Colocado em 25. Janeiro 2020 In Artigos de Opinião, Vozes do Tempo

No meio dos desafios da nossa Pátria, da nossa Família e da nossa Igreja: coroar?

Pe. Juan Pablo Rovegno Michell, Direcção Nacional do Movimento, Chile •

Em 18 de Janeiro de 2018, quando o Papa Francisco deixava a nossa Pátria (Chile), a Coroa da Missão foi, súbita e violentamente, roubada do nosso Santuário Nacional, em Bellavista. Foi o prelúdio de um ano marcado pela crise da Igreja, que também nos afectou enquanto Família, por causa das dolorosas situações de abuso. Tivemos que assumir a ferida dos abusos e o desafio de reconhecer e reparar os profundos danos causados na confiança e na vida de muitas pessoas, tivemos que renovar a missão da Igreja, superando toda a pretensão de poder e privilégios. —

 

Este processo levou-nos, enquanto Família de Schoenstatt, a questionarmo-nos sobre o exercício da nossa autoridade, o valor das experiências humanas como expressão, caminho e garantia da experiência de Deus, bem como sobre o nosso caminho de auto-educação e o desafio de uma forma renovada de ser Família: mais colaborativa, co-responsável e complementar.

A coroa não apareceu e daquele espaço vazio acompanhou as nossas reflexões, conversas, confrontos e impulsos, no caminho para a celebração do Jubileu dos 70 anos da nossa Missão, no dia 31 de Maio. Fomos urgentemente desafiados a renovar a cruzada pelo amar, pensar e viver orgânicos, e o tempo exigiu que nos renovássemos numa cruzada por um organismo saudável de vínculos, que se traduzisse numa nova forma de relacionamento, tratamento e trabalho, para enfrentarmos juntos os desafios de um tempo de confronto, mudança e renovação.

Um triplo desafio

A Jornada Nacional de Dirigentes de 2019 foi um marco na forma como foi concebida, desenvolvida e trabalhada. Um novo ar foi respirado como Família. A Cruz da Unidade original era o sinal que simbolizava o espírito da Jornada, tornando-se num verdadeiro sacramento. No final da reunião, cada um dos participantes recebeu uma pequena coroa, que tinha a nossa missão impressa num dos seus rostos: 31 de Maio. O fruto desta Jornada traduziu-se em três desafios:

  1. Um Schoenstatt em saída e ao serviço da Igreja e da sociedade
  2. Auto-educação e o cultivo da interioridade,
  3. Um espírito de família que se traduz em formas de relacionamento, trabalho e colaboração.

No segundo semestre de 2019, quando traduzíamos estes acentos em impulsos, iniciativas e concretizações, a explosão social desafiou-nos a enfrentar o desafio país. Foi-nos apresentado um cenário surpreendente e, ao mesmo tempo, esperançoso, desafiando-nos a construir uma pátria mais justa, fraterna e solidária, um país em paz e dignidade para todos. Ao mesmo tempo, o cenário de violência e intransigência pôs-nos em alerta para o perigo da polarização. A Presidência Nacional expressou o desafio que o país nos apresentou, com as seguintes palavras:

“Nesta hora de esperança, como Movimento de Schoenstatt no Chile, na nossa missão por uma cruzada dos vínculos, que nos levará a uma nova forma de relacionamento e tratamento: digno, justo e fraterno, queremos aceitar o apelo da nossa Igreja e das nossas autoridades, unindo-nos a todos aqueles que estão a trabalhar por um novo pacto social e pelo processo constituinte que começámos. Neste sentido, é fundamental reflectir, informar-se e participar, como expressão de um sentido de colaboração e co-responsabilidade para com o país. Juntamo-nos a todas as iniciativas pela paz, rejeitando todas as formas de violência contra pessoas, bens e a alma nacional nos seus símbolos e espaços sagrados. E colocamo-nos ao serviço do bem comum, para responder, a partir de uma cultura de encontro, ao desafio da justiça social e da participação do nosso povo. Convidamos todas as organizações e pessoas a trabalharem pelo país, a superarem o que nos separa e a pensarem juntos sobre as mudanças que precisamos, para fazer do Chile um pátria familiar e uma casa comum para todos. Confiamos os nossos esforços a Maria Santíssima, que tem acompanhado a nossa história e que percorre a nossa geografia em tantos Santuários e corações. A Jesus, nosso Mestre, pedimos a sabedoria para traduzirmos o Seu Evangelho para o tempo e os desafios presentes”.

A nível de Famílias locais, foram desenvolvidas iniciativas individuais e comunitárias, conversas, encontros e reflexões para compreender, comprometer e colaborar no processo país, confrontando também as nossas opções pastorais e a nossa sensibilidade e compromisso social.

Ao mesmo tempo, o desejo de coroar ou renovar as diferentes coroações da nossa Mãe, foi fortemente despertado, como sinal de confiança na condução de Deus, de impotência perante a complexidade do processo que estamos a viver e a nossa necessária colaboração perante os desafios nacionais. Este desejo foi unido à consagração do país à Virgem Maria pela nossa Igreja nacional.

 

A coroação, um compromisso.

Do seu espaço vazio, a Coroa da Missão tem-nos acompanhado ao longo deste processo eclesial, familiar e nacional. Como fruto deste espírito e de uma consulta e reflexão geral, queremos, como Família Nacional, devolver a Coroa à Mãe de Deus na próxima solenidade de Pentecostes e no dia 31 de Maio. Não é um acto puramente simbólico nem, muito menos, piedoso; quer ser uma expressão do nosso compromisso de enfrentar, actualizar, renovar e viver a nossa missão ao serviço do processo nacional.

Hoje, mais do que nunca, somos desafiados a colaborar numa cruzada para curar tantos vínculos sociais feridos, o que nos permitirá construir uma pátria fraterna e justa, digna e pacífica, uma pátria Família.

Somos gratos à Família de Bellavista e à Família das Irmãs, que cultivaram fielmente este desejo e souberam esperar e respeitar este processo, para que ele germine na alma da Família Nacional.

Um grupo transversal da Família reuniu-se para reflectir sobre esta iniciativa, chegando a formular cinco acentos que expressam o conteúdo deste processo, onde o gesto de coroação será o sinal da nossa colaboração no processo país que estamos a viver, da nossa confiança na condução de Deus e da nossa impotência perante a missão que nos é confiada.

Os cinco pontos são explicitados numa frase que os explica:

Esperança, conversão, compromisso, encontro e família.

Com o nosso Pai-fundador, queremos ser um sinal de esperança na condução de Deus, assumindo o desafio da conversão pessoal, comunitária e social que o tempo presente exige de nós, comprometendo-nos com o processo – país que vivemos e saindo ao encontro dos outros, sendo Família no meio do nosso povo.

 A bênção de uma réplica da coroa que está em construção ocorreu no dia 18 de Janeiro, Dia da Aliança, em Bellavista. Um novo elemento é a estrela que simboliza o país (por causa do contexto que estamos a viver), actualizando o gesto de coroação. Esta estrela também simboliza a Mater: a “Mãe e Educadora do nosso Povo”.

Vamos fazer-vos chegar um tríptico com estes elementos (foto da coroa com a estrela, os cinco pontos) e a oração pela pátria (PK), que nos acompanhará neste processo.

É importante ressaltar que a oferta mais importante que podemos fazer é a nossa colaboração no processo país que estamos a viver.

Em Março, estará pronto um material de apoio que desenvolve estes pontos e que nos pode servir como material de trabalho.

Fazemos este caminho em diálogo com os processos, iniciativas e desafios de cada Família local e coordenação locais, assim como de cada comunidade. Portanto, é necessário que os vejam como uma voz que responde ao tempo e à alma de muitos, mas que é sempre necessário passar pela originalidade e pelo que é próprio de cada lugar e de cada coração. A concretização destes pontos será um desafio para todos e cada um dos membros da Família.

 

Original: espanhol (19/1/2020). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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