Colocado em 2016-06-04 In O que o Ano da Misericórdia?

Misericórdia e a Pastoral de Esperança para Divorciados em Nova União

Víctor e Stella Domínguez, co-fundadores da Pastoral da Esperança para divorciados em nova união do Movimento de Schoenstatt no Paraguai •

A Exortação Apostólica é “uma longa carta de amor do Papa sobre as famílias”.

É um extraordinário documento: o Santo Padre apresenta a realidade das famílias, mas em jeito de poema de amor. Até podemos dizer: este documento é um hino ao amor. Esta realidade inspira-se na máxima precisão da doutrina cristã da família.

A família: “bem insubstituível para a sociedade e para a civilização”.

“O futuro da sociedade forja-se na família” dizia S. João Paulo II.

Na “Alegria do Amor” o Santo Padre propõe uma abertura cristã do pensamento e uma capacidade para abraçar a família e dar-lhe o valor que tem para todo o ser humano: o pertencer a uma família, o crescer numa família, o estar incluído e, sobretudo, o sentir-se amado por uma família.

Deus é o “Deus do amor” que sai ao encontro do Homem caído, obra das Suas mãos. E, maravilhamo-nos com a loucura dum Deus que sempre nos precede e surpreende.

A encarnação do Filho de Deus que, não desceu ao seio de Maria apenas para viver com os seres humanos, para que O conheçamos e O adoremos, mas para se envolver e comprometer connosco. Se, apenas tivesse descido para passar pelas nossas vidas como um Rei que, contempla passivamente e se vai embora indiferente, então a Sua vinda nunca nos teria tocado nem mudado radicalmente o curso da história humana.

“E o Verbo Se fez carne e “habitou” entre nós”, “Habitou”, “montou a Sua tenda” ficou “com” e “em” nós, isto é, Deus não veio ao mundo com passaporte de turista, mas, como um de nós. Não é mais um, no contexto da história humana, mas, trata-se do próprio Deus feito homem entre nós. Foi a entrega que Lhe custou ao Filho Unigénito do Pai.

Contemplamos uma entrega total no facto de Se atrever a baixar-Se ainda mais e a partilhar a mesa com os pecadores.

Cristo adapta-Se a todos, para salvar todos, como é expressado por S. Paulo e, esta é “a chave da meditação” para tirar frutos do encontro surpreendente de Jesus com os pecadores. E vermos como este Jesus ao mesmo tempo Se “encontra comigo”, “contigo” e com “cada Homem” na mesa de cada dia.

Misericórdia: o céu toca o barro do pecado

Partilhar a mesa, comer do mesmo pão, vai muito para além do mero “saciar a fome corporal”, pois implica e fomenta os “valores e as virtudes mais nobres” no “coração do Homem”.

Partilhar a mesa é sinónimo de “amizade, de cordialidade, de alegria, de unidade” e, neste contexto do Evangelho é quando Jesus, “despojando-Se” do Seu ser, igual a Deus Pai, se mistura entre “pecadores, prostitutas, ladrões”, “ sem deixar de ser Deus”. O céu toca a terra, ou ainda melhor, “toca o barro do pecado”.

Poucas horas antes de que Jesus viesse sentar-Se à mesa desta gente pecadora, o Seu dedo tinha assinalado com amor, um dos Seus apóstolos, “Levi”, depois chamado Mateus, escolhendo-o e afastando a sua atenção e o seu coração do “brilho do dinheiro” que enchia a sua mesa de cobrador de impostos… Portanto, Jesus ceia em casa de Mateus. E, o encontro com o Senhor, marca a sua alma com uma espada afiada, espada que o ajudou a converter-se. Numa palavra: “misericórdia”.

Parece que o mundo de hoje não é tão diferente do mundo de Mateus e, “quiçá ainda” os nossos corações estejam extraviados e não “captem” que Jesus é misericórdia, que é amor e, que vem sentar-Se à mesa das nossas vidas, das nossas tarefas diárias, dos nossos problemas e, sobretudo, da “nossa falta de coração”.

Lembrarmo-nos que Deus é misericórdia e que somos mendigos de Deus é experimentar um suave bálsamo que percorre o nosso corpo desde a ponta do último cabelo atá aos pés; é sabermo-nos queridos por Deus apesar das nossas feridas. Porque, é verdade que estamos feridos, sofremos feridas constantemente. Quantas feridas carregamos pela vida! Feridas causadas pela nossa história, pelas nossas culpas, feridas causadas pelos outros, por amigos, seres queridos, indiferenças, traições e, muitas outras razões… E, Jesus com a Sua misericórdia vem para ser um bálsamo que cura todas as nossas feridas de pecado e de solidão, para que, possamos levantar outra vez a cabeça e seguir para a frente na vida.

Misericórdia: uma lógica que escandaliza

Uma ideia que, sempre, me vem ao coração é, que é mais fácil aceitar que Cristo vá comer com os piores pecadores, mas o nosso coração endurecido e soberbo não aceita, de todo, que Jesus me peça a mim que “o faça por Ele”, que não só coma com eles, mas que me peça que “os abrace e, sobretudo, os ame”. Especialmente, as pessoas que me fizeram mal ou as que, eu acho que se afastaram de Deus.

A misericórdia de longe, não serve, sem compromisso, sem correr riscos ao tocar a carne sofredora de Cristo, no irmão, sem me aproximar, preferindo passar de lado indiferente, “não serve”.

Não sou misericordiosa, nem sequer pratico alguma caridade ou dou um pouco do meu tempo aos outros, mas torno-o público, gabo-me em todo o lado, até o ponho no Facebook! Cá dentro grito com voz forte “dou-te para que me dês” , exigindo recompensa. E, à frente do meu coração ponho um letreiro: “Sou melhor do que tu”. “Pobrezinho de ti”.

E, sabemos muito bem que, Jesus nos ensina que a misericórdia se dá gratuitamente a “quem nada pode retribuir”.

Jesus vem ter connosco “quando caímos “, quando O ofendemos com os nossos actos, dando-nos o Seu perdão, oferecendo-nos, por vezes, a outra face, porque sabe que somos fracos, que esquecemos as nossas boas promessas de conversão e de mudança interior; sabe que, sem a Sua graça e a sua misericórdia, o que jurámos às claras, negamo-lo na escuridão, porque somos pecadores.

Um testemunho

Lembro-me duma ocasião em que pudemos ver que, realmente, muitas vezes nos faz falta “abrirmo-nos à graça” e ao “sentido divino do perdão e da misericórdia”. “Uma pessoa aproximou-se de nós quando dávamos início à Pastoral da Esperança e disse-nos que lhe parecia muito injusto o que estávamos a propôr: Uma Pastoral para os divorciados em nova união. Porquê dar um espaço a esta gente que rompeu a sua união sacramental? Quando o que devemos trabalhar e propôr na Igreja é a “defesa do casamento” e que se deve lutar para conservar a união. Dedicar o nosso tempo aos divorciados “era um desperdício”. Esta Pastoral, disse-nos, traz uma mensagem contraditória: “é como que um convite aos jovens para que se não se sentirem bem com o seu casamento se podem separar e procurar outra pessoa que os faça mais felizes e, depois dizemos-lhes venham para aqui onde terão um espaço para todos”.

A nossa mentalidade humana é igual ao que aconteceu, na Parábola do Filho Pródigo. É a mesma queixa racionalista que sai do coração do filho mais velho: quando chega a casa, ouve música e, toma conhecimento de que há festa pelo regresso do seu irmão mais novo e, por isso, indigna-se e queixa-se. “Há muitos anos que te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma… E agora que voltou este teu filho» (vv. 29-30). Vemos o desprezo: nunca diz «pai», nunca diz «irmão», só pensa em si mesmo, gaba-se de ter permanecido sempre ao lado do pai e de o ter servido; e no entanto nunca viveu esta proximidade com alegria. E agora acusa o pai porque nunca lhe deu um cabrito para fazer festa”. É a mesma indignação da pessoa que nos invetivava, porquê dedicarmo-nos aos Divorciados em Nova União?!

Se pensamos humanamente estaremos de acordo com essa pessoa pois, normalmente, agimos sem compreendermos a infinita misericórdia de Deus.

Quando se diz que os pecadores merecem o devido castigo pelas suas faltas, pensamos nos “pecadores, nos outros”, sem nos incluirmos a nós próprios, ainda que, saibamos que, pecadores, somos todos. Bem o expressou o Papa Francisco numa Audiência Geral ao falar no tema da visita aos presos: “Eles não são piores que nós, visto que, todos somos capazes de nos enganarmos na vida”. A nossa tarefa como cristãos é olhar com olhos de misericórdia e, deste modo, o mundo poderá reconhecer que Jesus Cristo é o Senhor e é Amor, é bálsamo que cura as nossas feridas.

Misericórdia: um médico que não se rende

A outra reflexão deste testemunho é a que sai, precisamente, da boca de Jesus dirigida aos que criticavam a sua atitude, de longe: “Não precisam de médico os fortes mas, os que estão doentes” ide pois aprender o que significa misericórdia que, eu quero, e não sacrifício. Pois não vim para os justos mas para os pecadores”.

Esta resposta de Cristo encerra a nossa missão, é o programa dos que desejam segui-l’O mais de perto, aprender com Ele que é manso e humilde de coração.

As nossas feridas só a doce misericórdia de Deus as cura.

Misericórdia: como aprender a encarna-la?

O convite que, Jesus nos faz, através do Santo Padre com a Exortação “A alegria do Amor”, é que nos matriculemos na escola da misericórdia, que amoleçamos o nosso coração de pedra. “Ide, pois, aprender o que significa a misericórdia que eu quero e, não, sacrifício”. Em primeiro lugar, está o verbo “ir” que nos interpela, nos põe em movimento, nos sacode das nossas comodidades. Para sermos “misericordiosos como o Pai” é preciso pôr à prova o nosso coração, pois trata-se duma aprendizagem de estar sempre em saída, ao encontro do próximo, nas nossas casas, nas ruas e nas periferias existenciais, tocando a dor e enxugando as lágrimas de tantos irmãos nossos, “os filhos predilectos do Pai”.

Se a misericórdia nasce das entranhas amorosas de Deus, basta reconhecer como Deus é misericordioso comigo! E, como “Ele” estamos chamados a compadecermo-nos e a sofrermos com os que sofrem e choram, perdoar como queremos ser perdoados:

“perdoai-nos as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

Vivemo-lo, encarnamos estas palavras que tantas vezes repetimos?

Concretamente, no capítulo oitavo, o Papa indica-nos, com três verbos, o caminho a seguir: acompanhar, discernir e integrar a fragilidade (291 – 312).

1º Acompanhar

Todos os cristãos deveriam superar qualquer tipo de rejeição que tenham podido ter e assumirem uma atitude de irmãos com os divorciados em nova união. Eles merecem a nossa especial proximidade e compreensão. A partir disso, dar um segundo passo. A estes “filhos predilectos do Pai” olho-os, de coração, com carinho e aceitação. Foi o que Jesus fez ao longo de toda a Sua vida.

2º Discernir

Jesus salva a mulher apanhada em adultério, ninguém lhe atirou a primeira pedra e, então, Ele também não a condenou: Vai e não voltes a pecar (Jo 8,11). Isto mostra-nos a necessidade de discernirmos. Devemos mostrar a cada um a infinita misericórdia de Deus Pai que, abraça todos os Seus filhos porque quer a nossa felicidade, apesar dos nossos pecados e fraquezas. À adúltera pediu-lhe o máximo. Nós podemos ajudá-los a encontrarem um caminho que os conduza ao abraço com o nosso Deus Pai. São múltiplos. É o segundo passo que os aproxima às Sua Bem-aventuranças já nesta vida. O Nosso Pai tem muitas opções para o crescimento deles.

3º Integrar

O “acompanhar com misericórdia e paciência as etapas possíveis de crescimento das pessoas, vai-se construindo dia-a-dia, dando lugar à misericórdia do Senhor que nos estimula a fazermos todo o bem possível. Jesus Cristo quer uma Igreja atenta ao bem que o Espírito derrama no meio da fragilidade, isto é, uma Mãe que, ao mesmo tempo, expressa, claramente, os seus ensinamentos objectivos. Entrar em contacto com a existência concreta dos outros e conhecer a força da ternura. Quando o fazemos, a vida sempre se nos complica maravilhosamente”.

“Às vezes custa-nos muito dar lugar, na Pastoral, ao amor incondicional de Deus” – “A misericórdia é a plenitude da justiça e a manifestação mais luminosa da verdade de Deus” (AL 308)

Daí decorre a proposta do Papa de ir ter com um sacerdote preparado para isso ou com um Bispo (cf AL 311)

Com a sua habitual ternura e preocupação pelos que sofrem, o Papa diz-nos: “os Pastores da Igreja, nós os leigos, os agentes da Pastoral, temos que aprender a saber como discernir, acompanhar e integrar a fragilidade, não condenando, mas ajudando todos a participarem da vida da Igreja”.

Queremos terminar com as palavras do Santo Padre.

O amor é, no fundo, a única luz que, ilumina, constantemente um mundo escuro”.

Todos somos “Filhos capazes de nos tornarmos predilectos do Pai”

Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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