Colocado em 7. Abril 2018 In Artigos de Opinião

Viver a alegria no trabalho, é possível hoje?

ARGENTINA, Entrevista a Carlos Barrio y Lipperheide, por Maria Fischer de schoenstatt.org •

Casado com Maria José, pai de cinco filhos, advogado, coach, autor de vários livros, membro do Movimento Apostólico de Schoenstatt e do Centro Internacional de Empresários e de Executivos Schoenstatteanos (CIEES), Carlos Barrio y Lipperheide, homem de família e de trabalho, não é um desconhecido para os leitores de schoenstatt.org. O trabalho e a vida quotidiana, “os dois âmbitos onde se desenrola a maior parte da nossa existência” (Pe. José María García no Prólogo do livro “O Terço do trabalho e da vida” da autoria de Carlos Barrio, pag.8), são, desde sempre, as inquietações deste argentino. “Âmbitos que, hoje em dia, podem ser considerados “periféricos”, afastados da sua mensagem central: a presença real do Senhor, a presença do Seu amor activo, saneador e salvador, dignificante e gerador de comunhão” (idem, pag. 9). Falámos com Carlos Barrio sobre o seu mais recente livro e a sua utilidade para os empresários, executivos e trabalhadores.

 

Carlos Barrio y Lipperheide

Carlos Barrio y Lipperheide

 

Este livro “Viver a alegria no trabalho” não é a tua primeira publicação mas, é o livro mais extenso, não é verdade? Como surgiu a ideia de escrever sobre este assunto?

tapa

O Livro “Viver a alegria no trabalho” é, sem dúvida, o livro mais extenso que escrevi até agora. E, o mesmo, baseia-se na minha própria experiência laboral. Foi surgindo como consequência da minha necessidade de dar resposta ao sentido do meu trabalho, num âmbito muito competitivo, exigente, no qual estão ausentes, muitas vezes, as lealdades humanas e, claro, Deus.

Muitas vezes na minha vida laboral me perguntava sobre o sentido do meu trabalho e se, se podia viver com alegria, mergulhado nas pressões, no stress e nas exigências.

Pouco a pouco, fui descobrindo que, à medida que ia aprofundando mais o meu sentido da vida, ia encontrando mais sentido para tudo o que realizava. Quando pude descobrir a minha própria originalidade e definir o meu Ideal Pessoal, pude aproximar-me do fio condutor do meu trabalho, unindo as duas vertentes. Isto permitiu-me começar a viver uma alegria profunda ao descobrir que era Deus quem me guiava e me ia mostrando o caminho da Sua Providência.

O livro propõe um caminho concreto para ir desenvolvendo diferentes aspectos que, no seu conjunto, nos podem permitir viver com alegria no trabalho.

Tentei que o livro seja pedagógico para quem o leia. Por essa razão, no fim de cada capítulo há uma série de perguntas para que o leitor possa reflectir, de modo pessoal, sobre a sua própria experiência em relação à temática do capítulo. E, a seguir a estas perguntas, acrescentei uma meditação para que o leitor se detenha e reflicta um pouco, procurando deste modo que vá ainda mais longe até à sua própria interioridade e vivências.

Quais foram as primeiras reacções que recebeste e, como se pode obter o livro?

O livro foi muito bem acolhido em diferentes âmbitos. Principalmente, disseram-me que o assunto exposto é uma necessidade na época actual, pela enorme quantidade de horas que passamos nos nossos trabalhos e pelas fortes exigências a que estamos submetidos.

O livro pode ser obtido nas livrarias de Schoenstatt na Argentina e em Kindle (Amazon) na versão e-book. O livro impresso pode também ser comprado através da Amazon (Nueva Patris, ISBN – 13: 978-9874635624).

Há vários testemunhos pessoais neste livro e nota-se que se trata de um assunto muito importante. Qual é a vivência e qual é a inquietação pessoal por trás deste livro e deste assunto?

Como dizia anteriormente, o livro é uma resposta à minha própria luta para encontrar alegria no meu trabalho. Sinto que a alegria é o fruto do encontro connosco próprios e com Deus. Como diz o Padre Kentenich, nosso Fundador “Alegria é sempre estar em todo o momento acolhido em Deus. O Pai ama-me”. Sem alegria, as nossas vidas perdem sentido.

Como jornalista surpreende-me e encanta-me, obviamente, que o capítulo mais longo do livro esteja dedicado à comunicação. Por quê?

Uma boa comunicação é a chave para vivermos alegres. Vivemos num mundo em que somos um pouco autistas. Custa-nos sair do nosso mundo e abrirmo-nos aos outros. Vivemos demasiado tratando de dizer “o nosso”, fechados nos nossos mundos. Temos uma grande incapacidade para ouvir os outros. Estamos sempre a falar e a tentar impor os nossos pontos de vista, nas nossas conversas. Custa-nos parar, ouvir o que o outro tem para dizer e abrirmo-nos a novas realidades.

A partir da escuta começamos a abrir-nos aos outros e a descobrir a riqueza que cada pessoa tem.

Fui descobrindo a quantidade de camadas que encerra uma sã escuta, partindo do contexto, passando pela linguagem que usamos, a emoção e a corporalidade que expressamos e muitas vezes não percebemos.

Também descobri que a escuta deve aprofundar-se e passar do que se diz para os sentimentos, necessidades e desejos e, abarcar, também, o não dito que está por detrás destes aspectos.

Finalmente, temos que ter um ouvido atento para descobrir a bondade que tem cada pessoa. Cada pessoa tem uma mensagem de vida que nos quer transmitir, apesar das diferenças de pontos de vista que se possa ter com cada uma delas.

Para além da escuta, fui descobrindo as enormes dificuldades que temos em nos expressar perante os outros e, como muitas vezes transferimos, nas nossas mensagens, as nossas frustrações e arquétipos mentais.

Desde outra perspectiva, temos que descobrir que, a nossa comunicação, para além de se basear nesta dança que realizamos entre a escuta e a fala, deve desenvolver atitudes comunicacionais que nos permitam libertar-nos de diversos géneros de obstáculos e de escravaturas que provocamos nos outros, para que, a partir daí, despertemos motivação e alegria. Deste modo, a nossa comunicação será completa e permitirá que vamos encarnando caminhos de alegria.

O livro tem muitas citações do Padre José Kentenich e coloca a sua pedagogia no meio do mundo do trabalho. Como te deste conta da compatibilidade entre a mensagem de José Kentenich e o mundo actual do trabalho?

Entendo que, o mundo actual do trabalho se parece, em parte, com o que viveu José Kentenich no seu tempo. Se bem que, hoje tenham aparecido novas realidades mais virtuais, José Kentenich viveu, também, uma época que, na linguagem actual, poderíamos chamar “líquida” – seguindo o conceito patenteado pelo sociólogo Zygmund Bauman – e massificante, pela influência do nazismo. Hoje temos novos fenómenos de massificação mais virtuais que, podemos assemelhar ao que se vivia no tempo de José Kentenich.

Por outro lado, o fenómeno do “Mecanicismo” que também foi descrito por José Kentenich, hoje sofremo-lo de uma maneira mais intensa do que ele a viveu. Este mecanicismo, vêmo-lo, permanentemente, no mundo laboral.

O ideal do mundo orgânico que apresenta o Padre Kentenich continua a ter uma total vigência, já que, o Homem actual continua a dissociar, profundamente, o seu mundo laboral do privado, o mundo que elabora racionalmente e o que acaba por viver na prática.

Outro grande protagonista do livro é o teu compatriota Enrique Shaw. Que papel pode ter ele para os executivos e os empresários de hoje em dia?

O empresário argentino Enrique Shaw foi um caso muito concreto da encarnação dos ideais cristãos no mundo empresarial. O nosso Papa Francisco que, recomendou o seu processo de canonização sendo Arcebispo de Buenos Aires, descobriu nele um modelo de Homem de empresas digno de ser imitado, pela sua coerência orgânica; isto é, por ter sido capaz de viver aquilo em que acreditava a partir da fé, no mundo das empresas. Enrique Shaw teve, como uma das suas principais virtudes, escutar a voz de Deus ao longo da sua vida. Deixou-se conduzir por Deus. Soube viver o que nós, schoenstatteanos, chamamos a “Fé Prática na Divina Providência”. Um exemplo concreto disto foi a sua mudança radical de actividade laboral. Depois, de estar dez anos na Marinha, de 1935 a 1945, decide dedicar-se ao mundo empresarial, sem deixar de sofrer, anteriormente, uma profunda crise de procura do seu caminho.

Também teve a grande virtude de ter “cheiro a ovelha”, como nos pede Francisco. A sua proximidade com os operários da fábrica onde trabalhava e, ao mesmo tempo, com outros empresários com os quais partilhava o trabalho, foi uma virtude muito marcante nele. O mesmo é dizer que, foi um testemunho vivo de uma vida orgânica. E, nesse particular, encontro muitas ressonâncias com José Kentenich.

Não menos significativo foi o seu testemunho no modo como enfrentou a sua doença terminal que, o levou muito novo à presença de Deus. Nasceu em 1921 e faleceu em 1962, isto é, viveu apenas 41 anos.

Vale a pena lembrar, algumas frases que, ele proferiu, no seu caminho para a morte: Já prostrado, recebe transfusões de sangue de 260 operários da fábrica Rigolleau, da qual era Director Geral que, espontaneamente, tinham ido doar o seu sangue. Sabe da presença deles e pede que entre uma delegação para o ver e diz-lhes:

“Desculpem-me se vos falo com pouca clareza por ter a minha língua endurecida como se fosse um princípio de paralisia infantil. Mas, não quero deixar de vos agradecer tudo quanto fizeram por mim ao darem o vosso sangue para as transfusões que me fazem. Posso dizer-vos que, agora, quase todo o sangue que corre pelas minhas veias é sangue operário. Estou assim mais identificado convosco do que nunca, vocês a quem sempre quis e considerei, não como simples executores mas também como executivos”.

Notável síntese de integração orgânica da sua vida. Finalmente, pouco antes de falecer, dirige-se aos filhos no leito de morte e diz-lhes:

“Antigamente orgulhava-me de dar e dar sempre mas, agora, é a minha vez de receber tudo: comida, sangue, remédios, o cuidado da minha família, dos meus médicos, das minhas enfermeiras e o dinheiro do meu pai para pagar às minhas enfermeiras e, isto, faz-me mais humilde porque no dar existia, da minha parte, um certo orgulho. Em troca, o receber tantas coisas faz-me aperceber do grande carinho daqueles que muito tratam de mim e me fazem compreender, também, o pouco que dei a Deus como recompensa do quanto d’Ele recebi durante a minha vida”.

Como podemos ver, foi um santo.

O seu testemunho teve um grande impacto na Comunidade Internacional de Empresários e Executivos Schoenstatteanos (CIEES) que, no Congresso do Perú no ano passado, propôs nomeá-lo padroeiro do CIEES. Isto seria muito valioso, sempre e quando, descubramos nele as fontes kentenichianas que mencionei e algumas outras. O testemunho de Enrique Shaw deve levar-nos a ser mais schoenstatteanos, a descobrirmos o nosso carisma schoenstatteano nele. Tem que ser um caminho em direcção ao nosso Pai-Fundador. E isto, não o devemos perder de vista. Este é um caminho que, ainda temos que percorrer para não ficarmos às portas da profunda razão de ser do CIEES. Se apenas virmos as virtudes de Enrique Shaw sem chegarmos ao Padre Kentenich corremos o risco de perder a nossa própria identidade e riqueza. A mensagem schoenstatteana, para o mundo actual e o vindouro, não pode ser substituída pela vida exemplar e santa de Enrique Shaw. Shaw tem que ser a nossa inspiração para aprofundarmos a nossa própria identidade.

No teu livro há um capítulo sobre a “árvore com folhas de êxito”. Que folha colocas na tua árvore pessoal depois da publicação deste livro?

Acho que escrever o livro foi para mim um empreendimento bastante difícil dado o escasso tempo livre que tenho. Assim que, poria como folha da minha árvore o tê-lo conseguido escrever e editar.

A segunda folha que poria é o IKAF (o CIEES da Alemanha e da Suíça) que me pediu autorização para traduzir o livro para alemão, tarefa que foi feita por si Maria e que me alegra muito.

Sim, foi um trabalho desafiador e bonito, inclusivamente, por coincidir com uma época muito difícil na minha vida laboral. Posso dizer que este livro tem um forte potencial e interpela-nos com a pergunta se, realmente, tens alegria no trabalho e, se não tens, porquê? Decidi deixar este emprego e procurar um novo alguns dias antes de acabar a tradução. Estas foram as minhas duas folhas de êxito.

O pedido do IKAF é entendido por mim no contexto da actualidade da temática apresentada no livro e responde a uma necessidade do Homem do mundo laboral contemporâneo.

Disse-me o casal Grauert (que foi quem teve a iniciativa de o traduzir para alemão) que já estão a terminar os últimos pormenores e que acham que no mês de Maio já estaria disponível como e-book em Kindle (Amazon).

Pessoalmente, na minha consultora de treino, estou a fazer oficinas para as pessoas que trabalham em empresas, nas quais ofereço o desenvolvimento desta procura da alegria no trabalho.

Quando tiver concluído algumas oficinas poderei dizer que terei a terceira folha da minha árvore. Mas esse momento ainda não chegou.

Carlos Barrio con Melanie y Ulli Grauert

Carlos Barrio com Melanie e Ulli Grauert

Este livro também é valioso para as pessoas que são simples empregados, operários e trabalhadores?

O meu desejo é que o livro sirva também para pessoas simples e trabalhadores. Se bem que, tem alguns aspectos teóricos que possam parecer mais entediantes e densos, procurei através da dinâmica das perguntas e da meditação final de cada capítulo que possa ser levado à vida de cada pessoa em particular. Oxalá possa alcançar este objectivo!

Qual é o teu desejo para este livro e para a sua mensagem?

O meu desejo para este livro é que ele possa ajudar a viver com mais alegria o mundo laboral. Estou convencido de que o caminho que proponho é o que nos pode ajudar a consegui-lo. Haverá também muitos outros mas, este é o caminho que eu descobri, através das minhas experiências laborais, ao longo de mais de 35 anos de ter trabalhado em diversas empresas nacionais e internacionais. O livro representa o meu caminho, o caminho que eu percorri e durante o qual, e em muitos trechos, tive que sofrer desolações e frustrações até descobrir o caminho que me levou à alegria.

Por esse motivo o livro termina com um Cântico ao Trabalho que eu compus inspirando-me no Cântico da Minha Terra do nosso Pai-Fundador. Creio que esse Cântico ao Trabalho pretende ser uma síntese de esperança para chegarmos a encarnar o Homem Novo de que nos fala José Kentenich. Em definitivo, José Kentenich é o grande inspirador e a fonte do meu livro. E sinto-me muito contente que ele comece a ser conhecido no ano em que festejamos o Ano do Padre Kentenich.

Muito obrigado, Carlos, pelo tempo que dedicaste a esta entrevista.

Foi um prazer, Maria, responder às tuas perguntas.

 

tapa

Carlos Barrio y Lipperheide
Vivir la Alegría en el trabajo.
Editorial Patris, Córdoba, Argentina, 2017, 244 p.
ISBN: 978-987-46356-2-4

E-Book (Amazon Kindle)
Carlos Barrio y Lipperheide
Vivir la Alegría en el trabajo.
ASIN: B077WJ586J

À venda na Nueva Patris 

Este livro ainda não está disponível em português

Original: espanhol (21/3/2018). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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