Colocado em 26. Outubro 2019 In Igreja - Francisco - movimentos

Pacto das Catacumbas em prol da Casa Comum

SÍNODO DA AMAZÓNIA, redacção com material de várias agências •

 Este 20 de Outubro ficará registado na história da Igreja como o dia em que foi assinado o “Pacto das Catacumbas em prol da Casa Comum”.—

A Igreja renova, no mesmo lugar e com o mesmo espírito, o forte compromisso assinado em 16 de Novembro de 1965, poucos dias antes do encerramento do Concílio Vaticano II. Foi o dia em que 42 padres conciliares celebraram a Eucaristia nas Catacumbas de Domitilla para pedir a Deus a graça de “ser fiel ao espírito de Jesus” no serviço aos pobres.

Aquele primeiro Pacto não era, apenas, uma linda declaração de intenções mas, descia a um plano mais pessoal. Por isso, renunciavam às riquezas, tanto nas aparências como na realidade, a possuirem bens seus; rejeitavam os nomes e títulos que expressassem poder, tais como, Eminência, Excelência, Monsenhor; nas relações sociais, comprometiam-se a evitar a preferência pelos ricos e poderosos e optavam pelo uso de símbolos evangélicos, nunca de metais preciosos.

Mais de 50 anos depois, em Outubro de 2019, foi assinado o documento “Pacto por uma Igreja serva e pobre”: o compromisso assumido foi o de colocar os pobres no centro da Pastoral. O texto, também conhecido como “Pacto das Catacumbas”, teve a adesão de mais de 500 padres conciliares.

Passos do Concilio e novos caminhos

Depois de 54 anos, a herança dos Padres conciliares foi assumida por um grupo de participantes no Sínodo dos Bispos para a região pan-amazónica, focalizado no tema: “Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. O espírito daquele dia vivido em 1965 nas Catacumbas de Domitilla foi renovado. Na manhã deste Domingo, 20 de Outubro, na presença de dezenas de pessoas – entre os quais mais de 40 padres sinodais -, o Cardeal Claudio Hummes, Relator-Geral do Sínodo para a Amazónia, presidiu a Santa Missa no mesmo lugar, o maior e mais antigo cemitério subterrâneo de Roma. E foi precisamente nas Catacumbas de Domitilla, estabelecendo uma forte ligação com o documento assinado em 1965, que foi assinado um documento intitulado “Pacto das Catacumbas em prol da Casa Comum”. Por uma Igreja com rosto amazónico, pobre e ao serviço, profética e samaritana”. A novidade é que não foram somente os padres sinodais a assinar o documento, mas todos os participantes – sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos – afirmando a sua adesão ao Pacto em prol da Casa Comum. Presentes também representantes da Igreja Anglicana e da Assembleia de Deus.

“Este Sínodo é fruto do Concílio Vaticano II”, recordou o Cardeal Hummes durante a sua Homilia, na qual encorajou os presentes a dirigir o olhar para a Igreja primitiva que, embora perseguida, celebrava a memória de Jesus nas Catacumbas e Se fortalecia com o testemunho dos mártires.

Hummes também destacou que “as grandes reformas do Papa Francisco nos convidam a olhar para a Igreja primitiva” e particularmente, neste Sínodo Pan-Amazónico, a “proclamar a palavra sem medo na Amazónia”, sem deixar de “acreditar no poder da oração e nos nossos povos”, para fazer da “Ecclesia Semper Reformanda” uma realidade.

 

O Pacto das Catacumbas em prol da Casa Comum

No documento os participantes no Sínodo para a Amazónia lembram que partilham a alegria de viverem no meio de numerosos povos indígenas, habitantes das margens dos rios, migrantes e comunidades periféricas. Com eles, experimentaram a força do Evangelho que actua nos pequenos”. “O encontro com estes povos nos interpela e nos convida a uma vida mais simples de partilha e gratuidade”. Marcados pela escuta dos seus clamores e lágrimas, acolhemos de coração as palavras do Papa Francisco: “Muitos irmãos e irmãs na Amazónia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos” . Os signatários do documento comprometem-se a “renovar a opção preferencial pelos pobres”, a abandonar “qualquer tipo de mentalidade e atitude colonial”, a anunciar “a novidade libertadora do Evangelho de Jesus Cristo”. Comprometem-se também a reconhecer “os ministérios eclesiais já existentes nas comunidades” e a buscar “novos caminhos de acção pastoral”.

O Pacto em prol de uma Igreja que serve e é pobre

O dia de hoje, portanto, está relacionado com o de 16 de Novembro de 1965 e com o “Pacto das Catacumbas”, que contém uma exortação dirigida aos “irmãos no episcopado” a levar uma “vida de pobreza”, para ser uma Igreja serva e pobre, segundo o espírito proposto pelo Papa João XXIII. Dois meses antes dessa celebração, o Papa Paulo VI tinha ido às catacumbas de Domitila e declarado: “Aqui o cristianismo afundou as suas raízes na pobreza, no ostracismo dos poderes constituídos, no sofrimento das perseguições injustas e sangrentas; aqui a Igreja foi despojada de todo o poder humano, era pobre, humilde, piedosa, oprimida, heróica. Aqui o primado do espírito, de que fala o Evangelho, tinha a sua escura, quase misteriosa, mas invocada afirmação, o seu incomparável testemunho, o seu martírio”.

Uma Igreja pobre para os pobres

O compromisso assumido pelos padres do Concílio em 1965 foi também um dos primeiros desejos expressos pelo Papa Francisco logo após a sua eleição para a Cátedra de Pedro. No dia 16 de Março de 2013, ao receber os representantes dos meios de comunicação, na Sala Paulo VI, o Santo Padre disse: “Como eu gostaria de uma igreja pobre e para os pobres!” Em carta enviada em 2016 ao Pe. Julián Carrón, presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação, o Papa pede um regresso às raízes: “Num mundo dilacerado pela lógica do benefício que produz nova pobreza e gera a cultura do descarte, não deixo de “invocar a graça de uma Igreja pobre e para os pobres”. Não é um programa liberal, mas um programa radical porque significa um regresso às raízes. Voltar às origens não é um retiro do passado, mas a força para um início corajoso para o amanhã. É a revolução da ternura e do amor.

A primavera de uma Igreja pobre, ao serviço, profética e samaritana.

Porque, como afirma o Pacto em várias das suas propostas, a Igreja do futuro será assim ou não será . Uma Igreja de amor em acção, que passa do anúncio da misericórdia ao exercício concreto da misericórdia; que toca a carne dos empobrecidos, partilha a sua vida e se mancha de lama para a libertar. Que eles e os seus filhos possam viver com dignidade.

Dois sinais foram particularmente relevantes na conclusão da celebração eucarística e da assinatura do Pacto por volta das 9 horas da manhã, quando o Cardeal Hummes comentou que o Cálice utilizado na celebração pertenceu ao missionário comboniano Ezequiel Ramin, que deu a sua vida pela Amazónia em 1985.

Da mesma forma, o Bispo Emérito de Xingu, Erwin Kräutler, recebeu de Hummes a Estola que era de Dom Hélder Câmara – e que o Cardeal tinha usado na Eucaristia de hoje (20/10/2019). “Merece ter a Estola do Don Hélder”, foram as palavras dele.

 


PACTO DAS CATACUMBAS EM PROL DA CASA COMUM

Por uma Igreja com rosto amazónico, pobre e ao serviço, profética e samaritana.

Nós, participantes do Sínodo Pan-amazónico, partilhamos a alegria de habitar no meio de numerosos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, migrantes, comunidades na periferia das cidades desse imenso território do Planeta.

Com eles temos experimentado a força do Evangelho que actua nos pequenos. O encontro com esses povos nos interpela e nos convida a uma vida mais simples de partilha e gratuidade. Marcados pela escuta dos seus clamores e lágrimas, acolhemos de coração as palavras do Papa Francisco: “Muitos irmãos e irmãs na Amazónia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos” .

Evocamos com gratidão aqueles bispos que, nas Catacumbas de Santa Domitila, ao término do Concílio Vaticano II, firmaram o Pacto por uma Igreja ao serviço e pobre . Recordamos com veneração todos os mártires membros das comunidades eclesiais de base, de pastorais e movimentos populares; lideranças indígenas, missionárias e missionários, leigas e leigos, padres e bispos, que derramaram seu sangue, por causa desta opção pelos pobres, por defender a vida e lutar pela salvaguarda da nossa Casa Comum . À gratidão por seu heroísmo unimos a nossa decisão de continuar sua luta com firmeza e coragem. É um sentimento de urgência que se impõe ante as agressões que hoje devastam o território amazónico, ameaçado pela violência de um sistema económico predatório e consumista.

Diante da Trindade Santa, das nossas Igrejas particulares, das Igrejas da América Latina e das Caraíbas e daquelas que nos são solidárias na África, Ásia, Oceania, Europa e no norte do continente americano, aos pés dos apóstolos Pedro e Paulo e da multidão dos mártires de Roma, da América Latina e em especial da nossa Amazónia, em profunda comunhão com o sucessor de Pedro, invocamos o Espírito Santo, e nos comprometemos pessoal e comunitariamente com o que se segue:

  1. Assumir, diante da extrema ameaça do aquecimento global e da exaustão dos recursos naturais, o compromisso de defender nos nossos territórios e com as nossas atitudes a floresta amazónica em pé. Dela vêm as dádivas das águas para grande parte do território sul-americano, a contribuição para o ciclo do carbono e regulação do clima global, uma incalculável biodiversidade e rica socio-diversidade para a humanidade e a Terra inteira.
  2. Reconhecer que não somos donos da mãe terra, mas seus filhos e filhas, formados do pó da terra (Gn 2, 7-8) , hóspedes e peregrinos (1 Pd 1, 17b e 1 Pd 2, 11) , chamados a ser seus zelosos cuidadores e cuidadoras (Gn 1, 26). Portanto, comprometemo-nos com uma ecologia integral, na qual tudo está interligado, o género humano e toda a Criação porque a totalidade dos seres são filhas e filhos da terra e sobre eles paira o Espírito de Deus (Gn 1, 2).
  3. Acolher e renovar a cada dia a aliança de Deus com todo o criado: “Da minha parte, vou estabelecer a minha aliança convosco e com a vossa descendência, com todos os seres vivos que estão convosco, aves, animais domésticos e selvagens, enfim, com todos os animais da terra que convosco saíram da arca (Gn 9, 9-10 e Gn 9, 12-17).
  4. Renovar nas nossas igrejas a opção preferencial pelos pobres, em especial pelos povos originários, e junto com eles garantir o direito de serem protagonistas na sociedade e na Igreja. Ajudá-los a preservar as suas terras, culturas, línguas, histórias, identidades e espiritualidades. Crescer na consciência de que estas devem ser respeitadas local e globalmente e, consequentemente favorecer, por todos os meios ao nosso alcance, que sejam acolhidas em pé de igualdade no concerto mundial dos demais povos e culturas.
  5. Abandonar, como decorrência, nas nossas Paróquias, Dioceses e grupos toda a espécie de mentalidade e postura colonialista, acolhendo e valorizando a diversidade cultural, étnica e linguística num diálogo respeitoso com todas as tradições espirituais.
  6. Denunciar todas as formas de violência e agressão à autonomia e direitos dos povos originários, à sua identidade, aos seus territórios e às suas formas de vida.
  7. Anunciar a novidade libertadora do evangelho de Jesus Cristo, no acolhimento ao outro e ao diferente, como sucedeu com Pedro na casa de Cornélio: “Vós bem sabeis que a um judeu é proibido relacionar-se com um estrangeiro ou entrar em sua casa. Ora, Deus me mostrou que não se deve dizer que algum homem é profano ou impuro” (At 10, 28) .
  8. Caminhar ecumenicamente com outras comunidades cristãs no anúncio inculturado e libertador do evangelho, e com as outras religiões e pessoas de boa vontade, na solidariedade com os povos originários, com os pobres e pequenos, na defesa dos seus direitos e na preservação da Casa Comum
  9. Instaurar nas nossas igrejas particulares um estilo de vida sinodal, onde representantes dos povos originários, missionários e missionárias, leigos e leigas, em razão do seu batismo, e em comunhão com seus pastores, tenham voz e voto nas assembleias diocesanas, nos conselhos pastorais e paroquiais, enfim em tudo que lhes compete no governo das comunidades.
  10. Empenhar-nos no urgente reconhecimento dos ministérios eclesiais já existentes nas comunidades, exercidos por agentes de pastoral, catequistas indígenas, ministras e ministros da Palavra, valorizando em especial seu cuidado em relação aos mais vulneráveis e excluídos.
  11. Tornar efetiva nas comunidades a nós confiadas a passagem de uma pastoral de visita a uma pastoral de presença, assegurando que o direito à Mesa da Palavra e à Mesa de Eucaristia se torne efetivo em todas as comunidades.
  12. Reconhecer os serviços e a real diaconia do grande número de mulheres que hoje dirigem comunidades na Amazónia e procurar consolidá-los com um ministério adequado de mulheres dirigentes de comunidade.
  13. Buscar novos caminhos de acção pastoral nas cidades onde actuamos, com protagonismo de leigos e jovens, com atenção às suas periferias e aos migrantes, aos trabalhadores e aos desempregados, aos estudantes, educadores, pesquisadores e ao mundo da cultura e da comunicação .
  14. Assumir diante da avalanche do consumismo um estilo de vida alegremente sóbrio, simples e solidário com os que pouco ou nada tem; reduzir a produção de lixo e o uso de plásticos, favorecer a produção e comercialização de produtos agro-ecológicos, utilizar sempre que possível o transporte público.
  15. Colocar-nos ao lado dos que são perseguidos pelo profético serviço de denúncia e reparação de injustiças, de defesa da terra e dos direitos dos pequenos, de acolhimento e apoio a migrantes e refugiados. Cultivar amizades verdadeiras com os pobres, visitar as pessoas mais simples e os enfermos, exercitando o ministério da escuta, da consolação e do apoio que trazem alento e renovam a esperança.

Conscientes das nossas fragilidades, de nossa pobreza e pequenez diante de tão grandes e graves desafios, confiamo-nos à oração da Igreja. Que sobretudo as nossas Comunidades Eclesiais nos socorram com a sua intercessão, afecto no Senhor e, sempre que necessário, com a caridade da correção fraterna. Acolhemos de coração aberto o convite do Cardeal Hummes para nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo nestes dias do Sínodo e no retorno às nossas igrejas:

“Deixemo-nos envolver no manto da Mãe de Deus e Rainha da Amazónia. Não deixemos que nos vença a auto-referencialidade, mas sim a misericórdia diante do grito dos pobres e da terra. Será necessária muita oração, meditação e discernimento, além de uma prática concreta de comunhão eclesial e espírito sinodal. Este sínodo é como uma mesa que Deus preparou para os seus pobres e nos pede a nós que sejamos aqueles que servem à mesa”.

Celebramos esta Eucaristia do Pacto como “um acto de amor cósmico. “Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja de aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo”. A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a Criação”.

O mundo saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico “a criação propende para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador”. “Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira”.

Catacumbas de Santa Domitila

Roma, 20 de Outubro de 2019

 

Original: espanhol (23/10/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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