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Posted On 2022-05-19 In José Kentenich

Mais oportunidade que fiasco: A suspensão do processo do Pe. Kentenich

No limiar de uma nova etapa na história de Schoenstatt – o Pe. Alejandro Blanco, Secretário-Geral da União Internacional dos Sacerdotes de Schoenstatt. • 

Como impulso e convite à reflexão, ao sonho, ao estudo e à escuta conjunta da voz do Deus da História, após a suspensão do processo de beatificação, o Pe. Alejandro Blanco, Secretário-Geral da União Internacional dos Sacerdotes de Schoenstatt, ofereceu este texto ao schoenstatt.org, destacando a oportunidade que nos é oferecida para modificar e até mesmo mudar acentos, prioridades e focos no nosso serviço à Igreja e à sociedade. 

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O problema fundamental da situação de Kentenich é que a sua vida foi levada a julgamento: ou seja, foi judicializada. É nisto que consiste um processo para estabelecer ou não a honra dos altares. Trata-se de um processo judicial. O julgamento penal canónico justo, que o Pe. Kentenich exigiu insistentemente durante a sua vida, foi-lhe negado pelo Santo Ofício. Se não houvesse um processo judicial de canonização, a discussão sobre as virtudes morais do Pe. Kentenich permaneceria no lugar que corresponde a qualquer pessoa de grande renome: é a discussão dos historiadores o lugar onde esta questão permaneceria. E se existem sérias dúvidas sobre um acto criminoso levado a cabo por um homem famoso, o veredicto da História nunca é absoluto. As opiniões dividem-se. E neste caso, como no caso de um processo judicial na vida de uma pessoa – como Kentenich afirmou – “in dubio pro reo”[1]: ou seja, perante a dúvida, o tribunal decide a favor do arguido, a pessoa acusada é considerada inocente, até que não se demonstre o contrário.

O Pe. Kentenich foi confrontado com uma situação injusta: não foi processado durante a sua vida, e contra toda a legislação normal, é processado na morte, não para provar a sua culpa ou para o absolver de um qualquer delito – se tivesse sido esse o caso, num tribunal normal, ele teria, no pior dos casos, sido absolvido por falta de provas – mas para provar as suas virtudes heróicas. Neste caso, o princípio de “in dubio pro-reo” não se aplica. É óbvio que um julgamento que tenta provar as suas virtudes inequivocamente é bloqueado perante a dúvida. Os opositores de Kentenich conseguiram até agora, infelizmente, condená-lo à dúvida.

A atitude do Bispo é compreensível, como já dissemos. Ele encontrou o atalho para sair da sua situação difícil na dúvida gerada pelo relatório solicitado em Milwaukee.

[1] É um princípio fundamental no nosso Processo Penal (em Portugal), que decorre da presunção constitucional de inocência e consiste em: na dúvida sobre os factos a provar, o tribunal decide em favor do arguido N.T.

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Quando o Papa João Paulo II respondeu “canonizai-o vós próprios”, isto foi, provavelmente, aplicado numa estratégia dupla, que já tinha sido experimentada durante o exílio: o caminho da santificação e do oferecimento (via moral-espiritual) e a via diplomática.

Ambas vias são também válidas hoje em dia. Mas a estratégia precisa de ser clarificada:

a) a via espiritual deve concentrar-se na contribuição inovadora do carisma do Não basta rezar e até mesmo oferecer. A via espiritual deve ser muito mais profética. Isto significa viver radicalmente o que é novo no Pe. Kentenich como resposta à sociedade de hoje. Estamos convencidos que no P. Kentenich há uma resposta aos tempos que não consiste numa “censura” dos novos modos de vida, nem numa teimosia em recriar as condições pré-modernas da vida e de negar a Modernidade mecanicista, mas sim em assumir estes modos de vida modernos, enriquecendo-os, e distinguindo o essencial do temporal. Dando lugar a uma nova Igreja e a um novo cristianismo na linha do Vaticano II e do nosso Papa.

Neste sentido, a pausa no processo de canonização (que nunca deveria ter tido um papel tão importante) não deve afectar um dos aspectos fundamentais do “novo” visualizado no Pe. Kentenich a partir da sua experiência de vida mais profunda. Este aspecto é o valor do vínculo afectivo humano como mediação para a experiência de Deus.

E o vínculo afectivo com o Pe. Kentenich tal como o vivemos. No mundo de Schoenstatt experimentamos um vínculo afectivo supra-histórico com o Pe. Kentenich, que demonstra que isto é possível como forma de encontro com o sobrenatural, com o Deus Pai, com a Mãe de Deus. Viver isto radicalmente e mostrá-lo é o desafio. Nunca um Schoenstatt sem Kentenich: o foco não deve ser a demonstração das virtudes de Kentenich, mas o vínculo efectivamente alcançado com ele como mediação do divino. Este é o princípio paterno-maternal, vivê-lo com ele como filhos, e também entre nós como irmãos (convosco sois cristãos, para vós sou Bispo. Santo Agostinho).

Esta é a melhor maneira para o Homem Novo de experimentar Deus: na sacralidade do humano. Isto tem valor profético em Kentenich.

b) A via diplomática deve definitivamente afastar-se da compra da simpatia dos Bispos. Não foi a escola de Kentenich. Nesta área, o conhecimento da novidade profética do Pe. Kentenich, o seu aprofundamento até às raízes, o seu estudo, permite-nos contribuir para a forma como vivemos a nossa espiritualidade: os acentos que lhe colocamos. Só agora – graças à Dra. Alexandra von Teuffenbach – foi despertada a necessidade de investigar Kentenich em profundidade. Não com um olho forense, mas com a capacidade de detectar o profético nele.

A via diplomática deve transformar-se numa proclamação do nosso carisma, em liberdade. Via profética.

A Igreja que poderá alguma vez canonizar Kentenich, se tal fosse necessário, deverá ser a Igreja das Novas Praias.

Não é Kentenich, são os critérios de canonização da Igreja das Velhas Praias que devem mudar:

  • As virtudes heróicas na forma como são vividas estão imbricadas na época. As práticas do passado dos nossos santos de altar não seriam todas bem vistas hoje em dia. Isso é normal. Somos históricos.
  • A concepção de uma intervenção especial de Deus que consiste num milagre concebido como suspensão ou alteração das leis da natureza é insustentável. Nem sequer é suficientemente sustentável com São Tomás de Aquino no século XIII.
  • Deus fala por sinais, e esses sinais devem ser lidos na Fé Prática na Providência de Deus que misteriosamente conduz, não, sem as suas criaturas como causas segundas. Este é o milagre, o de um Deus que intervém na História sem anular os Seus próprios processos e devires.

Não procuremos mais a canonização do Pe. Kentenich, em primeiro lugar, nesta antiga Igreja. Encaminhemo-nos para as Novas Praias do tempo. Onde o carisma do Pai sirva o novo cristianismo (“o cristianismo do futuro deve ter uma sensibilidade para o Mistério, caso contrário, não existirá”. Karl Rahner).

Aprendamos com os nossos irmãos e irmãs do Movimento dos Focolares: eles decidiram não fazer nada pela canonização de Chiara Lubich, a sua fundadora. Que o seu carisma que impregna uma nova Igreja a canonize um dia com novos critérios de santidade que, são talvez os mais antigos (Col 1, 2).

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A comunicação da decisão do Bispo de “pôr em pausa” o processo deve ser transmitida de forma transparente. A omissão de uma denúncia não provável nos EUA repetirá o erro cometido até agora, e a nossa gente perderá toda a confiança, no dia em que qualquer von Teuffenbach falar sobre o assunto.


Alejandro Blanco
ISPB (União Internacional de Sacerdotes de Schönstatt) – Secretário Geral

Original: espanhol (18/5/2022). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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1 Responses

  1. Com argumentos extremamente claros e perceptíveis o Pe. ALEJANDRO BLANCO ilumina certas áreas essenciais, até agora, obscuras deste processo que desde há dois anos ocupa a Família de Schoenstatt Internacional. O caminho seguido pelis Focolares parece-me muito sábio e oxalá, quem sabe, tivesse sido o nosso. Não se remenda pano velho com tecido novo…(Mr 9,16)

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