Colocado em 2020-08-21 In Artigos de Opinião, José Kentenich

Carisma dos fundadores e carisma da fundação

Entrevista ao Pe. Juan Bautista Duhau •

Num diálogo pessoal entre o Pe. José Kentenich e uma Irmã de Maria, esta última perguntou-lhe o que iria acontecer quando ele não estivesse presente para conduzir a Obra. Com um olhar profético, respondeu: “Cinquenta anos após a morte de um fundador, há um grande perigo de que uma comunidade caia numa crise grave. Visivelmente afectada, a interlocutora inquiriu se isto também se aplicava a Schoenstatt. “Certamente, pode acontecer – continuou o Pai e Fundador – mas apenas se a Família não permanecer fiel às suas forças fundamentais. Será necessária uma renovação interior  e uma consolidação fundamentais. Depois, talvez a Mãe de Deus presenteie o pai com filhos que o compreendam muito melhor do que os actuais”. —

Para reflectir precisamente sobre os tempos de amadurecimento, crise e renovação de um carisma, a equipa de schoenstatt.org contactou o teólogo argentino, Juan Bautista Duhau. O Pe. Juan Bautista é um sacerdote, pertencente ao Movimento da Palavra de Deus, e é um dos principais especialistas latino-americanos na teologia do carisma e dos novos Movimentos eclesiais. Convidamos os schoenstatteanos a ler cada uma das respostas com atenção e pausa, uma vez que contêm reflexões profundas, ilustrativas e desafiantes.

 

  1. Num artigo recente da sua autoria sobre “Carisma e instituição nos Movimentos Eclesiais e nas Novas Comunidades”, descreve três fases de um carisma: uma primeira fase fundacional espontânea, uma segunda de crescimento intenso e turbulento, e uma terceira de crise e amadurecimento. Existem lapsos de tempo comuns para estes momentos? Quanto tempo dura a maturidade e as suas respectivas “dores de crescimento”?

 

Os Movimentos e Novas Comunidades formam uma “galáxia” de organizações, associações e grupos dos mais diversos tipos, que constituem o conglomerado das “novas realidades eclesiais” e que escolho chamar “novas organizações carismáticas”. A sua pluralidade é um obstáculo à determinação dos prazos para o percurso da sua evolução. Só a investigação destes processos, que só agora começaram no início deste século XXI, nos permitirá descrevê-los e propôr uma caracterização. Para tal, é essencial que os Movimentos dêem a conhecer as suas trajectórias de revisão e transformação, gerando uma verdadeira reflexão e dando um contributo para o conjunto dos Movimentos e das Novas Comunidades.

O teólogo italiano Piero Coda, intimamente ligado ao Movimento dos Focolares, é quem propôs a existência deste terceiro momento – de crise e amadurecimento – na vida dos Movimentos. Evidentemente próximo da experiência da morte de Chiara Lubich, ele indica que esta etapa se segue à conclusão do período fundacional e é a oportunidade para se desenvolver uma institucionalidade que muitos Movimentos não alcançam durante a vida do fundador ou da fundadora.

Pessoalmente, acredito que os momentos de crise e amadurecimento se abrem nas novas organizações carismáticas por estas razões, mas também devido a várias necessidades emergentes devido às transformações sociais e eclesiásticas, e devido aos processos evolutivos de qualquer organização. Observo que, em diferentes Movimentos e Comunidades, são iniciados processos de actualização à medida que se torna necessário mobilizar a mudança geracional na liderança, reformar as práticas evangelizadoras, reflectir, de uma nova forma, sobre a educação moral oferecida aos seus membros, assumir práticas mais transparentes na gestão dos bens, rever os orçamentos de acompanhamento pessoal e assumir novos paradigmas de cuidado e desenvolvimento da consciência pessoal, entre outros.

  1. Centrando-nos na terceira fase, refere-se ao facto de que uma das causas das crises nas comunidades é que, em tempos de amadurecimento, aparece uma “doença auto-imune” para as proteger da inovação. Até se fala de sintomas dessa doença: incapacidade para trazer novas pessoas criativas e de qualidade. O que significa hoje “um carisma ideologizado e desprovido de biodiversidade”?
Luigino Bruni, um investigador leigo também ligado aos Focolares, é aquele que propõe a existência desta doença auto-imune, ou seja, uma luta interna onde o mesmo organismo gera as substâncias que o tornam doente. Esta doença está enraizada no mau manuseamento do medo, de perder a originalidade e a identidade específica do carisma do fundador.
Luigino Bruni, um investigador leigo também ligado aos Focolares, é aquele que propõe a existência desta doença auto-imune, ou seja, uma luta interna onde o mesmo organismo gera as substâncias que o tornam doente. Esta doença está enraizada no mau manuseamento do medo, de perder a originalidade e a identidade específica do carisma do fundador.

Quando as organizações carismáticas estão no seu momento de auge e crescimento, investem todas as suas energias em actividades que valorizam e desenvolvem contribuições positivas e bem sucedidas, e os aspectos imaturos ou mais complexos do Movimento ou Nova Comunidade são abandonados para um depois que, nunca chega.

Olhando apenas para os aspectos de sucesso da organização, os responsáveis pedem aos seus membros que dediquem todas as suas energias a estes fins “bons”, padronizando, em geral, a forma como o fazem. Isto gera uma identidade carismática muito reduzida, membros muito homogéneos, ou a falta de biodiversidade dentro da comunidade. Para além desta tendência, há uma visão negativa dos membros insatisfeitos que expressam formas diversas ou heterogéneas de realizar a missão do carisma, ou que se preocupam em atender ou questionar as sombras ou limites da comunidade.

  1. Se agora o abordarmos em termos positivos, o que significa uma renovada “inteligência do carisma”? Pois, a reformulação de um carisma pode ser feita olhando para trás, ou seja, procurando uma maior fidelidade ao espírito fundador; e pode ser feita olhando para a frente, dando prioridade a uma maior criatividade para actualizar o carisma face aos “novos tempos”.
Os carismas progridem e evoluem ou morrem, mais lentamente ou mais depressa, mas se estagnarem começam a desvanecer-se.
Tal como o Concílio Vaticano II nos indica, e o Papa Francisco lembrou oportunamente, “toda a renovação da Igreja consiste essencialmente no aumento da fidelidade à sua vocação” (cf. UR 6; GS 26). Os dons que Deus ofereceu à Igreja não envelhecem, mas também não permanecem perpetuamente iguais; se permanecerem, fazem-no sempre num duplo movimento que pressupõe renovação e fecundidade. Também os Movimentos e as Novas Comunidades devem assumir dinâmicas de mudança e evolução, verdadeiros processos de reforma, como uma forma de aumentar a fidelidade à sua vocação carismática. É muito valioso que os Movimentos procurem tornar actual o carisma recebido; reconhecendo o que está a acontecer, hoje, nessa realidade carismática integrada no contexto geral da Igreja e da sociedade. Isto significa regressar às fontes da experiência carismática a fim de as actualizar com a contribuição de uma reflexão cultural e teológica em diálogo com o Espírito Santo. Os carismas progridem e evoluem ou morrem, mais lentamente ou mais depressa, mas se estagnarem começam a desvanecer-se. A fonte de existência de uma organização carismática é tomar medidas para alargar o carisma, dando mais vida à identidade recebida na experiência fundadora.

  1. É impressionante que, embora os carismas surjam como um movimento disruptivo da institucionalidade eclesial, as próprias comunidades carismáticas também se podem petrificar. O que torna a questão mais interessante é que o re-impulso no seu dinamismo apostólico pode vir da própria Igreja Petrina, do Papa e do serviço ministerial dos Bispos. O Papa Francisco disse-nos na celebração dos 100 anos de Schoenstatt que “um carisma não é uma peça de museu que permanece intacta numa vitrina”. Como é a relação entre carisma e institucionalidade, no duplo movimento descrito?

 

O conceito “instituição” quando indica um processo de esclerose, de fixação nas estruturas conquistadas e de resistência à mudança, também pode ocorrer numa realidade carismática, independentemente do grau de institucionalidade alcançado.
O conceito “instituição” quando indica um processo de esclerose, de fixação nas estruturas conquistadas e de resistência à mudança, também pode ocorrer numa realidade carismática, independentemente do grau de institucionalidade alcançado. Algumas novas comunidades não conseguiram desenvolver-se como uma organização estável e, no entanto, enfrentam um momento de crise porque são incapazes de evoluir.

Os Bispos, assim como outras instâncias da Igreja, podem oferecer o seu serviço na integração e renovação das novas realidades carismáticas, conhecendo, partilhando, acolhendo e acompanhando, a partir de uma atitude humilde e caridosa de escuta do Espírito Santo, e assim saberem guiar, coordenando um caminho de integração dos novos carismas, sem os tentarem uniformizar ou catalogar. A orientação do Espírito Santo e dos líderes da Igreja, que exercem o carisma do discernimento – obra do mesmo Espírito – permitirá que os carismas guardem em criatividade a novidade da sua contribuição.

A dada altura das minhas pesquisas, salientei a responsabilidade do serviço dos Bispos na orientação das novas comunidades; sem o deixar de lado, neste momento da minha reflexão considero mais importante e indispensável a construção de um “nós” reflexivo no seio dos Movimentos. Alcançar espaços de diálogo sereno entre os membros de um Movimento onde são discutidos os problemas e desafios dos quais se apercebem, é um contributo determinante para que a própria comunidade encontre, com a ajuda do discernimento da Igreja e dos seus dons hierárquicos, o caminho para uma autêntica renovação e vitalidade carismáticas.

  1. O senhor escreveu que uma comunidade madura deve ser capaz de distinguir o que é “muito pessoal do fundador” da “realidade carismática que Deus quis suscitar através desse fundador”. O que significa isto? Existe um “carisma da fundação” nos membros de uma comunidade que é mais autêntico do que as palavras ou actos do próprio fundador?
Um dos problemas que hoje vemos é que a palavra “carisma” é utilizada de forma excessiva, indicando tudo, desde uma questão essencial na identidade de uma família religiosa até questões absolutamente irrelevantes ou secundárias.
Após o Concílio, a palavra “carisma” começou a ser usada na teologia da vida religiosa e novos termos foram criados para fazer referência aos fundadores e às suas famílias religiosas. Sinteticamente, podemos ver que se fala de “carisma dos fundadores” para indicar um dom do Espírito que permite o nascimento de novas comunidades de vida consagrada na Igreja, e começa-se a usar a frase “carisma de fundação” para indicar o dom concedido aos seguidores do fundador para o desenvolvimento da comunidade ou família espiritual, de acordo com a forma original proveniente do fundador. As noções de “carisma do instituto” ou “carisma da fundação” são também cunhadas para indicar as qualidades particulares da nova família espiritual no seio da Igreja.

Um dos problemas que hoje vemos é que a palavra “carisma” é utilizada de forma excessiva, indicando tudo, desde uma questão essencial na identidade de uma família religiosa até questões absolutamente irrelevantes ou secundárias. Além disso, nalgumas fundações, as decisões do fundador, baseadas numa teologia dos fundadores promovida durante o pontificado de João Paulo II, ganharam absoluta preeminência e tornaram-se um obstáculo a uma desejável revisão e actualização da experiência vital da comunidade.

A reflexão sobre os Movimentos realizada nas décadas de 1980 e 1990 respondeu à necessidade de legitimar a autoridade dos novos fundadores, tanto na definição da identidade carismática da nova comunidade como também, na organização institucional e funcional. As reflexões contemporâneas sobre a autoridade nas organizações da dimensão carismática assumiram a necessidade de apontar o lugar erróneo conferido ao fundador como único intérprete de um carisma, ou de considerar, erroneamente, que a autoridade pneumática ou a graça carismática permite subtrair-se às normas da lei universal da Igreja.

  1. Desde a década de 1930, Schoenstatt tem tido problemas com a Igreja alemã devido a dois factos específicos relativos à linguagem utilizada no Movimento: o primeiro está relacionado com a consideração de “Schoenstatt como a obra predilecta de Deus”, e o segundo está relacionado com a denominação de Kentenich como “Pai”, produzindo uma ambivalência com Deus Pai. No entanto, imagino que estes dois fenómenos, que de alguma forma são hoje novamente discutíveis, são comuns nas famílias espirituais: São Vicente de Paulo afirmou “Não conheço nenhuma companhia religiosa mais útil à Igreja do que as Filhas da Caridade” e a expressão “nosso Pai” acompanhava os Jesuítas. Será que esta linguagem representa um perigo para a maturidade eclesial?

 

Considero que os dois factos específicos acima mencionados podem ser considerados como fases de desenvolvimento e maturidade de uma família espiritual.

No entanto, com o crescimento e amadurecimento dos Movimentos, seria desejável desprender-se de uma auto-referencialidade que, assume a própria experiência como a melhor, mais perfeita ou favorita de Deus.
É inevitável que, no nascimento de uma nova comunidade, a forte experiência inicial dos seus membros os leve a concentrarem-se em si próprios, numa espécie de paixão ingénua com o risco de cairem numa absolutização do seu próprio carisma. No entanto, com o crescimento e amadurecimento dos Movimentos, seria desejável desprenderem-se de uma auto-referencialidade que assume a própria experiência como a melhor, mais perfeita ou favorita de Deus. O carisma é uma modalidade ou forma de viver a experiência do Evangelho na Igreja para uma pessoa e para uma comunidade, mas não para todas as pessoas ou para todos os cristãos. É desejável que os Movimentos possam mobilizar entre os seus membros uma visão mais integrada do seu próprio carisma na diversidade e pluralidade de formas de participação e comunhão na Igreja. Em relação à forma como os membros do Movimento ou Comunidade chamam ou denominam as figuras carismáticas relevantes, é uma área que requer um discernimento mais preciso. Nalguns casos, pode ser uma questão de distinguir e nomear a pessoa que é considerada o pai espiritual ou portador do carisma para fundar essa nova comunidade, acompanhada por um modo saudável e maduro de vinculação e uma visão realista da pessoa do fundador ou fundadora, mesmo das suas sombras ou aspectos pessoais menos brilhantes. Noutras ocasiões, contudo, pode indicar um modo de vinculação à personalidade carismática, imaturo, pouco saudável e altamente idealizado ou fantasioso, que pode levar a uma concepção fundamentalista e muito simplista da obediência.

Neste caso, em relação à pergunta feita, é razoável e prudente assumir as críticas que são feitas e procurar explicá-las à luz do contexto histórico em que se realizaram. Algumas observações podem não ser tão relevantes, mas outras são certamente, e devem ser recebidas e assumidas, tendo em conta, o crescimento e maturidade do Movimento. Alguns comportamentos passados podem ser avaliados no presente e reconhecidos como impedindo o estabelecimento de ambientes saudáveis e relações sãs de paridade entre os diferentes membros adultos de uma comunidade.

  1. Finalmente, em 2016 a Congregação para a Doutrina da Fé publicou Iuvenescit Ecclesia, um documento que trata precisamente da questão dos carismas para a vida e missão da Igreja. Qual foi a razão da sua publicação? Que outras intervenções magistrais recomenda que estudemos sobre este assunto?
O objectivo desta nova carta é “recordar” “aqueles elementos teológicos e eclesiológicos cuja compreensão pode favorecer uma participação frutuosa e ordenada dos novos agregados na comunhão e missão da Igreja” (IE 3)
Após o Jubileu do ano 2000, durante o pontificado de João Paulo II, a Congregação para a Doutrina da Fé começou a considerar o tema da relação, na vida e missão da Igreja, dos dons “hierárquicos” e “carismáticos”. O resultado desta reflexão foi a Carta Iuvenescit Ecclesia (IE), que foi publicada após mais de 15 anos de reflexão, devido ao impulso decisivo do Papa Francisco.

O objectivo desta nova carta é “recordar” “aqueles elementos teológicos e eclesiológicos cuja compreensão pode favorecer uma participação frutuosa e ordenada dos novos agregados na comunhão e missão da Igreja” (IE 3), propósito que procura alcançar através da análise da relação entre os dons hierárquicos e carismáticos na Igreja.  A utilização da acção “recordar” já nos indica a necessidade de voltar ao que é conhecido, mas que hoje é necessário fazer presente de novo, para responder às exigências da comunidade eclesial. Porquê então recordar? Em primeiro lugar, devido à urgência particular neste tempo histórico de comunicar eficazmente o Evangelho, onde a nova evangelização é uma tarefa indispensável de toda a Igreja.

Em segundo lugar, porque “é mais necessário do que nunca reconhecer e apreciar os muitos carismas” que contribuem para despertar e sustentar a fé do Povo de Deus (cf. IE 1). E finalmente, devido à necessidade de que as novas realidades estejam positivamente relacionadas com os outros dons presentes na vida da Igreja (cf. IE 2). Devemos reconhecer honestamente que não teve um grande impacto na comunidade eclesial, embora ofereça um quadro claro para reconhecer a contribuição dos carismas associativos na Igreja.

Considero oportuno que os membros dos Movimentos e das Novas Comunidades recebam as contribuições que as Congregações e Institutos de Vida Consagrada estão actualmente a fazer nas suas reflexões. Tanto as Orientações “Ao Novo Vinho, Novos Odres” de 2017, como a “Economia ao Serviço do Carisma e da Missão” de 2018, da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica (CIVCSVA) apresentam contribuições que podem ser transpostas da experiência das comunidades mais antigas para as mais recentes.

 

 

Audiência ao Movimento Apostólico de Schoenstatt 2014


Artigos do autor para continuar a  aprofundar (ES):

A entrevista foi feita por Ignacio Serrano

 

Original: espanhol (19/8/2020). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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