Colocado em 31. Dezembro 2016 In Dilexit ecclesiam, obras de misericórdia

Natal em Maisí, a Paróquia cubana onde o furacão destruiu o templo e as casas mas não a fé

CUBA, Pe. Alberto, pároco de Maisí •

As catástrofes têm prazo de validade mediático muito estreito. Não só nos meios de comunicação, mas também nos donativos solidários, nas orações, na memória. São, simplesmente tantas e, inclusivamente, as que têm algum vínculo pessoal que tocam os níveis mais profundos da alma, deixam de ser presente…Furacão Matthew? A Paróquia de Maisí na Diocese de Guantánamo, a Paróquia onde até Julho de este ano trabalhava um dos sacerdotes schoenstatteanos de Cuba? Foi em Outubro e, como em Cuba só houve danos materiais, os meios de comunicação mundiais não prestaram muita atenção às pessoas do leste da ilha que perderam tudo… Quase tudo. Pois, não perderam a sua fé, a sua alegria nem a sua criatividade. Partilhamos uma descrição do Natal em Maisí, por parte do seu Pároco actual, o Pe. Alberto.

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Feliz Natal!

Feliz Natal! Sim, Feliz Natal! Porque o Natal não é sinónimo de um mundo perfeito e sem angústias. Natal não significa ausência de dor e de sofrimento. O Natal é o cumprimento de uma promessa: “ Eu virei a ti, às tuas horas, às tuas alegrias e às tuas noites; eu virei e estarei contigo, com o sol que nasce e na espera áspera dos amanheceres que tardam”. E Natal é o acolhimento de uma certeza: Eu estou contigo”.

Às vezes afundamo-nos em espiritualismos românticos no desejo ingénuo de um mundo de anjos com rostos humanos. E, contudo, nunca nos foi prometido um paraíso terrestre. Foi-nos prometida uma presença e, na realidade, isso basta, basta para alimentar a esperança e levantar-se todos os dias para oferecer ao mundo o bem que precisa. Fomos trazidos a esta terra para vivermos e, a vida é esforço, é luta, é opção para tirar da alma um bem maior.

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Olha

O meu Natal esteve marcado este ano por uma palavra: “Olha” e, eu tentei que os meus olhos vissem em clave de Natal. E vi.

Vi as minhas crianças felizes, brincando cheias de lama com uma velha roda de camião; vi as minhas comunidades cantando, como de costume, respeitando o texto que têm escrito e colocando nesse texto qualquer nota musical que lhes ocorra nesse momento; vi pessoas a caminhar quilómetros pela lama para não perderem a Missa ou a celebração, e começar com o templo cheio apesar de uma chuva inclemente.

Vi gente escolher a vida no meio dos seus tetos ainda derrubados e dos seus colchões húmidos e terem tempo para semear flores em todas as latas que já não têm comida. Vi pessoas desejarem electricidade, mas não maldizerem quando, por qualquer motivo, ela desaparece; vi pessoas a saborearem um pedaço de malanga ou de carne quando as têm, mas não deprimir-se nem porem-se saudosos quando não as têm, o que é o habitual e, comerem um prato de arroz com molho que lhe dê côr como se fosse o mais natural deste mundo. Vi como as pessoas vivem num mundo sem frutas nem saladas, sem sobremesas, sem leite para o pequeno-almoço, sem que isto lhes azede o caracter. Vi mulheres lavando no rio que, deixam a roupa quando chega o padre à celebração para se oferecerem um parêntesis de oração.

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Maria, José e o Menino no presépio de cartão

Vi comunidades que improvisam obras singelas de Natal e que, como não têm Presépios, os fazem com bonecas masculinizadas, pintando Maria e José, fazendo os animais com cartão e enfeitando as arvorezinhas com pedras embrulhadas em papéis brilhantes de antigos caramelos e pondo nas mãos dos Reis Magos velhas pulseiras de metal de relógios avariados.

Vi um Deus que vai provendo, pouco a pouco o Seu povo e, vi um povo que não tem vergonha de falar de Deus em público, para te saudar dizendo: “Bênção”, nem para comentar no meio da gente: “Eu confio em Deus”.

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Confiar em Deus

Vi um Deus que me pede que confie, quando tenho que ir às povoações de moto, de noite e debaixo de chuva, ou num velho Jeep sem portas, porque o meu carro não está disponível, sabendo que, ao chegar, as pessoas estarão lá, molhadas, com lama, alguns descalços, esperando uma celebração de apenas 40 minutos; ou quando andamos pelas montanhas sem pneu sobresselente porque quando fomos arranjá-lo não havia electricidade. Confiar em que Deus pode fazer caminho entre as pessoas quando alguém vem e me pede se posso: “Tirar a água ao seu filho”; ou quando a miséria humana, tão intrínseca ao ser humano como a sua generosidade se manifesta em egoísmos ou venenos verbais.

Sim, Feliz Natal, porque no meio deste mundo imperfeito, húmido e enlameado, Deus está, fazendo o Seu caminho calado e sereno em muitos corações e fazendo brotar em tanta gente o bem e a alegria.

E, para todos vós, Feliz Natal e obrigado, obrigado por todo este tempo de oração e generosidade, obrigado por dirigirem os vossos olhares e os vossos corações, muitas vezes, para este pedaço de terra onde as pessoas dizem que, “Colombo descobriu Cuba e Matthew descobriu Maisí”

Obrigado por tanta proximidade, por tanta paciência comigo que tardo em escrever, obrigado por me transmitirem a certeza de que estão aí, mais próximo do que a geografia pode fazer pensar.

Para todos vós, Feliz Natal e um Ano onde a vista descubra tudo o que, desde a simplicidade, Deus faz brotar, dia-a-dia, mesmo ao nosso lado.

Feliz Natal e os meus agradecimentos e a minha bênção.

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Não só Matthew descobriu Maisí. Também descobriu a solidariedade de schoenstatteanos em rede. Ainda se pode dar uma contribuição:


ou:

Schoenstatt-Priesterwerk e.V.

IBAN DE49 4006 0265 0003 3849 00

BIC GENODEM1DKM

Nome da transferência: Cuba Maisi/P. Rolando Montes

Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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