Colocado em 12. Novembro 2015 In Em poucas palavras / P. Joaquín Alliende

Permitam-me falar do meu Schoenstatt, agora. À distancia de 64 anos de conhecer o Santuário com José Kentenich à cabeça

Pe.  Joaquín Alliende Luco, via schvivo.com •

Mais audácia, mais empreender, mais paraquedismo de saltos para o vazio. Menos praiazinha acariciando-nos e mais surf na crista da onda, não para estar lá em cima na crista, mas sim, pela onda santamente impetuosa.

Sinto que, por vezes, alguns de nós, ficamos à beira-mar, molhando os pézinhos e, não nos atiramos à ondulação convulsa do nosso tempo. Mais surf, mais alto, mais perigoso. Não nos deveriam interesar as ondinhas cansadas, manuseadas, adormecidas.

Deitemos para o lixo, de dentro do gavetão da mesa-de-cabeceira, as cápsulas tranquilizantes que nos pôem frouxos. Queimemos as etiquetas decentes, aceitáveis para a maioria burguesa internacional da globalização. Pessoalmente, o que me atraiu do Schoenstatt recém-fundado no Chile, foi a luz humilde e transparente dum jovem bem parecido, com apelido pomposo, estrela irrepetível da inteligência e duma simplicidade franciscana, duma normalidade alucinante, submarina e não exibicionista, pura como a “Abençoada seja a tua pureza”.

Sim, Hernán Alessandri é um grande santo que, se o descobrimos, nos envia em electrochoque, porque ele é uma bomba atómica do Espírito Santo para o nosso “Chenstat”, tal como, muitos latino-americanos o pronunciam. Hernán é um tesouro escondido, até agora. Uma pérola preciosa, pela qual, vale a pena desprendermo-nos de quanta carne balofa carregamos nós, os pecadores, dos quais fala a Avé Maria.

Morram os lugares comuns com os quais fazemos gargarejos e ficamos na mesma! Bem vestidinhos, bem domados e tranquilos. Morram as palavras reiterativas e anémicas! Vivam os torpes que, apesar da sua mediocridade continuam a gritar verdades contra o vento, verdades que os condenam a si mesmos mas, aos quais, não lhes podem fechar a boca, tal como, aos santos! Verdades escandalosas de filhos dum profeta mais em vigor que nunca. Sim, tomemos nota nós, os teólogos especialistas, mas talvez a meia chama. Trata-se dum tal José Kentenich de “Chenstat” (esta pronunciação escorre bem numa garganta mestiça deste lado do Atlântico).

Há pessoas, conheço várias, talvez de couro de elefante mas que, já há um tempinho estão preocupadas com a nossa familia espiritual. Alguns confessam estar escandalizados consigo próprios e com alguns mais. Não se trata de chamar a atenção e de se comportar farisaicamente. Nem sequer a novidade pela novidade. Não. Isso seria um disfarce de pseudo-profeta, açucarado e histérico. É “comme il faut” (que soe bem e que não magoe ninguém) e que, portanto, não ganha a nenhum dos que acreditam que é irrenunciável fazer uma revolução contra este mundo pagão que nos invade. Não, assim não dá. Assim, só conquistaremos gente com capilé nas veias. O Fundador dizia “a mim não me interessam os que acreditam que o problema da Igreja e da sociedade é preparar um estuque novo e pintar bem as ruínas. Não, Jesus touxe uma revolução, eu quero contribuir para um novo edificio da Igreja para o mundo. Não perco tempo com os pormenores exteriores. Não o perco porque tenho muito pouco tempo para cumprir a minha incumbência”.

Pessoalmente, creio que Jesus Cristo é o maior insolente da História, um provocador profissional, não pelo gosto de abalar os burgueses mas, por obediência ao Pai e ao fogo do Espírito Santo: “que posso querer, a não ser que, o meu fogo arda?”

Parece que, às vezes, a palavra “misericórdia” serve para encobrir a nossa tibieza mediocre, a nossa rutina aburguesada, o nosso descaramento entediante, fazendo gargarejos com palavras de fogo santo. Aqui, teriamos de convocar a misericórdia Kentenichiana, tão parecida com a que mobiliza os batimentos do coração do Papa Francisco. Misericórdia porque somos “miserandos”, o que significa “necessitados de misericórdia”, com uma necessidade existencial de sermos perdoados, porque, na verdade, somos miseráveis. Acabemos com um cristianismo de salão, bom para conversas burguesas, com um whisky na mão. Acabemos com essa frasezinha de má nota e adormecedora que se pronuncia assim:” dever-se-ia fazer…” e, sempre pensando e esperando que o outro irá fazê-lo. “Dever-se-ia juntar dinheiro…” e, pensa-se que os Padres de Schoenstatt têm que trazer euros da rica Alemanha. Ou, pensa-se que as Irmãs de Maria e as Senhoras de Schoenstatt têm uma caixa sem fundo ou, que não comem e têm o mesmo singelo jejuar que receberam no Noviciado.

Já basta de palhaçadas. Porque é que noutros Movimentos podem empreender tantas obras grandes? Porque é que, quando editamos livros de Schoenstatt, com um esforço imenso económica e intelectualmente, depois, nos grupos, se fotocopiam para não entregar o pagamento devido à Editora Schoenstatt ou à Editora Patris? Não, todos sabemos que as coisas que custam, custam. A frontal Teresa d’Ávila dizia: “Teresa sózinha não pode nada. Teresa com Deus, pode muito. Teresa com Deus e dinheiro, pode tudo”. Realista a velhota[1] maravilhosa, não é verdade? Há pessoas um pouco estranhas, também no querido Schoenstatt que, acham pouco elegante falar de dinheiro. Claro que, isto se refere quando se trata de financiar Schoenstatt mas, não, para o fim-de-semana e para as férias no estrangeiro.

Parece-me necessário ter carinho por essas pessoas que, até, são toscas no falar…mas que gritam verdades escandalosas, incómodas, tal como, acontece com os filhos de um profeta. Parecido ao que era no Antigo Testamento. Palavras em vigor, de hoje, de amanhã e de depois de amanhã.

Mas, mas, mas…em Schoenstatt não se ouvem muitas propostas criativas inquietantes, dessas que não nos deixam dormir a sesta dominical, nem na noite fria do inverno. Um tal Schoenstatt é útil para uma conversa depois da Missa de Domingo, num jardinzinho encantador e sereno onde as borboletas não incomodam ninguém e enfeitam aprazivelmente a paisagem. Mas, em tais ocasiões, ninguém fica sobressaltado, desafiado e temeroso. Não nos incomoda ouvir a Palavra de Deus, ouvir o sermão do sacerdote Ordenado e receber a bola de fogo que é a Hóstia, carne de Cristo.

Quão fácil é seguir a corrente e a decência como dogma supremo da conducta quotidiana! E, ficarmos tranquilos e pulcros entre PCN[2]. Quase não dá para acreditar que nós, ou, talvez não assim tão poucos, sejamos tão convencionais e elementares, sendo, como somos, filhos do Sr. Kentenich, pai José, tão (não)convencional, tão estranho, não pelo desejo de ser estranho, mas, porque o Espírito Santo o acossava com chamas de futuro para a Igreja e para o Mundo.

Segundo a experiência de alguns, o mais grave na Igreja pré-Conciliar, Conciliar do Vaticano II e pós-Conciliar, cheia de impulsos promissores… é o “conversismo”, doença segundo a qual os assuntos candentes servem para intercâmbios que, apenas, têm como consequência uma mera mudança de roupagem e de linguagem. Assim, nos constituímos em pseudo-reformadores. Não constituímos perigo para ninguém. Nunca nos ameaçariam com o martírio. Antes, seriamos candidatos ao aplauso de alguns que nos parecem “importantes”. O que nos levaria a podermos chegar a ser schoenstatteanos médios e tíbios mas, isso sim, gente decente, sem estridências nem tropeções, porque caminhamos sempre pelo pavimentado e, nunca descobrimos nada de novo e, não afundámos nenhum alicerce na dor humana e, não erguemos nenhum horizonte inédito na santidade, na comunhão, ou no apostolado.

Perguntemo-nos, de vez em quando: somos perigosos para o Demónio e para os seus sequazes? É claro que, não somos devotos do Príncipe das Trevas. Mas, ele odeia Schoenstatt como odeia a Virgem Maria, a Mulher revestida de Sol?[3] Dito com a linguagem do Génesis, sou eu calcanhar d’Ela, Maria? No capítulo 3 do primeiro Livro da Bíblia lê-se, textualmente “e, tu feri-l’A-ás no calcanhar”. Ou seja, que Nossa Senhora tirou a sujidade peçonhenta ao Demónio e, ele arrastando-se e babando-se com as últimas forças, mordeu-A na única coisa que Ela não tinha protegido com a couraça do Deus Vivo: o calcanhar. Portanto, quem não tem um C cicatriz dos dentes do Demónio contra o qual lutamos, aquele que nos dá a dentada, então, quer dizer que somos água morna, ou morninha e vomitada, exactamente aquele que não agrada ao Senhor Jesus “porque não és nem frio nem quente, vomito-te da minha boca”[4].

“Schoenstatt em saída” é o Lema que adoptámos do Papa para o pós-Centenário. Com razão, nos está a ser perguntado: saída de onde e para onde? Levando o quê? Não serve para nada sair da caminha quente para ir passear para a Praça, ou a um desfile de moda, ou para perder tempo estendido, sem transcendência, na areia.

“Schoenstatt em saída”, significa levantar-se desde a angústia que nos deveria produzir o espectáculo de olhar para a Igreja Católica em retrocesso, paralizada pelos escândalos sexuais do Seu Clero e da covardia impávida de tantos e tantas que, acabam sendo cúmplices, sem o quererem, mas que, não se despenteiam na luta que acompanham das tribunas do estádio.

“Filhos da guerra” dizia-nos o Fundador, marcando a nossa vocação mais íntima. É assim porque, não há transação possível entre os filhos de Maria e os do Malvado maldito. O Cristianismo é guerra de morte ou, não é cristianismo. Schoenstatt é filho da guerra, ou, não é Kentenichiano. O aburguesamento de Schoenstatt. As iniciativas dos leigos, acompanhadas por sacerdotes não clericais, proteccionistas, não são um luxo. São uma condição para viver à Kentenich, à Karl Leisner, à Maria Emília, à Senhoras de Schoenstatt que o nazismo martirizou, textualmente, ou à fundadores do Ramo das Famílias, os esposos Kühr, ou Sebastião Bitangwanimana, esse seminarista diocesano mártir do povo burundiano. Basta, já se percebeu.

No acima exposto, parece que, o autor destas linhas seja, pelo menos, cego duma vista, porque não fala das pessoas excelentes que há em Schoenstatt e, que de facto, não são poucas e, são um admirável fruto da Trindade. Existem, mas, às vezes, as árvores não deixam ver o bosque. E, o nosso bosque amarelece, talvez, demasiado. Tem cansaços que são normais mas, aos quais temos que reagir com decisão e eficácia, de alma e de prática, para empreendermos as grandes tarefas pendentes.

Olhemos por exemplo, para os irmãos católicos do Movimento Neocatecumenal. Estão a enviar 10.000 missionários para a China. Com o heroísmo de leigos audaciosos organizam, impulsionam e financiam obras missionárias imensas. O Papa acaba de os elogiar como movimento admirável da Igreja. São gente em expansão. É claro que, o fundador ainda vive e, isso tem a força da dinamite, ou da bomba atómica. Nós estamos no periodo “depois da morte do Fundador”… e, isso, acarreta outras perguntas. Por exemplo: que significa a “fidelidade criadora” para o carismático José Kentenich? Este sacerdote barbudo falou, apenas, para o século que já passou, quando não havia internet nem redes sociais, quando a Igreja Católica não vivia com a ressonância de tantos escándalos?… Quando o pensamento crítico pôs em causa até a maneira de andar, tem o mesmo valor que o pronunciado na primeira metade do século XX? Um tal observador como Kentenich, não está a ficar para trás? A sua linguagem semi-romântica, semi-escolástica…o que é que pode dizer aos jovens de hoje, aos intelectuais de hoje, à Mulher de agora, aos políticos?…

Acrescentemos uma coisa muito importante. A profecía, antes que, a mais ninguém, questiona e condena o profeta. Esta pessoa é um pobre fiel que, tiritando, recebe uma incumbência arrasadora. E, contudo, está pressionado, selado, pelo mandato de “não podemos não pregar”. Tal como, o nosso Pai o lembrou em 31 de Maio de 1949. Dia duma missão esquecida e relegada para categorias quase arqueológicas em não poucos círculos do nosso Schoenstatt Internacional. Sabemos que, nos museus, as relíquias se saúdam com uma inclinação de cabeça, mas não incomodam ninguém, nem na carne, nem nos ossos, nem nas orações, nem na prédica, nem nas conversas íntimas.

Não se trata de nos julgarmos importantes, eleitos para desafiarmos, com insolência, os outros que, são diferentes de nós. Não, não, não. Cada um de nós é um Sr. Ninguém. Mas, todos deveriamos ter sede de Advento, dum nascer de novo de Cristo, em Schoenstatt e, a partir de Schoenstatt. Somos, somente, filhos do profeta renano que, nos convida a rezar pelas manhãs com o “Rumo ao Céu” entre os dedos e a pronunciar.” Através de Schoenstatt se encham de novo as amplas naves da Santa Igreja e o louvor ressoe junto do teu trono…porque de Schoenstatt queres irradiar no mundo as glórias de Maria…faz-nos arder como tochas e caminhar com alegria para os povos (não só a Igreja, rumo aos “povos”, no plural e cada “povo” que é uma comunidade leiga, civil, política muito para além da Igreja)… e conduzi-los jubilosamente à Santíssima Trindade[5]

Ou seja, um estilo de viver o cristianismo marianamente, sem pretensões imaginativas, sem um grama de exibicionismo…mas com uma irradiação de autenticidade e de fidelidade que, convença e contagie e alegre uma Igreja um bocadinho pálida e temerosa, fermento dum mundo novo.

Padre Joaquín Alliende Luco

6 de Novembro de 2015

Junto ao Cenáculo de Bellavista

                                                          

[1] Assim a tratou o Papa Francisco quando lhe mostraram o bastão de Santa Teresa:”Com que então, era com este bastão que caminhava a velhota? E, de seguida, mostrou o singelo bordão parecido com o de um pastor das frias mesetas castelhanas.
[2] Pessoas Como Nós
[3] Apocalipse 12
[4] Apocalipse 3,16
[5] RC 7, 8 e 12 (Foi usada na tradução a versão do Rumo ao Céu de Portugal)

Fonte: schvivo.com – com autorização do Autor e dos Editores de Schoenstatt Vivo

Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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