Colocado em 2. Outubro 2019 In Comunicação, schoenstattianos em rede

A tia Olga, os dois cépticos e um simples trabalhador

COMUNICAÇÃO SEGUINDO O EXEMPLO DE JOSÉ KENTENICH, Maria Fischer •

“Para que contes aos teus filhos e aos teus netos”. A vida se faz história”, extraído do Livro do Êxodo 10,2, será o tema para o próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2020.  O tema do próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2020 também nos recorda que toda a História nasce da vida, do encontro com o outro. Portanto, a comunicação é chamada a colocar a memória em contacto com a vida, mediante a narração da memória”. Para comunicar a força vital do Reino de Deus, Jesus recorreu ao uso de parábolas, deixando aos ouvintes a liberdade de aceitar, ou não, as suas narrações , assim como também de as transmitir, deste modo, a força de uma história é expressa pela capacidade de gerar mudanças. Uma história exemplar tem uma força transformadora… É o que experimentamos quando nos deparamos, através da história, com a vida dos Santos”. Assim, está expresso na explicação. Alguém já o fez há mais de 100 anos e criou um modelo de comunicação narrativa muito antes da invenção da palavra “Storytelling”. É disto que trata este artigo, originalmente, publicado na revista Basis.—

 

MTA 1917

Revista MTA, 1917. Os títulos: Caminhos de graça e Espírito de família

O Professor Dr. Westerbarkey, Reitor da Faculdade de Ciências da Comunicação de Münster, faz três perguntas depois de ler o projecto de trabalho científico de uma estudante, que está às voltas com um monte de revistas amarelecidas do início do século 20. A segunda pergunta causa impacto: O que fez a Igreja com este José Kentenich, que questiona, radicalmente, a comunicação hierárquica descendente da Igreja Católica com este modelo? Ignorá-lo? Silenciá-lo? Enviá-lo para o exílio?

Esta pilha de revistas amarelecidas, diz ele, contém explosivos.

No entanto, o que o Padre José Kentenich fez com a mesma revista MTA de 1916 a 1922 é muito simples. Histórias. Histórias reais, contadas com honestidade e emoção. Vida real.

Histórias reais

MTA 1916

Cópia do primeiro número, Março de 1916

Desde “The Good War”. An Oral History of World War II” (A Boa Guerra. Uma História Oral da Segunda Guerra Mundial), de Studs Terkel, e um novo jornalismo em que ninguém passa ao lado do “Storytelling”, isto já não nos soa tão revolucionário, o que os contemporâneos de Kentenich então consideravam “demasiado psicológico” e a marca inadequada de pessoas intelectualmente superiores. Uma “Imprensa amarela”, um veredicto esmagador, e não só, nesse tempo.

A narração na revista MTA é baseada nas tradições narrativas dos povos e de todas as principais religiões antes do seu processo de escolarização. No entanto, esta tradição narrativa tem sido amplamente esquecida nas igrejas e comunidades cristãs.

“Porque os requisitos básicos destas narrativas (bíblicas) foram questionados pela crítica da religião e da cosmovisão científica e tecnológica, a base da tradição narrativa religiosa entrou em colapso.

Em resposta à ameaça da transmissão da fé, as próprias igrejas recorreram a meios de ilustração. Deixaram de confiar nas suas próprias tradições narrativas, mas nos métodos de ensino. (…) Uma comunidade narrativa tornou-se uma empresa de formação”, escreve o Jesuíta Eckehardt Bieger.

Segundo a convicção e experiência de Kentenich a vida quotidiana nas trincheiras não se pode superar com formação.

“As narrativas das religiões falam de pessoas que experimentam coisas incríveis, que caem em crise, que tomam uma nova direcção, na qual outros valores têm prioridade. – Tudo isto é narrado em relação a um companheiro transcendente do ser humano, que lida com as histórias da vida, que é de suma importância para os heróis das histórias religiosas”, diz Bieger.

Esta é exactamente a leitura da MTA. Nela, os jovens relatam as suas experiências com Deus e com esta novidade, que experimentam com a “capela da congregação” e a renovação do mundo com Schoenstatt.

Em 1915, os primeiros schoenstatteanos foram recrutados para o serviço militar. Até então, todos se tinham reunido num só lugar, realizado encontros e trocas intensas entre si e com o Padre Kentenich.

E agora? O Padre Kentenich escreve inúmeras cartas e encoraja os estudantes que permanecem em Schoenstatt a assumirem a responsabilidade pelo contacto com os “externos”. O que lhes falta é o que as assembleias eram antes. Nada de sermões e conferências; o que estes jovens precisam agora, com as suas convicções e ideais por conta própria, é de partilha mútua. No início de 1916, o Padre Kentenich decidiu publicar a sua própria revista “Mater ter admirabilis”, MTA.

O primeiro número teve uma tiragem de 100 unidades. 100 Exemplares de uma revista dactilografada, litografada, de 8 páginas, cujo primeiro número consiste em temas como “A poderosa ajuda de Maria”, que trata de um encontro de Congregados numa cervejaria em Berlim, meias roubadas, olhos fechados durante a oração da noite, “Serviço à nossa Rainha” e “Tesouros do lugar de graças de Schoenstatt, que devem fluir para todos os campos de batalha”.

Mais de 75% de todas as contribuições para a revista MTA são processos imediatos de vida, experiências. O Padre Kentenich extrai, como escreve em 1919, um tesouro de, aproximadamente, 15.000 cartas. De si próprio, dificilmente há uma contribuição na MTA, e se há, então ela consiste principalmente em excertos de cartas.

Os rapazes são comunicativos – espontâneos, despreocupados, claro.

Ele selecciona, organiza, reúne extractos, de tal forma que, um responde ao outro, complementam-se e, juntos, formam uma imagem completa e redonda, sem harmonizar e alinhar cada contribuição individual.

Apresenta sugestões para discussão e reúne, cuidadosamente, os fios de opiniões divergentes.

Ele encoraja-os através da publicação de processos de vida bem-sucedida. Não é que não haja problemas: a realidade da guerra e as suas próprias fraquezas aparecem brutalmente honestas: mas nenhuma contribuição é encontrada na MTA, que não sugira, basicamente, uma superação da dificuldade. Mesmo quando um dos rapazes, que queria ser padre, se apaixona loucamente pela enfermeira do hospital.

Se uma carta não contém em si mesma um processo de vida bem sucedida, utiliza os meios da compilação dialogante e coloca atrás dela uma carta de outro Congregado que, também por experiência própria, portanto genuína e convincente, responde ao problema apresentado.

Albert Eise, com entusiasmo juvenil, queria demolir a pequena capela depois da guerra e substituí-la por uma igreja digna da grandeza da Mãe do Senhor. E a sua promoção, combinada com a, provavelmente, primeira campanha de angariação de fundos de Schoenstatt, dura mais de um ano…

Nenhuma intervenção, nenhuma paragem, nenhum grito de horror.

Apenas algumas páginas antes ou depois, histórias sobre a visita à capela e saudades do lar depois.

Como a história terminou, é bem conhecido. Com o dinheiro arrecadado, foi feita uma placa comemorativa, que ainda hoje, se encontra na parede direita do Santuário Original, e nos lembra que a vida pode disparar de margem a margem.

A convicção do Kentenich é inabalável: a vida que cresce a partir da semente da Aliança de Amor crescerá bem.

 

MTA Nachdruck 1924

Em torno da mesa

Não se limita à mera narração de histórias. Kentenich abre um espaço de diálogo livre e igualitário. Portanto, as histórias não são para consumo, mas para se tomar uma posição. O que cresce em mim quando eu registo o que cresce em Berlim, em Hagenau, em Vallendar com isto e com aquilo? Kentenich chama a esta inspiração mútua de “em torno da mesa”.

Em torno da mesa: este é o oposto do consumo passivo e da supervisão da comunicação descendente. Pelo menos um, em cada dois artigos da revista MTA, contém um convite para comentar ou uma opinião sobre um artigo anterior, criando um espaço para a troca genuína de opiniões e experiências no sentido do estímulo mútuo e processos democráticos da formação de opinião e da vontade – e isto é crucial – isto também é aceite como tal.

Expansão do horizonte

E não num espaço interior. Mesmo a primeira edição da MTA tem 100 exemplares, embora apenas 50 jovens de Schoenstatt estejam no exército. O resto é para distribuição. E passam-no a outros soldados. E aos irmãos, pais, clérigos, estudantes, trabalhadores da saúde e enfermeiras do hospital.

Em Julho de 1916, um soldado de Schoenstatt escreve ao Padre Kentenich:

“Um teólogo de Hiltrup (Cabo) pede para receber a MTA. Ele também quer outra para um teólogo de Bonn (oficial subalterno)”.

Acontece que estes dois teólogos têm grandes dúvidas e se queixam do “perigo da deterioração mental e espiritual”. E é por isso que ele acaba por conseguir que estes dois estejam atentos à MTA; raciocínio lógico:

“Certamente, isto é tudo: as dúvidas e queixas dos dois teólogos, mais um testemunho da necessidade das nossas aspirações marianas.

Em 14 de Novembro de 1916, um Congregado escreveu: “Meu querido pai, para que esteja mais convencido do bom espírito que anima os meus companheiros de campanha, gostaria de lhe enviar regularmente, de agora em diante, a nossa pequena revista Mater ter Admirabilis. O senhor também pode beneficiar com ela. Para não ter de se preocupar tanto comigo… “- Resposta do pai:” Meu caro Walter. Fiquei muito satisfeito com a tua carta e a tua revista. Uma vez que a tia Olga tem as mesmas dúvidas e preocupações que eu, dei-lhas para que as inspecionasse. Tenho a certeza que ela e o tio também ficarão felizes…”.

25/3/1917, Wilhelm Waldbröl: “Encontrei dois camaradas que desejam inscrever-se no Livro de Maria. Ao mesmo tempo, querem, com um terceiro,receber a revista da MTA.” – 1/5/1917, um destes dois: “Eu sou um simples trabalhador. Mas quando se trata de fazer alguma coisa pela minha Mãe do Céu, gostaria de participar”.

As histórias na MTA fascinavam. Atraíam.

E quem quer que tenha entrado na cosmovisão dos schoenstatteanos, ampliou a sua visão no sentido de uma experiência de revelação. Maria quer agir a partir do Santuário: também “aqui” e quer atrair para Si estes “corações jovens”.

Portanto, Schoenstatt, abre-te a estas realidades.

Deixa que te contem…

 

IStockphoto Getty Images N° 1137596813, We-Ge. Licensed for schoenstatt.org

 

Publicado originalmente em Basis Julho/Agosto de 2019. Com a gentil autorização do editor

Original: alemão (29/9/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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