Colocado em 2016-04-10 In O que o Ano da Misericórdia?

Tem misericórdia dos políticos…porque quando votamos neles, votamos em nós próprios

Por Sebastián Acha, Asunción, Paraguai, schoenstatteano desde sempre e durante 10 anos Deputado nacional – Uma contribuição para a série: O que significa o Ano da Misericórdia? •

José Ortega y Gasset escrevia na década de 20 do século passado. “A característica que melhor define a peculiaridade duma raça é o perfil dos modelos que elege, como nada revela melhor a radical condição dum homem do que os tipos femininos pelos quais é capaz de se apaixonar. Na escolha da amada fazemos, sem o saber, a nossa confissão mais verdadeira”[1]

Como cristão na vida pública, foi meu primeiro desejo, pretender levar as ideias de santidade da vida diária do Padre Kentenich para a vida política. Durante dez anos coube-me ocupar um lugar na Câmara de Deputados do Paraguai e, talvez, atraiçoado pela minha juventude e, por aqueles ideais de ser porta- bandeira e de entrega total, trabalhei arduamente, para que os projectos –de- lei que apoiassem projectos de política pública de inserção social, melhoria da qualidade de vida e de redução da pobreza, de democratização e excelência na educação pública se tornassem realidade.

Não só não encontrei apoio, como recebi ataques, ofensas, insultos e calúnias em dito processo. Os primeiros cinco anos mostraram-me que, tudo o que eu acreditava que era “bom”, não era viável. Não conseguíamos mais do que dez votos numa Câmara de 80 congressistas.

Imediatamente a seguir a estes anos de dura aprendizagem, comecei a compreender que, todas as pessoas que, ali, estavam sentadas, eram o melhor projecto de vida que eles próprios poderiam ser. Muitos deles, filhos de humildes lavradores, outros, herdeiros de velhos “caudillos” da época da ditadura e, alguns bem intencionados cidadãos que, tinham chegado por diferentes vias, desenvolveram na sua liderança, o nivel de excelência que podiam.

À luz da opinião pública – ou, opinião publicada – ridicularizados como ignorantes, primários, homens das cavernas, corruptos e, até, narcotraficantes, não pareciam nunca dar-se conta de tais acusações. Continuavam a votar contra “os intereses da maioria” e, nas sucessivas eleições, contudo, tinham grande éxito eleitoral, colhendo vitórias das suas andanças pelas suas ciudades e departamentos. Alguma coisa não funcionava na minha lógica.

Comecei, então, a sentir, intuitivamente, o que o Santo Padre hoje verbaliza, com tanta clareza, no Ano da Misericórdia quando nos diz: “O Evangelho da misericórdia, que se deve anunciar e escrever na vida, procura pessoas com o coração paciente e aberto, «bons samaritanos» que conhecem a compaixão e o silêncio perante o mistério do irmão e da irmã”… Quer alcançar as feridas de cada um, para medicá-las. Ser apóstolos de misericórdia significa tocar e acariciar as suas chagas, presentes hoje também no corpo e na alma de muitos dos seus irmãos e irmãs. Ao cuidar destas chagas, professamos Jesus”.

No ano de 2004, um querido amigo meu que, tão prematuramente, nos deixou, Gerard Le Chevalier, escreveu um artigo maravilhoso a que chamou “ Procuram-se políticos honestos para sociedades corruptas”. Numa das suas frases mais memoráveis daquela curta mas, importantíssima, contribuição, dizia: “O éxito duma pessoa num cargo, depende, fundamentalmente, dos critérios para a contratar. Enquanto os requisitos das nossas sociedades para os seus políticos forem, a mentira, a corrupção, o oportunismo, o clientelismo, o populismo e a demagogia, não deveria surpreender-nos que, sejam assim, os postulantes”.

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Somos, todos os cristãos, realmente misericordiosos, face à política e face aos políticos?

A política, compreendida como luta legítima pelo poder, em primeiro lugar, não só não é má mas, absolutamente necessária. A vocação do político tem sempre um combustível que é a ambição. A ambição, em si mesma, não é má, até que, nos perguntemos: Para que queremos o poder? Quando duas ou mais ambições se degladiam e se confrontam, tiram de nós o pior e o melhor, de acordo com as circunstâncias em que vivemos e os valores que sobrepomos perante cada desafio.

Na nossa avaliação sobre o político e o público, somos lapidários “Fulano roubou”, “Sicrano mentiu”, “O Ministro beneficiou o seu gabinete”, “O Presidente mentiu”. Mas, por acaso, não fazemos o mesmo nas nossas casas? Somos realmente fiéis às promesas conjugais aceites perante Deus no casamento? Somos realmente honestos na gestão das nossas empresas? Pagamos todos os encargos sociais dos nossos empregados? Não fazemos intrigas na empresa para conseguirmos uma promoção? Cuidamos dos nossos filhos como o nosso maior tesouro, educando-os nos valores cristãos? Não mentimos no nosso trabalho ao escondermos lucros, evitando ou evadindo impostos? Não demos um suborno para agilizar um trâmite, inclusivamente, na escola ou na universidade dos nossos filhos?

A minha conclusão é que andámos enganados todos estes anos. Os “bons” políticos (e digo-o assim, porque nas decisões políticas sempre haverá bons ou maus, não interessa o propósito mas, os beneficiados ou prejudicados pelas nossas decisões), os organismos de cooperação internacional, os organismos multilaterais de crédito, as nossas Conferências Episcopais, as nossas agremiações empresariais. Porquê? Porque, fazemos viagens, recepções e jantares caríssimos para combater a pobreza. E, quem convidamos? Aqueles que “falam bem”, que se expressam dum modo correcto, que têm uma “excelente imagem” e uma conduta “aceitável”, isto é, os que pensam como nós. Estes são – em vários países, não só no meu – uma enorme minoria.

Passeamos por Berlim, Madrid, Roma, Londres, Washington, encontrando-nos sempre com as mesmas pessoas. As mesmas que, concordamos com as verdades irrefutáveis que nos mostram os mais importantes estudiosos da matéria política, económica e diplomática. Aplaudimos e regressamos felizes a nossas casas porque encontrámos gente que “pensa como nós”.

O Ano da Misericórdia convida, a quem se dedica de modo directo ou indirecto à política ou à res pública, a não nos deixarmos ficar nesta zona de conforto, onde o nosso ego se vê elogiado pela publicação dum artigo interesante numa revista de prestígio ou pelo aplauso dum auditório de cientistas sociais que dão razão às nossas teses. Convida-nos a quebrar esse círculo de miséria. Miséria daqueles que estão – eu estive – nesses grupos. Quem devemos convidar são “os outros”. Sim. Tal como soa. O que falsificou a sua tese de doutoramento para chegar a ser ministro, o que financiou a sua campanha com dinheiro da droga, quem beneficiou a empresa de construção do seu sócio ou entregou os Processos do Estado ao seu escritório de advogados. Porquê? Porque os políticos precisam que “os procuremos com o coração paciente e aberto, «bons samaritanos» que conhecem a compaixão e o silêncio perante o mistério do irmão e da irmã”. Que compreendamos que a política foi, para muitos, o modo de viver e de se servirem do Estado porque, nas suas casas, lhes ensinaram isso desde crianças. Nem todos tiveram a sorte de crescer nos valores do cristianismo e da fé e, que falemos entre nós, entre quem pensa do mesmo modo, afinal que valor tem? Eu digo-vos: Nenhum.

No mundo há 136.000 milhões de dólares em cooperação para os países em vias de desenvolvimento. Contudo,há um bilião de dólares em fluxos financeiros ilícitos. Será que, acreditamos que fazendo reuniões entre aqueles que apoiam projectos de cooperação, convenceremos os corruptos que escondem o seu dinheiro, a deixá-lo nos seus países para que ele ajude os mais pobres? Isto é uma velhacaria imperdoável.

Esta acção política não é só para os políticos mas, para todos os cidadãos, como diz Fernando Savater “É por isto que assusta ouvir falar dos maus que são políticos, dos corruptos que são, e dizemos: Quererá você dizer que acontece a todos, porque se os políticos são corruptos, são-no porque nós deixámos que o sejam, porque fracassámos na nossa própria tarefa política que consiste em elegê-los, substituí-los, controlá-los, vigiá-los e, em última análise, apresentarmo-nos como candidatos, como uma melhor alternativa a eles. Se não fazemos isso, efectivamente, os políticos continuarão a ser uns corruptos; e sê-lo-emos todos, todos os políticos dentro dum país, porque, numa democracia, somos todos políticos e, não há outro remédio, senão sê-lo”.[2]

Atentos ao apelo do Santo Padre, abramos os nossos corações à política, aos políticos, compreendendo que eles não são só o reflexo do que, como sociedade, elegemos mas que, também, estão à espera do Bom Samaritano que cure as suas feridas provocadas pela mesma miséria que todos sofremos diariamente.

 

[1] JOSE ORTEGA Y GASSET. “España invertebrada” 1922
[2] FERNANDO SAVATER. Filósofo español. Extraído del discurso Univ. Simon Bolivar, Caracas, 1998.
Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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