Colocado em 4. Dezembro 2019 In Vozes do Tempo

Uma corrente de vida no meio das correntes do Tempo

VOZES DO TEMPO, Pe. Juan Pablo Rovegno, Chile •

Navegamos no meio das correntes de um tempo tempestuoso e de mudanças profundas: a crise eclesial que, na sua complexidade e dor, exige de nós um novo modo de ser Igreja e de servir a vida a nós confiada; a crise ambiental que nos desafia a uma co-responsabilidade planetária para tornar a casa comum num espaço para o futuro; a crise sócio-cultural que desafia a ordem estabelecida, exigindo novas formas de relacionamento, inclusão e integração; a crise de género que nos mostrou o valor da mulher, que exige reconhecimento e presença em todas as áreas do ser humano. A isto podemos acrescentar as várias crises que cada um experimenta na sua vida pessoal e comunitária, não só fruto da nossa condição humana, mas também de um estilo de vida excessivamente exigente e hiper-estimulado, que impede um desenvolvimento saudável e equilibrado.—

No entanto, do ponto de vista providencialista, percebemos sinais de vida e correntes de esperança. O desafio é descobrir o chamamento ineludível que temos em colaborar para a configuração de uma nova ordem social.

Neste sentido, este tempo é uma oportunidade para aprofundar e projectar o caminho que temos vindo a seguir como Família.

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1 – O caminho percorrido:

Há pouco mais de um ano, com a imagem do barco no meio da tempestade, motivámos o desenvolvimento das Jornadas Regionais, que foram uma grande oportunidade para criar espaços de intercâmbio, reflexão e diálogo face à situação eclesial e à nossa. Procurámos responder não só aos desafios dos tempos, mas também às vozes que emergiram da nossa própria Família (a partir da nossa Juventude) que buscavam respostas para a crise, confrontavam estilos de liderança, exigiam transparência nos nossos processos e renovação na forma como dialogávamos com a realidade e contribuíamos com o nosso carisma.

Com o fruto deste trabalho, abrimos um tempo para receber preocupações e reflexões que nos ajudaram a discernir o conteúdo da Jornada Nacional dos Responsáveis. Convocámos uma comissão, transversal na sua configuração, com representantes de todos os níveis da Família, para discernir, desenhar e moldar a nossa Jornada Nacional. O lema que nos acompanhou foi: “Como Família, vamos juntos para a outra margem”. Tivemos em mente as contribuições e reflexões de diferentes instâncias, o momento que estamos a viver e os desafios que ele apresenta, assim como o Jubileu dos 70 anos da nossa missão, unidos ao Santuário de Bellavista e à coroação da Mater (cujo violento roubo nos colocou em alerta como Família). Estabelecemos como objectivo da nossa Jornada Nacional:

Renovar a nossa cruzada pelo organismo das vinculações, através da cura dos vínculos feridos, iluminando o saudável exercício da autoridade, o valor das causas segundas e a sã vivência dos vínculos.

A Jornada Nacional de Dirigentes foi uma experiência muito apreciada, pelo espaço de oração, intercâmbio e reflexão que vivemos. Tudo isso aconteceu num clima de grande proximidade, colaboração e trabalho entre as diversas instâncias e comunidades que compõem a nossa Família. Foi uma forma muito concreta de aprofundar o difícil momento eclesial que estamos a viver, que nos confrontou e desafiou como Movimento.

Uma das experiências mais enriquecedoras, juntamente com a manhã de retiro e a centralidade em Jesus, foi o trabalho em várias mesas no que respeita à sua composição, com representantes de todos os estratos da nossa Família. Foram pequenos cenáculos onde partilhámos a mesa, a reflexão e o intercâmbio com base nas perguntas que recebemos. O objectivo da nossa Jornada interpelava-nos a rever-nos, a olhar-nos com realismo e humildade, a dialogar com a realidade, a renovar a nossa missão à luz da crise eclesial e a assumir a nossa própria necessidade de revisão face ao tempo acelerado de mudança em que vivemos.

O símbolo que nos acompanhou foi a Cruz da Unidade original, que foi erigida como um verdadeiro sacramental. Desta vez todos nós quisemos segurá-la, como sinal do desafio comum de unidade e missão que ela representa.

O trabalho foi concluído com três desafios que nos mostram um modo de ser Família, Missão e Igreja. Desafios que são acentos necessários para a nossa reflexão, intercâmbio e projecção futuros:

  1. A auto-educação e o cultivo da interioridade

  2. O espírito familiar que se traduza em formas de relação, trabalho e colaboração.

  3. Um Schoenstatt em Saída e ao serviço da Igreja e da sociedade.

 

Estes três desafios constituem a forma como queremos navegar neste tempo para a outra margem, desafiam-nos em tudo o que fazemos e como o fazemos, desafiam-nos a procurar formas de fazer deste tempo de crise um tempo de conversão e renovação.

 

2 – Um modo renovado de ser Igreja e Família: participação em comunhão.

Recentemente tivemos dois momentos de encontro muito valiosos que nos ajudaram a aprofundar este caminho: a comissão que trabalhou para a Jornada Nacional e um Conselho Ampliado da Central de Assessores, com representantes não só consagrados, mas também leigos da nossa Família.

Através do intercâmbio foi importante perceber como o espírito destes desafios, sobre os quais reflectimos como Família, não só procura formas de concretização, mas exprime um processo de vida que permeia tudo.

Estamos diante de um processo de vida que parece mostrar-nos uma corrente vital que tem como eixos: a participação, a colaboração e a co-responsabilidade, por um lado; a interioridade, a auto-educação e a profundidade de vida para assumir os desafios do tempo, por outro, assim como o desafio sempre presente de contribuir e servir a Igreja e o mundo, com linguagens e formas dialogantes, complementares e abertas.

Tendo em conta o processo eclesial geral (a crise eclesial, os impulsos e o estilo do Papa Francisco) e os desafios colocados pela cultura e pela sociedade (maior participação e proximidade às necessidades das pessoas;  um desafio de liderança, animação e integração entre os diversos actores sociais), é válido perguntar se estamos diante não só, de um processo de vida, mas também de uma corrente de vida que requer espaços, formas e espírito.

Não só a conjuntura, mas a realidade mostra-nos um impulso ineludível de compromisso transversal. E não apenas como um modo de enfrentar os desafios actuais, mas como um novo modo de ser Família e Igreja. Neste sentido, não estamos diante de uma estratégia ou de uma acomodação, mas de um espírito de família que quer impregnar o nosso modo de inspirar, reflectir, decidir,  de inspirar e moldar, assim como irradiar e enriquecer o carisma, juntamente com um diálogo activo e complementar com a realidade.

É um modo muito concreto de nos fazermos parte do processo eclesial que vivemos, que na experiência do “Povo de Deus” está à procura de sentido e de respostas.

O nosso Pai convida-nos a não temermos esta nova forma de ser Igreja:

“Repito então que a nova imagem da Igreja, o modo como ela Se vê a Si própria, os traços que percebe em Si mesma, são a expressa fraternidade  enquanto realidade partilhada do Povo de Deus. Os membros deste Povo de Deus estão unidos entre si, e também com a hierarquia, por causa de uma profunda e abrangente responsabilidade. Não há falta de responsabilidade, mas cada um, não só, é responsável pelo seu cargo, mas também por toda a Igreja. É assim que nos é apresentada a nova imagem da Igreja. E a hierarquia? Bem, o que significam, hoje em dia, os quadros dirigentes da Igreja? Em primeiro lugar, descer, entrar nessa comunidade, naquilo que nos une: porque a hierarquia é também o povo de Deus, porque a responsabilidade da qual a hierarquia é depositária não é responsabilidade por súbditos indignos, mas pelo povo de Deus. O que significa isso? Repito: uma proximidade muito mais forte entre “acima” e “abaixo”. E o que significa exactamente isso? Que uma orientação hierárquica, um governo hierárquico, é o governo que começa – como tantas vezes falámos nestes dias – a partir de uma marcada paternidade , de uma paternidade ancorada no mundo sobrenatural.

Esta realidade do Povo de Deus encontra na experiência da Família um complemento ainda mais profundo: vínculos afectivos, compromisso mútuo, solidariedade de destinos, onde a paternidade e a maternidade estão ao serviço da vida confiada e a fraternidade define um estilo de vida e de relação respeitoso e afectuoso, co-responsável e solidário.

Este acento familiar colaborativo, complementar e co-responsável entre todos os membros não é apenas conveniente, necessário e urgente; parece ser uma voz de Deus que quer tocar a alma da nossa Família para a tornar mais fecunda.

É verdade que para muitos esta foi a sua experiência em Schoenstatt: é necessário distinguir entre Santiago e as províncias e entre os lugares com Assessoria permanente e outros à distância, porque muitas experiências são de grande responsabilidade e integração laical. No entanto, percebemos que, embora existam vínculos afectivos e a missão comum nos tenha encorajado e tenhamos muitos pontos de comunhão, devemos avançar para um estilo de liderança mais complementar, co-responsável e colaborativo.

O desenvolvimento provocou uma forte presença e protagonismo dos Padres, das Irmãs e das Senhoras, eclipsando muitas vezes a participação e a integração dos leigos, definindo acentos ou tomando decisões unilaterais. Hoje estamos a dar passos na Obra Familiar e na coluna feminina (a coluna masculina adulta desde há mais tempo é coordenada ).

A iniciativa da Comissão para o Ambiente Saudável, que emergiu das comunidades leigas da Presidência Nacional, é um exemplo claro de um fruto colaborativo da conjuntura actual. A Jornada Nacional é outro exemplo da fecundidade do trabalho em conjunto.

Outras vezes são os próprios leigos que repousaram nas Assessorias consagradas sem mais questionamentos ou complementos, ou estimularam a sensação de .

Mas junto com o desafio de um estilo de condução e de animação mais familiar e co-responsável, há também o desafio de nos formarmos para o tornar possível:

crescer num serviço desinteressado à vida e não num protagonismo pendular, trabalhar para o bem comum e não para a minha comunidade particular, reconciliar e curar a história, porque muitas das nossas incapacidades relacionais têm a ver com feridas e desavenças herdadas, reconhecer humildemente que precisamos uns dos outros para respondermos mais adequadamente aos desafios do tempo e à missão que nos foi confiada, para sabermos mais sobre outras iniciativas de integração e colaboração realizadas, para aprendermos com elas (não só dentro de Schoenstatt, mas da Igreja em geral, de outras comunidades em particular e da própria sociedade).

Na vida do Fundador temos não só um caso preclaro de liderança, mas também uma profunda reflexão vivida sobre o que significa conduzir, animar, unir, integrar, curar e dar a vida pela vida que nos foi confiada. O seu exemplo não foi outro senão Jesus, o Bom Pastor. Todos nós precisamos redescobrir esta experiência, não só individualmente, mas também como comunidade, porque no conjunto está o dom e a tarefa de liderança e animação. Neste sentido, todas as nossas iniciativas, acentos e decisões são enriquecidos quando os enfrentamos juntos.

A colaboração, a complementaridade e a co-responsabilidade ameaçam a autonomia e a liberdade individual ou comunitária? Em caso algum, primeiro porque são a consequência necessária de ser Família com um maior grau de maturidade; por outro lado, porque já acentuámos a autonomia (desde iniciativas particulares até aos acentos individuais), o que precisamos é de uma autêntica fraternidade, de uma participação na comunhão para a missão.

Poderíamos perguntar-nos se esta é apenas uma consequência da crise que estamos a viver? Sem dúvida, foi um factor detonante, mas a crise institucional transversal revela algo mais profundo: sem um olhar mais colaborativo, co-responsável e complementar, é impossível assumir desafios globais, sociais, culturais, eclesiais, ambientais e familiares com esperança e decisão, com realismo e assertividade.

Na raiz sobrenatural está um Deus Trino que é família e de um Redentor que procurou reconciliar e curar, integrar e unir, que formou uma comunidade diversificada para assumir o dom de serem portadores da salvação para todos.

Também nos poderíamos perguntar. Como é possível voltar a confiar? Por exemplo, nas nossas comunidades sacerdotais, quando também causámos danos através de abusos e fomos erráticos e até negligentes na nossa conduta. No entanto, o fazer este processo de cura e reparação, com todas as suas consequências canónicas, civis, penais e mediáticas, está a ser o caminho da necessária humildade  para um renovado modo de ser sacerdotes e pastores à maneira de Jesus e do nosso Fundador, a partir das nossas misérias para sermos instrumentos de misericórdia e de comunhão. Mas também, nos desafia a reencontrarmo-nos, co-responsavelmente, a partir da experiência humana de decepção, fraqueza e erro.

3 – Em resumo:

P. Juan Pablo Rovegno

Poderíamos dizer que as nossas estruturas, desde a presidência até às coordenações locais, e todas as formas de organização em Schoenstatt, assim como os espaços pastorais e as iniciativas apostólicas, deveriam corresponder a uma estrutura e a uma forma de participação activa e familiar . A percepção, por um lado, a práxis, por outro, e o desafio que estamos a viver levam-nos a concluir que este espírito de família não se traduziu, necessariamente, em formas de trabalho, de discernimento, de tomada de decisões e de formação colaborativa e co-responsável.

 

Descansámos nos Consagrados que assumiram um papel activo na liderança e animação da Família, a quem agradecemos pela sua dedicação e paixão pelo carisma, mas hoje temos necessidade de trabalhar e enfrentar juntos os desafios de um tempo de mudança. O ser  Família tem de ser levado para a área específica.

Isto faz-se por decreto ou pela via da revolta? Se assim fosse, estaríamos a renunciar à essência do nosso carisma familiar. Deve ser fruto de impulsos vitais que vão permeando tudo.

Voltemos ao ponto de partida: no meio das correntes do Tempo, uma corrente de vida, uma forma de relação, trabalho e missão complementável, colaborativa e co-responsável, que não responde, em primeiro lugar, a uma estratégia ou à urgência do momento para uma maior eficácia, mas está na alma de uma autêntica Família , de uma sociedade mais saudável, mais integrada e integradora, de uma Igreja que precisa redescobrir as suas raízes mais autênticas.

O nosso Pai diz-nos:

“Recordemos que a origem de Schoenstatt é uma fonte, um processo de vida e não, antes de tudo, uma ideia. Tenhamos também em mente a força com que toda a Família é sustentada numa corrente de vida, está atravessada por ela, está enraizada nela. Do qual se pode inferir a seguinte consequência: apenas aqueles que estão integrados num processo fundacional deste tipo e que estão em contacto com esta corrente de vida pertencem à Família com plena validade. Este processo fundacional e corrente de vida incidem no impulso social dos membros, até que a vida de cada membro e de cada Ramo esteja comprometida com eles, até que a vida de cada membro e de cada Ramo esteja interpenetrada por eles e incorporada neles até ao mais profundo núcleo da alma. Não é em vão que costumamos dizer que cada membro autêntico da Família deve actualizar o processo fundacional em todas as suas etapas 1914-1939-1942-1952 e nadar, nadar em solidariedade na respectiva corrente de vida”. (Kentenich, J. Brief vom Juni  (Carta de Junho) 1962. Citada em: Schlosser, H. Neuer Mensch- Neuer Gesellschaftsordnung, pág. 323-324).

O processo parte da vida e o processo que vivemos está a mostrar-nos vida, “para que tenhamos vida e vida em abundância”.

 

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Original: espanhol (29/11/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

 

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