Colocado em 2016-08-01 In Francisco - iniciativos e gestos, JMJ Cracóvia 2016

Senhor, tem piedade do Teu povo. Senhor, perdão por tanta crueldade

JMJ2016, por Maria Fischer •

“Senhor, tem piedade do Teu povo. Senhor, perdão por tanta crueldade”. É a mensagem que o Papa Francisco deixou no livro de visitantes em Auschwitz-Birkenau, as únicas palavras que pronunciou neste lugar, onde o horror ultrapassa as palavras, a imaginação, o humanamente concebível. É um lugar que nos deixa impotentes, destruídos, assustados, horrorizados com o que seres humanos foram capazes de fazer a outros seres humanos.

O Papa não disse nada. Tomou o seu tempo. Simplesmente permaneceu ali, em silêncio, em oração. Durante longos minutos, o Papa Francisco deteve-se num lugar símbolo da enorme tragédia da Shoah. Em Auschwitz e em Birkenau, onde há menos de setenta anos teve lugar a loucura do ódio do Homem contra o Homem, o Pontífice prestou homenagem às vítimas de “tanta crueldade”, como escreveu no livro de visitantes do campo de extermínio, acompanhando a sua oração com uma invocação à piedade e ao perdão do Senhor. Sózinho, com um passo lento, Francisco atravessou o portão de acesso e passou sob a tristemente famosa frase “Arbeit macht frei” (o trabalho torna livre), conhecida também dos outros campos de concentração e, por tantos schoenstatteanos que atravessaram o portão do campo de concentração de Dachau, onde um José Kentenich viveu tanto tempo em condições apenas um pouco menos cruéis.

A seguir, Francisco permaneceu mais de um quarto de hora sentado, em silencioso recolhimento, frente às barracas dos deportados. Beijou um dos patíbulos construídos no campo, saudou alguns sobreviventes, pousou a mão sobre o muro da morte e deteve-se na cela onde esteve fechado o Padre Maximiliano Kolbe, o franciscano proclamado santo em 1982 por João Paulo II. De seguida, no campo vizinho de Birkenau, passou junto às lápides gravadas nas 23 línguas faladas pelos prisioneiros, ouviu o cântico do Salmo 130 entoado em hebreu por um rabino e saudou um grupo de sobreviventes e de “justos entre as nações”.

Á noite disse às pessoas que se congregaram em frente do Palácio do Arcebispado de Cracóvia:

“De manhã, outra desolação: fui a Auschwitz, a Birkenau, para lembrar amarguras de há setenta anos… Quanto sofrimento, quanta crueldade! Mas será possível que nós homens, criados à semelhança de Deus, consigamos fazer estas coisas? Bem! As coisas foram feitas… Não quero angustiar-vos, mas devo dizer a verdade”.

Compenetrado pelo holocausto

Um comentador da rádio judia de Buenos Aires disse que, o sentiram mais compenetrado com o holocausto do que se tivesse falado. Fez uma comparação com a visita de outros papas e disse que este silêncio foi para eles, para os judeus, um grito.

“Um grande gesto do Papa” disse Henryk Jarczyk, jornalista da ARD, a cadeia pública da televisão alemã. “Por vezes faltam as palavras. Por vezes, o que se quer é, apenas, permanecer em silêncio, face a uma situação particularmente cruel. Refletir em silêncio e dar um sinal assim. Demonstrar que, também, em silêncio se pode mostrar emoção e terror. Francisco mostrou-o e de que maneira. O seu silêncio ruidoso disse muito mais que qualquer discurso feito aqui”.

O que conta não são as opiniões e os comentários sobre este lugar de sofrimento incrível. O que conta são os factos fora da zona do campo de concentração. E, a eles, também apela Francisco. O seu apelo inequívoco ao governo polaco para aceitar refugiados é, apenas, um dos muitos exemplos.

A forma em que o Papa recordou as vítimas de Auschwitz e de Birkenau e, com elas, todas as vítimas da violência e da injustiça, não tem precedentes. A sua emoção é, inclusivamente, mais autêntica, o que acrescenta importância ao seu apelo para acolher refugiados. Não vá acontecer que um dia, se essa voz se cala, o Mediterrâneo se converta, subitamente, no cemitério maior da humanidade”.

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Só o que passa pelo nosso coração

Francisco caminhou por Auschwitz com a cabeça e as costas inclinadas, com uma cara séria e triste, como se carregasse a cruz deste lugar nos seus próprios ombros e o choro das vítimas no seu coração. Lembra-nos as suas palavras em Lampedusa: “Quem de nós chorou pelos pais, mães e filhos afogados no Mediterrânio?”

Interpela-nos com o seu silêncio face à avalanche de palavras reenviadas, vezes sem conta, pelos meios de comunicação e pelas redes sociais, face à inflação de hashtags e à abundância de discursos, comentários e explicações, face a palavras valiosas que perderam sentido por uso excessivo ou que convertemos em slogans estéreis.

Interpela-nos com o tempo que “perde” ao estar sózinho, esperando até que o corpo e a alma estejam no local e, possa deixar-se compenetrar pelos factos que ali se passaram.

Interpela-nos, talvez, mais ainda, ao deixar passar toda esta dor pela sua alma e pelo seu coração. Só o que passa pelo coração será nosso e será fecundo, disse o Padre Kentenich. O Papa Francisco desafia a nossa indiferença, mostra a maneira de fechar os olhos e os corações face à dor, face à alegria, face às histórias reais da vida, às obras concretas dos outros. Desafia-nos na nossa frieza que, nos faz ficar no nosso pequeno mundo fechado, que nos permite ler – ou redigir ou traduzir – uma notícia sem que entre no nosso coração, sem que, de verdade nos importe. Tantas vezes Francisco fala da cultura da indiferença que é preciso superar. Com o seu silêncio e o tempo que tomou, para isso, em Auschwitz, o Papa mostra-nos um caminho.

A crueldade não terminou em Auschwitz-Birkenau

Nada melhor que o próprio Papa Francisco pode explicar o último desafio desta conquista:

“A crueldade não acabou em Auschwitz, em Birkenau, mas continua hoje: também hoje se torturam as pessoas; muitos prisioneiros são torturados, para obrigá-los a falar imediatamente… É terrível! Hoje há homens e mulheres em prisões superlotadas; vivem – desculpai a expressão – como animais. Hoje existe esta crueldade. Dizemos: é verdade, vimos a crueldade de 70 anos atrás, vimos como morriam fuzilados, enforcados, ou com o gás. Mas hoje, em muitos lugares do mundo onde há guerra, acontece o mesmo”.

A esta realidade desceu Jesus, para a carregar aos seus ombros. E pede-nos para rezar. Rezemos por todos os «Jesus» que existem hoje no mundo: os famintos, os sedentos, os céticos, os doentes, os abandonados, aqueles que sentem o peso de muitas dúvidas e tantas culpas. Sofrem tanto… Rezemos por tantos meninos doentes, inocentes, que já de criança carregam a cruz. E rezemos por tantos homens e mulheres que hoje são torturados em muitos países do mundo; pelos presos que vivem lá todos amontoados, como se fossem animais. É um pouco triste o que vos digo, mas é a realidade. Como é realidade também o facto de Jesus ter tomado sobre Si todas estas coisas… incluindo o nosso pecado.

Aqui todos somos pecadores, todos carregamos o peso dos nossos pecados. Não sei se há alguém que não se sinta pecador! Se alguém não se sente pecador, levante a mão… Todos somos pecadores. Mas Jesus ama-nos, ama-nos de verdade. E façamos, como pecadores mas filhos de Deus, filhos do Pai d’Ele… façamos, todos juntos, uma oração por estas pessoas que hoje, no mundo, sofrem tantas coisas ruins, tantas maldades. E, quando há lágrimas, a criança procura a mãe; também nós, pecadores, somos crianças, procuramos a Mãe; rezemos a Nossa Senhora todos juntos, cada um na sua própria língua: Avé, Maria…

[Bênção]

Desejo-vos uma boa noite, bom descanso. Rezai por mim! E, amanhã, continuaremos esta estupenda Jornada da Juventude. Muito obrigado!

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Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal. Fonte da tradução das palavras do Santo Padre: vatican.va

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Fotos: @https://twitter.com/antoniospadaro

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