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Colocado em 17. Outubro 2018 In abuso, Dilexit ecclesiam

Como Igreja que somos, também nós, trazemos este tesouro – a graça – em vasos de barro

Coluna da redacção •

Nunca aconteceu uma coisa assim tão estrondosa. Ao abrirmos as contas do Twitter e das redes sociais de Schoenstatt, encontramo-nos perante uma onda de comentários desiludidos e cheios de ódio sobre o nosso querido Movimento. Compreendemo-lo. São comentários iguais aos que se encontram sobre a Igreja nos meios de comunicação, nas redes sociais e nas trocas de impressões dos fiéis e dos não crentes. A Igreja Católica está em sofrimento, de novo, um turbilhão de denúncias sobre abuso sexual e abuso de poder e de consciência. —

E, também o nosso Schoenstatt foi atingido gravemente com casos de abusos e de encobrimento, no caso de Francisco José Cox – da geração fundadora de Schoenstatt no Chile e que contactou com o Padre Kentenich – com actos tão graves que o Papa Francisco no sábado passado – 13 de Outubro – o demitiu do estado clerical. Somos Igreja, partilhamos os seus momentos de luz e de sombra e, desta vez, de sombra realmente escura.

“Estou espantada, enojada com as notícias que me chegam do Chile…sobretudo as do Cox…nojo, raiva, muita dor”. Uma mensagem de WhattsApp para a redação, uma igual a centenas.

Em e como Igreja culpada e ferida, devemos e queremos primeiro que tudo preocupar-nos com as vítimas dos abusos cometidos por pessoas que, como nós, selaram a sua Aliança.

Olhar, além disso, para tantas vítimas secundárias, para tantas pessoas que se veem desiludidas e até traídas na sua confiança posta em Schoenstatt.

Olhar, também, para tantos schoenstatteanos, para tantos sacerdotes de Schoenstatt que oferecem a sua vida pela missão que lhes foi incumbida, para tanta gente simples que caminha pelos trilhos da santidade da vida diária que, dão uma mão aos pobres e que, agora, sofrem pelo que se sabe e diz, com razão, sobre schoenstatteanos que cometeram crimes contra os mais vulneráveis. Sofremos.

Os comunicados do Pe. Juan Pablo Catoggio publicados em schoenstatt.org e enviados aos meios de comunicação, foram um passo importante. Não estamos fora do que vive a Igreja. Por certo, estamos ainda a correr atrás do que, por exemplo, os Jesuítas implementaram. Mas, pusemo-nos a caminho. Entre a dor, o susto, a raiva e a desilusão sabemos que Schoenstatt é parte do drama da Igreja, do drama do Chile, Boston, Nova Iorque, Irlanda, Alemanha.

E, agora?

Não é magia

Foi há duas semanas. Um diálogo com um schoenstatteano. Um deles que, até então, não viu ou não quis ver que entre os sacerdotes que abusaram de crianças e de jovens, também estão schoenstatteanos: “ Do mal, o menos que, a nossa pedagogia do Padre Kentenich nos protege disto e que podemos sair para ensinar aos outros como criar uma nova Igreja…”

Não.

A pedagogia do Padre Kentenich não é uma coisa mágica nem um automatismo. Em vários casos não serviu contra a pedofilia e o abuso sexual e, em muitos casos, nem contra o abuso de poder e de consciência.

Nem o ter convivido com o Padre Kentenich, nem o ter falado com ele, é arte mágica que protege de todos os males e, tudo o que é mal nos torna santos sem fazermos nada.

Não.

Talvez nunca, como agora, é o momento de se compreender em toda a sua radicalidade o “nada sem nós” como conditio sine qua non para que a santidade diária e o caminhar nas pegadas do Pai-Fundador, do Santuário e da expressão do carisma do Padre Kentenich sejam possíveis e funcionem correctamente.

Humildade honesta em tudo

Há algo mais e algo que pode doer. De uma vez por todas fica claro que a sempre citada pedagogia Kentenichiana e tudo o que temos, sabemos e predicamos não nos torna melhores que os outros.

Uma advocação mariana própria que “nunca falha”. Um Fundador “mais inteligente que um profeta”. São apenas dois momentos de um breve texto da revista “Vida Nueva” no contexto dos 50 anos do falecimento do Padre Kentenich. “Isto tem que nos fazer reflectir sobre a imagem que projectamos para fora”, comentou um amigo ao reparar no leve sarcasmo do texto. Parecemos um pouco arrogantes, um pouco sabichões, por vezes?

O escândalo do abuso que vivemos dentro de Schoenstatt, por causa de sacerdotes do nosso Movimento, tem potencial para nos mostrar um caminho para uma nova humildade que não deve ser confundido com complexo de inferioridade. Humildade da humilde serva do Senhor que sabe cantar as maravilhas feitas por Deus na Sua vida e que nunca se esquece de que faz parte de um povo que peregrina para Deus, em solidariedade e admiração pela grandeza do que Deus faz nos outros. E em nós.

Somos Igreja e amamos a Igreja

Não é o momento de “se levar” alguma coisa à Igreja. Nunca o foi. Não podemos levar algo ao que somos e, somos Igreja. Nas festas de 15 de Setembro, muitos comentaram que sentem que é chegada a hora de se viver profundamente o “Dilexit Ecclesiam”.

É a altura de se compreender o que é mais que óbvio, mas às vezes, não visto ou não comunicado. Somos Igreja, Somos Igreja com as sombras e as luzes da própria Igreja e não isentos do que disse Jesus: “Quem de entre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra”. (Jo 8, 1-11)

Nestes momentos amamos e amemos mais do que nunca a nossa Igreja santa, de pecadores, a nossa Igreja que nos ama e nos educa e, queira Deus que nos cure de toda a arrogância e nos presenteie a humildade missionária que tanta falta nos faz.

É ousado pensar, justamente agora, numa Aliança Solidária na e com a Igreja?

Pedimos perdão, em e como Igreja. Como Igreja que somos também nós trazemos este tesouro – a graça – em vasos de barro. (2Cor 4, 7).

Pe. José María García Sepúlveda, Maria Fischer

Fotos: iStockGettyImages, ID:825063512, Casanowe, Huai khwang, Thailandia, iStockGettyImages ID:868503068, annanaline

Original: espanhol (16/10/2018). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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