Colocado em 19. Junho 2016 In Artigos de Opinião

Paternidade espiritual

P. Pedro Kühlcke, ministério de prisão, Paraguai •

Há algum tempo, Pepito finalmente conseguiu contar-me a sua história de vida: “Tinha cinco anos quando os meus pais se separaram. O meu pai é alcoólico, maltratava a minha mãe; até que, um dia, ela não aguentou mais. Eu decidi ir viver com ele, porque sabia que ele não me poria limites. Comecei com os cigarros e o álcool, depois vieram as drogas. Até que, cheguei a drogar-me na sua frente, mas nunca me disse nada – em regra estava demasiado bêbado para se dar conta de alguma coisa. Nunca foi um bom exemplo para mim. Depois eu já vivia na rua, com más companhias, roubando para continuar a drogar-me; até que acabou aqui, atrás das grades. Na realidade, a minha vida não tem sentido; sinto que ninguém se importa comigo”.

Histórias como estas há muitas, demasiadas, na cadeia de adolescentes de Itauguá. A maioria dos internos – para além dos delitos que tenham cometido – são vítimas da pobreza, da violência doméstica, do abandono, e – quase sempre – duma paternidade muito disfuncional ou, ainda pior, directamente ausente.

José era filho de mãe solteira, uma empregada doméstica que nunca pôde ter consigo o filho nos locais de trabalho. O pai nunca o reconheceu, nem se preocupou com ele. Até aos oito anos José foi “avó memby”, depois os avós já não puderam tomar conta dele. A mãe com toda a dor de alma, finalmente, teve que o entregar a um orfanato. Fugiu de lá várias vezes porque não suportava o regime tão severo e a falta de liberdade, mas a polícia levava-o de volta.

Até aqui poderia ser mais uma história das muitas que ouço na cadeia. José poderia ter acabado muito mal, no entanto, ele que não teve a mínima experiência de paternidade humana, chegou a ser um pai espiritual para muitíssimas pessoas, um fundador, um profeta. Esta mesmíssima revista que temos nas mãos não existiria se não fosse ele.

Alguns de nós tivemos a graça de experimentar um bom pai terreno, outros não. Mas, todos fomos chamados a transcender a nossa história pessoal, a amadurecer uma relação filial com a Mater e com Deus Pai e, a oferecer ao mundo as nossas, paternidade e maternidade espiritual, reflexo do que é a essência de Deus. Só assim, muitas outras pessoas conseguirão superar as suas feridas emocionais e, ancorar-se, profundamente, em Deus que, é, primeiro que tudo, Pai misericordioso.

13335732_639137439573027_3030790772858659445_nNão é fácil viver esta paternidade espiritual, exige muita dedicação. O próprio Pai-Fundador no-lo recorda: “A paternidade ancorada em Deus inspira-se no ideal do Bom Pastor, autorretrato de Jesus: O Bom Pastor dá a vida pelas Suas ovelhas. Não fica de braços cruzados…Muito menos se contenta em lançar de longe o salva-vidas a quem se está a afogar, mas é Ele próprio quem se atira à água, para salvar o que deve ser salvo”. A partir da nossa espiritualidade schoenstatteana como podemos contribuir? No fundo trata-se do cultivo e da realização cuidadosa da ideia do organismo, especialmente, a partir do ponto de vista da filialidade orgânica, filialidade capaz de calar até ao subconsciente e, aí operar, por assim dizer, “milagres de transformação”…

Depois duma longa conversa, durante a qual Pepito descobriu que Deus é, justamente, um Pai como ele nunca experimentou; depois de lágrimas, abraços e desabafos, ele mesmo pôde fazer uma síntese: “Agora compreendo que Deus permitiu que eu viesse para a prisão para descobrir que Ele me ama, que tem um sonho lindo para a minha vida e que eu a posso mudar e realizar esse sonho. Num futuro, quero ser um bom marido e o melhor pai do mundo para os meus filhos, para que, eles nunca passem o que eu sofri”.

Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

Etiquetas: , , , , , ,