La normalización del insólito

Colocado em 2021-12-26 In Artigos de Opinião

A normalização do insólito

Por Eduardo Jurado Béjar, Equador •

A normalização do insólito: este é o título da coluna de Fabián Corral no Jornal de Guayaquil El Universo a 23 de Dezembro de 2021. “O insólito, o extraordinário e o inusual desapareceram… O que antes era improvável faz agora parte da vida quotidiana, uma parte de qualquer noticiário que é visto sem comoção.—

Camp Chavez, Port-au-Prince, Haiti, February 24, 2017

Haiti

Embora o colunista se refira à tragédia ou ao disparate político que atinge as nossas democracias, quero fazer minhas as suas palavras e olhar para o que está a acontecer hoje, por exemplo, no Afeganistão e no Haiti. As tragédias vividas pelos nossos irmãos e irmãs onde não os vemos ou ouvimos são esquecidas quando chega a próxima notícia ou o próximo escândalo, turvando a mente e suscitando alguma indignação passageira.

Fome, guerras, pessoas deslocadas, epidemias e catástrofes são acontecimentos que, até há pouco tempo, eram uma fonte de comoção e permaneciam na nossa memória durante muito tempo. Hoje, porque as notícias acontecem em “tempo real”, devido à frivolidade com que a vida é assumida e devido à vulgarização da nossa capacidade crítica, estes episódios desaparecem rapidamente da nossa memória.

A normalização do insólito transforma-nos em consumidores de notícias e escândalos, sobrepõe-se à nossa sensibilidade e encoraja o cinismo face à renúncia à capacidade de se surpreender.

Estamos a tornar-nos uma sociedade conquistada pela indiferença e pelo sarcasmo, sem memória, sem história, sem ideia de si própria. Vivemos no meio do tumulto dos factos, da ausência de direcção e do tédio infinito de massas de consumidores com pressa nas compras de Natal.

São João Paulo II na Audiência Geral de 25 de Agosto de 1999, ao referir-se às “estruturas do pecado” disse “é um facto incontestável, que, a interdependência dos sistemas sociais, económicos e políticos, cria no mundo de hoje múltiplas estruturas de pecado (cf. Sollicitudo rei socialis, 36; Catecismo da Igreja Católica, n. 1869). Existe uma tremenda força de atracção do mal que faz julgar «normais» e «inevitáveis» muitas atitudes. O mal aumenta e faz pressão com efeitos devastadores sobre as consciências, que permanecem desorientadas e nem sequer são capazes de discernir”.

É que a “normalização do insólito” – como diz Fabián Corral -, “passa por uma ética que fica sem chão, por valores que são revogados e escrúpulos que se extinguem“, e eu acrescentaria, por uma fé que se extingue. O Padre José Kentenich dir-nos-ia que isto é uma consequência do mecanicismo, do Homem sem Deus, de uma cultura niilista, que separa a vida da fé e o natural do sobrenatural.


Eduardo Jurado Béjar é Doutor em Administração de Empresas, membro co-fundador da Comunidade Internacional de Empresários de Schoenstatt.

Original: espanhol (24/12/2021). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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