intenção mais profunda e sincera do seu coração: “Dilexit Ecclesiam” que, em latim quer dizer, “Amou a Igreja”.

Abordemos o último episódio desta revisão exaustiva do que foi a vida do Fundador do Movimento de Schoenstatt e terminemo-la com o seu epitáfio que resume e dá sentido ao que foi a sua vida, Dilexit Ecclesiam. Nestas duas palavras está encerrada a mensagem mais profética de todas as que nos deixou através da sua vida e da sua obra. Nada teria sentido se não tivesse sido feito por amor à Igreja que, o levou a aceitar decisões, contra ele, muito questionáveis, sem que isso apoucasse o seu sentimento de que tudo o que fazia era pela Igreja.

  1. A oitava visão profética tem a ver com um amor incondicional à Igreja e amor acima de todas as coisas. Amemos a Igreja acima de tudo, ainda que, por vezes, não partilhemos com Ela todas as Suas decisões.

 

Reunindo as oito vozes proféticas que nos surgiram, temos o seguinte esquema de trabalho:

  1. Perguntemo-nos sempre “e agora o que faço”, não tomemos nada por evidente, sejamos críticos e fixemos os nossos objectivos.
  2. Perguntemo-nos o que fazemos ao nosso redor no que respeita à educação e à formação dos outros.
  3. Vivamos a nossa Aliança com Maria intensamente e desenvolvamos vínculos na nossa comunidade.
  4. Façamo-nos crianças perante Deus e deixemo-nos surpreender.
  5. Devemos agir com decisão e ousadia ainda que isso suponha termos dificuldades.
  6. Ouçamos a voz de Deus e ajamos a partir da nossa liberdade, após o discernimento.
  7. Sejamos coerentes com os nossos princípios até ao fim, sem nos determos nas consequências que possam daí resultar para nós
  8. Amemos a Igreja acima de tudo, ainda que, por vezes, não partilhemos com Ela todas as Suas decisões

 

Revendo estas oito atitudes em relação à nossa vida, à vida do nosso grupo, à da nossa comunidade, à dos nossos projectos, por exemplo: schoenstatt.org, podemos ver se, estamos alinhados ou não, com a visão profética do nosso Pai-Fundador e, isso, permitir-nos-á actualizar o fundamental no tempo que nos calhou viver. O século XXI de Schoenstatt.

Schoenstatt para o século XXI, Juan Zaforas – schoenstatt.org (pdf)

Kentenich

Original: espanhol (22/4/2018). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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