Colocado em 27. Janeiro 2019 In JMJ Panama 19

Este é o Bom Pastor que vem procurar a ovelha perdida e sim, hoje encontrou-a

JMJ2019, Maria Fischer •

Que cara de pai, de bom pastor, de solidariedade, a do nosso Papa Francisco ao ouvir o testemunho deste jovem no Centro de Correção de Menores, Las Garzas, em Pacora. O Papa Francisco está com os seus preferidos, com pessoas de uma das periferias existenciais, em direcção às quais é urgente que os cristãos saiam. Uma dessas periferias existenciais para onde saem schoenstatteanos em vários países com projectos de Pastoral Prisional, como a da “Visitação de Maria”, como a Casa Mãe de Tupãrenda, no Paraguai que, eu tenho o privilégio de conhecer de perto.—

“Causei um dano muito profundo a um ser querido e a mim próprio”, conta Luís ao Papa. “Quando me prenderam, em Abril de 2016, achei que tudo tinha acabado. Ao princípio foi duro conviver com outras pessoas privadas de liberdade mas, quando me transferiram para o Centro de Correção de Pacora, ao meditar uma noite, alguma coisa me disse que, nem tudo estava acabado porque o meu propósito é grande. Nesse momento compreendi que o meu Pai, Deus, estava comigo e que, se neste momento estou a falar consigo, é por graça e amor da parte de Deus, o meu Cristo amado. Sinto-me agradecido, porque Ele pôs aquelas pessoas no meu caminho para me ajudar a terminar os meus estudos secundários e, conseguir essa mudança na minha vida. O que espero, ou como me vejo, a mim próprio, no futuro, é como Chef internacional e um técnico especializado em refrigeração. Espero dar essa alegria à minha mãe e, estar em comunhão, com aquela parte da minha família que perdi”. Entre a alegria e o carinho na cara do Santo Padre e as palavras do Luís, sinto-me como se, estivesse de novo na prisão de menores de Itauguá, a ouvir as histórias deles e sendo testemunha do escutar paterno-maternal do Pe. Pedro Kühlcke e da Ismelda e de todos os outros que, o acompanham todas as semanas. Mais tarde, na conferência de imprensa, a directora Emma Alba de Tejada contou que, Luís e outros jovens foram libertados a seguir à visita do Papa e que, um jovem que, anteriormente, estava cheio de desejos de vingança e tristeza, depois de se confessar com o Santo Padre, lhe disse: “Estou transformado e quero mudar a minha vida, e posso fazê-lo”.

Cristina Rodriguez/panama2019

O Centro de Correção de Menores, Las Garzas, foi inaugurado em 2012 e tem capacidade para 192 reclusos. Agora, considerado modelo, não apenas no Panamá, oferece aos reclusos participação obrigatória nos seminários organizados pelo Instituto Nacional para a Formação Profissional e a Formação para o Desenvolvimento Humano (INADEH). Para além disso, uma equipa de assistentes Sociais, psicólogos e professores cooperam com um sistema de reabilitação sob a supervisão da UNICEF. Para levar a cabo esta missão, a Instituição também recebeu o apoio económico da União Europeia.

Superar a “cultura dos rótulos”

Foi a primeira vez na história que, a Celebração Penitencial, um ponto central da cada Jornada Mundial da Juventude, foi levada a cabo numa prisão. O Papa quis levar a Jornada Mundial da Juventude aos jovens que não podiam estar presentes e, por isso, deslocou-se, quase 50 quilómetros, à prisão de menores, onde era esperado por jovens de vários Centros de detenção. Por se tratar de um Centro desta natureza, só os reclusos tiveram participação, quer seja, na preparação, assim como, no desempenho de todos os Ministérios da Liturgia, tais como, os cânticos, os Leitores e as Invocações.

“Jesus não tem medo de Se aproximar daqueles que, por inúmeras razões, carregavam o peso do ódio social, como no caso dos publicanos – lembremo-nos que os publicanos se enriqueciam roubando o seu próprio povo, provocando muita, mas muita indignação – ou o peso das suas culpas, erros e enganos, como no caso daqueles que eram conhecidos por pecadores. Fá-lo porque sabe que, no Céu, há mais alegria por um só pecador convertido do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão (cf. Lc 15, 7)”, disse o Papa na sua Homilia. Ele também não tem medo de se aproximar dos chamados pecadores, inúteis, marginais e criminosos…”Este é o Bom Pastor que vem procurar a ovelha perdida e sim, hoje encontrou-a”, disse Emma Alba de Tejada. Possivelmente, nunca numa JMJ um Papa fez uma Homilia a, apenas para, à volta de 100 jovens mas, as suas palavras chegaram a eles e oxalá que cheguem a muitos mais, àqueles que estão solidários com quem falhou num momento da vida…e quem sabe, também àqueles que se apelidam a si próprios de “justos”. O Papa deixou uma mensagem forte contra o que é chamado de “cultura dos rótulos”, o modo de etiquetar as pessoas:

“Sobre a vida do povo, parece-lhes mais fácil colocar etiquetas e rótulos que congelam e estigmatizam não só o passado, mas também o presente e o futuro das pessoas. Rótulos que, em última análise, nada mais produzem senão divisão: daqui os bons, além os maus; daqui os justos, além os pecadores.

Este procedimento contamina tudo, porque levanta um muro invisível que faz pensar que marginalizando, separando e isolando resolver-se-ão, magicamente, todos os problemas. E, quando uma sociedade ou comunidade se decide por isso, limitando-se a criticar e murmurar, entra num círculo vicioso de divisões, censuras e condenações; entra numa conduta social de marginalização, exclusão e oposição tal que leva a dizer irresponsavelmente como Caifás: «Convém que morra um só homem pelo povo, e não pereça a nação inteira» (Jo 11, 50). E, normalmente, a corda quebra pelo ponto mais fraco: o dos mais frágeis e indefesos.

 

Cristina Rodriguez/panama2019

A água mais pura não sabe a nada

Acrescenta um exemplo gráfico que fica no pensamento: Qual é a água mais pura? A água destilada, claro. Mas numa ocasião um camponês disse-lhe: “Padre, a água é tão pura que não sabe a nada”.

Assim são os tão justos, os tão puros, disse o Papa que, não têm sabor a nada, nem podem atrair ninguém! Assim o testemunhou Jesus, levando até ao extremo a manifestação do amor misericordioso do Pai. Um amor que não tem tempo para murmurar, mas procura romper o círculo da crítica inútil e indiferente, neutra e imparcial e assume a complexidade da vida e de cada situação; um amor que inaugura uma dinâmica capaz de proporcionar caminhos e oportunidades de integração e transformação, cura e perdão, caminhos de salvação. Comendo com publicanos e pecadores, Jesus quebra a lógica que separa, exclui, isola e divide falsamente entre «bons e maus». E fá-lo, não por decreto ou com boas intenções, nem com voluntarismos ou sentimentalismo, mas criando vínculos capazes de permitir novos processos; apostando e fazendo festa em cada passo possível.

Cristina Rodriguez/panama2019

Pode-se

Uma mensagem de ânimo: “Onze dos doze Apóstolos eram grandes pecadores porque cometeram o pior dos pecados: abandonaram o Mestre, outros renegaram-n’O, outros fugiram para longe. Os Apóstolos traíram, e, Jesus foi buscá-los, um a um, e são eles quem mudou o universo. Nenhum deles pensou em dizer: “Não vais conseguir” porque, tendo visto o amor de Jesus depois desta traição, “vou conseguir porque Tu me vais dar força”.

“Deste modo quebra também com outra murmuração difícil de detetar, que «fura os sonhos» pois repete como sussurro contínuo: tu não consegues, não consegues… É o murmúrio interior que brota em quem, tendo chorado o seu pecado e consciente do próprio erro, não crê que possa mudar. É quando se está intimamente convencido que aquele que nasceu «publicano» tem que morrer «publicano»; e isto não é verdade!

Amigos  cada um, de nós, é, muito mais do que os rótulos que nos dão. Assim Jesus no-lo ensina e convida a acreditar. O seu olhar desafia-nos a pedir e procurar ajuda para percorrer os caminhos da superação. Por vezes a murmuração parece vencer, mas não acrediteis, não lhe presteis ouvidos. Procurai e ouvi as vozes que impelem a olhar para diante e não aquelas que vos desencorajam”.

Alianças fraternas

“Em breve, continuaremos a Celebração Penitencial, na qual todos poderemos experimentar o olhar do Senhor, que vê, não um rótulo ou uma condenação, mas filhos. Olhar de Deus que desmente as desqualificações e nos dá a força para criar as alianças necessárias que nos ajudem a desmentir as murmurações, alianças fraternas que permitam à nossa vida ser sempre um convite à alegria da salvação”, disse o Santo Padre no fim. No momento das confissões não foram permitidas as câmaras de televisão.

Durante estes longos minutos o sinal da TV no ecrã é significativo: grades e arame farpado mas, por detrás celebra-se a festa do filho que regressa a casa…com o Pai que o espera com os braços abertos.

Finalmente, os 30 reclusos que construíram os confessionários para a Jornada Mundial da Juventude despediram-se do Papa. Recebeu prendas feitas nas diversas oficinas, entre elas, canastras com pães, inclusivamente, de tipo argentino, um quadro pintado por um jovem, um báculo da oficina de carpintaria, uma imagem de Nossa Senhora…

 

Cristina Rodriguez/Panama2019

Outra sexta-feira da misericórdia

A directora de “Las Garzas” explicou como foi evoluindo o ânimo dos jovens ao saberem que, o Papa Francisco iria visitar o Centro de Detenção: “No princípio foi difícil porque, julgavam que o Papa vinha para falar apenas com os católicos mas, graças a toda a equipa e, sobretudo, graças a Deus, conseguimos demonstrar aos rapazes que o Papa vinha, não somente, para os católicos mas, para transmitir uma mensagem de amor e de esperança a todos os jovens dos cinco continentes”.

Emma Alba de Tejada anunciou que uma juíza outorgou 9 liberdades condicionais, entre elas a Luís…

Paolo Rufino, Perfeito do Dicastério da Comunicações do Vaticano, numa conferência de imprensa posterior, destacou a singularidade do evento enquanto, Alessandro Gisotti, Director Interino da Sala de Imprensa do Vaticano que, logo a seguir teve a sorte de entrevistar o Papa, destacou a felicidade de Francisco por esta sexta-feira da misericórdia. “Ouvimos nestes dias este grito “Esta é a juventude do Papa”. Estes jovens na cadeia são, também, a juventude do Papa e de um modo muito profundo, com a sua atitude de misericórdia”.

 

Conferência de imprensa. Fotografia: Maria Fischer @schoenstatt.org

Texto integral da Homilia do Papa Francisco no Centro de Correção de Menores Las Garzas de Pacora, 25/1/2019

Original: espanhol (26/1/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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