Colocado em 12. Novembro 2018 In abuso

Entre canonização e escândalo por abusos

Abusos sexuais – e agora? Elmar Busse, Padre de Schoenstatt •

“A raiva e a vergonha que, em mim, crescem por causa de colegas que destruíram em minutos uma coisa que eu em muitas horas, durante muitos anos, não pude curar nas vítimas, isto é, por mim conhecido, há 30 anos, não somente desde o caso Cox”. 

 

P. Elmar Busse

Pe. Elmar Busse, nasceu em 1951 em Heiligenstadt, Alemanha. Foi Ordenado sacerdote em 1980, é Assessor da Joventude e de Famílias e, desde há alguns anos, Director Espiritual na Academia Katharina Kasper das Servas Pobres de Jesus Cristo em Dernbach, Alemanha. Trabalhou durante muitos anos com vítimas de abuso sexual. Tal como, a muitos outros, a ele, o assunto da demissão do estado clerical de um conhecido Padre de Schoenstatt e ex-Bispo da geração fundadora do Chile por causa das denúncias de abuso e a radiosa canonização de pessoas como: Oscar Romero, Paulo VI e Katharina Kasper tocam-lhe a alma. Falámos com o Pe. Elmar Busse no contexto das nossas contribuições, em editorial, a respeito do assunto do abuso, as que fustigam com força Schoenstatt e a Igreja – se bem que, haja alguns que, até há pouco eram da opinião que, tal coisa, não existia em Schoenstatt (ler o nosso artigo Como Igreja que somos, também nós trazemos este tesouro – a Graça – em vasos de barro). O Pe. Busse respondeu à pergunta: “”Abuso e laicização de Francisco José Cox – e agora? Em jeito de meditação.

Composições em contraponto

Para o compositor Johann Sebastian Bach, a composição em contraponto era o ditado absoluto por excelência. As melodias deviam marchar uma contra a outra (ou duas contra uma, até seis contra uma) mas terminando sempre numa harmonia final. Os intervalos de três que soavam de forma paralela, estavam mal vistos, pelo menos no que diz respeito às vozes principais. Teórica e praticamente compositores como: Palestrina e Johann Joseph Fux contribuíram muito para a popularização deste estilo de composição. Quando Deus compôs a Sua História de Salvação, com e apesar, da liberdade do Homem, parece que teve preferência pelo contraponto. A coincidência, no tempo, da laicização do Arcebispo Emérito de La Serena e Padre de Schoenstatt, Francisco José Cox, em 13 de Outubro e a canonização da única alemã deste ano, Katharina Kasper em 14 de Outubro, são os casos extremos que deixam claro que a Igreja é sempre uma comunidade de santos e de pecadores.

Os Padres da Igreja usaram, inclusivamente, uma expressão mais drástica: “grande meretriz”.

Por um lado, como alemães, podemos estar orgulhosos de Katharina Kasper. Ela faz parte de nós. Por outro lado, devemos envergonhar-nos como Padres, porque o Bispo Cox é um de nós.

Canonização: “segurança comprovada”

Que significa para mim, neste tempo, a canonização de Katharina Kasper?

Aproprio-me do direito de ampliar o enfoque.

Para as pessoas com esta aura carismática, é duplamente importante cultivar o respeito pela personalidade e pela liberdade do outro, visto que, os entusiastas têm, nestes e por estes líderes carismáticos, uma confiança e uma devoção que, ao mesmo tempo, os torna indefesos. A tentação do abuso é óbvia.

Se você olhar para a parte inferior ou posterior da sua cafeteira ou do seu micro ondas encontrará o selo GS (na Alemanha). O selo GS é um selo de qualidade legalmente regulado pela “segurança comprovada” (geprüfte Sicherheit) segundo a legislação alemã. Este selo é conhecido em todo o mundo. Como fabricante, você mostra-o aos seus clientes que, voluntariamente, submeteram o seu produto a provas de produção e de segurança, num laboratório de testes, aprovado pelo Estado. No entretanto, muitos fabricantes passaram da marca GS à marca CE da EU que, certifica melhor a segurança dos brinquedos, dispositivos médicos e outros produtos. Um selo de aprovação similar é a canonização.

A “autoridade de controlo de qualidade” romana confirma: “Se você se guiar no seguimento de Cristo pelas expressões e o comportamento de Katharina Kasper, não correrá nenhum perigo a não ser pelo comportamento contrário: será motivado a converter-se numa melhor pessoa e num melhor cristão”. O que parece tão óbvio, não o é. Porque no campo da religião e da espiritualidade existem muitos charlatães, gurus e sedutores que conseguem levar atrás deles os seus entusiastas seguidores com consequências, por vezes, devastadoras. Pensemos nos terroristas suicidas por causas religiosas, na seita Aum, cujos membros fizeram o ataque com gaz tóxico no metro de Tóquio em 20 de Março de 1995, ou o suicídio colectivo da seita Davidiana no Texas em 1993 que fez 86 mortos. Também podemos incluir nesta problemática, a vida dupla do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel.

O estruturalmente perigoso, nas mensagens destas pessoas com aura tão carismática é que fogem à argumentação razoável. Não importa quão abstrusos possam parecer os delírios e as fantasias sobre o fim dos tempos, os seus seguidores estão infectados por estes delírios e deixam-se seduzir.

Para as pessoas com esta aura carismática, é duplamente importante cultivar o respeito pela personalidade e pela liberdade do outro, visto que, os entusiastas têm, nestes e por estes líderes carismáticos, uma confiança e uma devoção que, ao mesmo tempo, os torna indefesos. A tentação do abuso é óbvia.

Observar as normas de proteção contra incêndios

O Padre Kentenich tinha estabelecido nas suas comunidades sacerdotais “regras de segurança contra incêndios”. A mais importante de todas foi: “interiormente livre – exteriormente íntegro”. Isto é, quem faz acompanhamento espiritual deveria, no que se refere á proximidade física, não ultrapassar as formas usuais de saudação e de cortesia habituais no país.

Apesar de repetidas advertências, o Arcebispo Cox não respeitou esta regra. Quando as primeiras reações sobre este desvio chegaram à Direcção dos Padres de Schoenstatt, há 20 anos, foi decidido, por razões de prevenção, tirar o Padre Cox do trabalho pastoral, dando-lhe tarefas administrativas. Naquele momento, tratava-se de uma medida puramente preventiva. Ainda, não tinham sido apresentadas acusações contra ele, como foi agora o caso.

Mudar uma ideia social leva décadas. A raiva e a vergonha que, em mim, crescem por causa de colegas que destruíram em minutos uma coisa que eu em muitas horas, durante muitos anos, não pude curar nas vítimas, isto é, por mim conhecido, há 30 anos, não somente desde o caso Cox

Uma medida, do ponto de vista actual, demasiado insuficiente, não o suficientemente dura e transparente e não adequadamente comunicada, também para a proteção de possíveis novas vítimas. Contudo nunca, nem no Chile, nem na Alemanha, o assunto do abuso sexual de menores, neste momento, foi tão consciente e tão refletido como o é hoje, especialmente, graças ao clamor das vítimas e das pessoas que, puseram o tema das vítimas e da proteção das vítimas (prevenção), da tolerância zero e da transparência no centro da discussão social (e eclesial), quando durante décadas, em lugar de enfrentarem o tema, se dedicaram a proteger a boa reputação das instituições sociais ou da Igreja. Ou como aconteceu durante longo tempo com os escândalos do diesel, primeiro a proteção da marca. Uma atitude que em 2018, ainda não foi superada em todo o lado, por exemplo, acerca da publicação (ou concretamente, a decisão de proibir a publicação) das declarações dos Padres de Schoenstatt sobre o caso Cox em alguns países, “para não prejudicar a reputação de Schoenstatt”.

É preciso ter em conta o ambiente social da Alemanha do tempo, em que a Direção dos Padres optou por essa conduta preventiva.

Em 1990, o partido dos Verdes advogou, no seu primeiro manifesto, uma legalização de longo alcance no que dizia respeito ao tema das relações sexuais consentidas entre adultos e crianças ou crianças institucionalizadas. O “consensual” tinha um papel importante nessa altura mas, de facto, não existe. Como podem defender-se as crianças? Em princípios dos anos oitenta, as federações regionais do partido dos Verdes da Renânia-Palatinado, Bremen, Hamburgo e Berlim também advogaram os pedidos de alguns grupos homossexuais e de associações de pedófilos, para serem derrogados os artigos 174 e 176 do Código Penal.

Os peritos que se dedicam ao assunto dos partidos políticos coincidem que a opinião sobre o tema mudou depois do início de 1985. Sob a influência de feministas como Alice Schwarzer e o distanciamento dos homossexuais da cena pedófila, os acordos passaram para um segundo plano. Contudo, o pedido de legalização da pedofilia foi revogado, formalmente, no início de 1993, quando os Verdes se juntaram com a Aliança 90 da Alemanha de Leste. A então organização juvenil do Partido Liberal (FDP), Jovens Democratas Alemães, também tinha votado em 1980 a favor da despenalização das relações sexuais entre adultos e crianças ou crianças institucionalizadas.

Tais descarrilamentos teóricos nunca tinham acontecido nos círculos eclesiásticos.

Mas que, em tal ambiente se tenha trivializado este tipo de abusos sexuais por muitos grupos, isto temos que nos lembrar, conscientemente, hoje em dia, em vista da sensibilidade crescente e da mudança de paradigmas.

A inércia do Ministério da cultura de Hessen e do Ministério Público de Darmstadt, quando em 1999 foram feitas as primeiras acusações contra o então Director do Colégio Odenwaldschule, Gerold Becker, é sintomático da trivialização deste tema no ambiente de então. Nem sequer a imprensa se fez eco do escândalo nessa altura.

Esta também é Igreja: pessoas que se preocupam com as vítimas de abusos

Sacerdotes e outras pessoas que se ocupam, pastoralmente, desde há anos, do acompanhamento das vítimas de abusos e que conhecem a longa duração dos processos de cura, são pessoas que pertencem à Igreja.

Contudo, lembro-me muito bem do comentário de uma mulher de 70 anos que eu acompanhei, pastoralmente, há tempos atrás em Viena que disse: “que eu ainda possa confiar num sacerdote – até a mim me surpreende”.

A raiva e a vergonha que, em mim, crescem por causa de colegas que destruíram em minutos uma coisa que eu em muitas horas, durante muitos anos, não pude curar nas vítimas, isto é, por mim conhecido, há 30 anos, não somente desde o caso Cox

Mas, também há sinais de esperança: há uns anos voltei a acolher na Igreja uma mulher que tinha sido abusada, sexualmente, pelo pai e pelo irmão mais velho. A única reação possível, nesse momento, foi ela abandonar a Igreja aos 14 anos porque, o pai era um católico respeitado e comprometido na Paróquia. Claro que não se pode, ainda, falar de cura e o contacto com o pai e o irmão não existe mas, esta mulher, agora adulta, reconciliou-se, de novo, com a Igreja.

A Igreja da luz e da sombra

A canonização em 14 de Outubro, não só de Katharina Kasper (*1820 ­+1998) mas também do Papa Paulo VI (*1897 +1978), do Arcebispo Oscar Romero (*1917 ­+1980) e doutros quatro católicos, mostram que sempre houve pecadores e santos na Igreja. S. Vicente de Paulo, por exemplo, foi um contemporâneo do Cardeal Richelieu, homem sedento de poder e intriguista.

Se observamos o comportamento e os textos de Katharina Kasper, torna-se evidente que, naquela altura, ela não estava prisioneira do habitual pensamento polarizado do seu meio ambiente. As Irmãs deviam ocupar-se de todas as pessoas que sofrem: católicos, protestantes, judeus ou ateus. Por certo: não existe outra religião a nível mundial que, de maneira tão consequente use a caridade como indicador do amor de Deus, como é o caso do cristianismo. “Em verdade vos digo: sempre que deixaste de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixaste de fazer” (Mt 25, 45) Estas palavras de Jesus são, com toda a certeza, as palavras mais poderosas para a humanização do mundo.

Outro ponto: Katharina que tinha frequentado a escola primária somente oito anos, dava grande importância à educação e à formação contínua das suas Irmãs. Quis desenvolver personalidades independentes, empreendedoras e profundamente livres. Nela, não encontramos nenhum sinal de uma formação para a humildade com o malho que, apenas produz lesados mentais, uma coisa que na sua época era de lamentar na sua Ordem.

O facto de que a “autoridade de garantia de qualidade” Vaticano outorgue a este modo original de seguir Cristo o selo de inocuidade e, mais ainda, o caracter exemplar, faz bem nesta fase da crise de confiança na Igreja.

Original: alemão (28/10/2018). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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