Colocado em 10. Março 2018 In Artigos de Opinião, Comunicação

Como assumo a mensagem do Papa

Por Verónica Gutiérrez •

Responsabilidade pela verdade

Veronica Gutiérrez, jornalista, membro da redacção de schoenstatt.org

Há dois anos que sou jornalista e há muitos mais que me sinto ligada a esta área. Não tenho uma carreira muito longa mas, se juntar os estudos, já perfaz seis anos. Se, a esse tempo, lhe acrescentarmos os anos que tenho de interesse pelos média, são muitos mais. Hoje, quero comentar o que disse o Papa Francisco aos meios de comunicação, uma coisa que me toca directamente.

O Papa Francisco na sua mensagem para a 52ª Jornada das Comunicações Sociais, definiu a comunicação como “ lugar para exprimir a própria responsabilidade na busca da verdade e na construção do bem”… Expressar a própria responsabilidade. Ao sermos jornalistas assumimos um papel social importante. Comunicamos para que outros possam tomar decisões. Esta é a primeira função do nosso grémio. Se a Bolsa de Valores sobe ou desce, se há uma nova política de governo, se há uma injustiça a denunciar, tudo isto é para que o leitor, ou, ao menos um grupo deles, possa tomar atitudes. Temos uma responsabilidade e o nosso dever é expressá-la, mas com a verdade.

Essa verdade de per si é frágil. Às vezes perguntam-me como se pode ser objectivo enquanto jornalista e eu respondo simplesmente “não se pode”. Se há uma colisão num cruzamento e eu vou cobrir esse acontecimento, provavelmente, me focalize no que diz a polícia, no que dizem os bombeiros, talvez, nos testemunhos das vítimas. Outro jornalista, talvez se focalize nas acções legais que a vítima empreenderá, outro pode focalizar-se nos custos económicos do acidente; talvez um jornalista se centre no que conta a vítima, o culpado e as testemunhas…Tudo dependerá do critério e da linha redactorial do meio de comunicação. É por isto que há métodos para se chegar o mais próximo possível da verdade: ouvir todas as partes envolvidas, tratar de não distorcer os testemunhos, observar pormenorizadamente.

Papel social versus redes sociais

Com as redes sociais, esta procura da verdade perde força, porque se entra em competição, ombro a ombro, com as chamadas “notícias falsas”. Estas publicações têm objectivos diferentes do querer informar. São, antes, notícias que querem “desinformar”. São notícias claramente tendenciosas e distorcidas. Tendem a prejudicar um grupo político ou económico com o único fim de fazer mal. Não é só a sua publicação que é malsã, também o “partilhar”, “retwittar” ou “publicar no feed” é mau. Isto só gera ondas de aborrecimentos, guerras nas redes sociais e reacções violentas. Por vezes, também produz comportamentos perigosos para a saúde ou outros.

O Papa insiste “A verdade vos tornará livres”, parafraseando João. É impossível chegar à verdade absoluta mas, é fácil reconhecer uma notícia falsa. Se temos um canal oficial ou canais aprovados e de trajectória reconhecida, devemos confiar no seu trabalho. Se achamos notícias em portais com nomes estranhos como “Agora Não Mais Notícias” ou, a fotografia não corresponde à notícia, não cair na tentação de “retwittar”, “tornar a postar” ou “partilhar”. Mais de uma vez, vi na televisão as autoridades a pedir para ignorarem alguma estação porque a sua informação é falsa.

O dever é informar

Por outro lado, o Papa dá um grande “puxão de orelhas” aos meios de comunicação. Com o frenesim diário de serem os primeiros a dar a “caixa”, muitos esquecem-se de comprovar ou de dar notícias com intenções honestas e baseiam-se mais no escândalo ou no querer criar impacto nas redes sociais. Pior, é quando se confunde o dever de informar com o trabalho de entreter.

Assim, os estragos do show business, as relações entre um ou outro personagem da televisão ou os animaizinhos com habilidades sobrenaturais enchem os noticiários. A seguir a isto, os outros meios também querem fazer parte desta onda de clics e publicam a mesma notícia ou artigos semelhantes. “Onda de infectados no Chile”, “saiba qual o famoso que adoeceu” “Como viver infectado”, “o cabrito do planalto infectado” até o tema já não dar para mais.

O Papa também apela ao jornalismo da paz. Ah, se soubesse quão difícil é! Há alguns anos havia colunas num meio de comunicação especializadas em “notícias felizes”. Não publicavam nada que não fosse positivo, como um escape face a tanto desastre. Uma vez por semana, quebrava a cabeça pensando que coluna feliz podia fazer. Revistava portais e outros meios e tudo era uma tristeza: parlamentares à luta, show business em guerra, gente na rua em guerra, painelistas à guerra. Por fim, acabava mais agoniada que tranquila e sem nenhuma ideia sobre o que escrever. É muito mais fácil olhar a vida do lado dos “mas”. “Era rico…MAS”. Dar relevo às boas notícias políticas, significaria a oposição reconhecer mérito aos seus adversários. A mesma coisa com os grupos económicos ou bandos opostos. Ninguém quer transigir.

Há notícias negativas evidentemente. Se há um terramoto, só temos de publicar o desastre (sobretudo eu que sou chilena). Mas, nesses casos também há coisas boas: as pessoas que se organizam e se entreajudam, a solidariedade, o amor entre semelhantes.

Devemos informar, devemos cumprir a nossa tarefa o mais honestamente possível e, dentro disso, tratar de não promover a violência, por mais que, estes tempos tendam mais para o belicoso que para o pacífico.

Se, como jornalistas, fazemos bem o nosso trabalho, usamos bem as fontes e, não publicamos apenas para perseguir um clic, mas para informar, o resto do trabalho segue o seu curso natural. Um trabalho bem feito consegue os mesmos ou melhores resultados.

 

 MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA A 52ª JORNADA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

Tema: «“A verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32).
Fake news e jornalismo de paz»

Foto acima: Deniz Bayram, www.denizbayram.com.tr, iStockGetty Images, licensed for schoenstatt.org

 

Original: espanhol (7/3/2018). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

A responsabilidade pessoal de cada um na comunicação da verdade

A comunicação da verdade

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