Colocado em 28. Junho 2017 In obras de misericórdia, Projetos

Onde calçados, chocolate e abraços são gestos de Deus

PARAGUAI, Maria Fischer •

“Mesmo quando o filho está na cadeia, uma mãe o ama igual. Uma mãe não pede a anulação da justiça humana, porque cada erro exige uma redenção, mas uma mãe não deixa de sofrer por seu filho. Ama-o inclusive quando é pecador. Deus faz o mesmo conosco: somos seus filhos amados!”. Estas são palavras do Papa Francisco na Audiência Geral no dia 14 de junho, que me faz relembrar um dos momentos mais emocionante (e angustioso) da minha vida: aquelas três ou quatro horas na Festa da Anunciação do Senhor que passei na Cadeia de Menores em Itaguá. Participei de um pequeno grupo de verdadeiros pais e mães, que amam estes mais de 200 jovens literalmente até se cansar fisicamente, de tantos abraços, abraços que são uma linguagem mais forte que a linguagem das armas, gritos e roubos…

Equipe da Pastoral Carcerária “Visitação de Maria”.

“Pa’i, zapatillas la bronca”

“Pa’i, zapatillas la bronca”: Sabem o que significa?, o Padre Pedro Kühlcke perguntava aos peregrinos em um domingo na Missa em Tuparendá, para depois pedir para Ismelda, da equipe da Pastoral Carcerária, explicar esta frase no idioma típico dos detentos. Os calçados presenteados no Natal passado já estragaram… ou seja, uma vez mais estavam descalços, machucando os pés. Pediram doações para poder levar aos mais de 200 jovens entre 14 e 18 anos calçados novos. Aqueles simples. A generosidade dos peregrinos de Tuparendá era imensa, e assim levaram para a visita semanal de sábado a tarde não só os chocolates, chipas e bolachas de sempre, mas também várias caixas com calçados. Foram entregues depois da catequese, grupo por grupo. Os jovens fizeram uma fila, chamaram um por um, e antes da entrega, o Padre Pedro e Ismelda explicavam que este calçado era um presente de pessoas que os amavam, e que presentes não são vendidos nem menosprezados, que devem ser bem cuidados para mostrar assim, sua gratidão e respeito com os que tornaram possível que hoje, faltando nove meses para o Natal, cada um recebesse calçados. Com carinho e atenção foram entregues.

“Quanto você calça? ” Javier olhava a Christy com esta única pergunta marcada em seu rosto. Não sabia. Era o primeiro calçado de sua vida. Teria que experimentar. Quando Javier saiu com seu calçado azul nas mãos, como se fosse um tesouro, tivemos que o animar para que realmente usasse. Quando já estávamos quase no final da entrega em seu grupo, Martin voltou: “Não entrou…” Confundiu o número. Sua cara se iluminou ao trocar o calçado pequeno por um par do seu tamanho.

Nestas horas da tarde do dia 25 de março, na sala multiuso da cadeia de menores, com um calor sufocante um pouco antes da forte tormenta, os 220 calçados se transformaram em 220 gestos de carinho parternal de Deus. Daquele Deus que se encarnou, que se fez homem, para nos mostrar que se importa, que nos ama, que nos cuida, que nos leva em suas mãos, ou então, que nos presenteia calçados “para que não tropeces com o teu pé em pedra” (Salmo 91,12) e que os pés do seu santo guardarás (1 Sam 2,9), de seus filhos mais vulneráveis, mais esquecidos, mais maltratados.

 

Nunca na minha vida recebi tantos abraços

Falando de abraços. Nunca na minha vida recebi nem dei tantos abraços tão demorados, tão fortes, tão carinhosos, tão emocionados. “Será que alguém se cansa de tanto abraçar? ” Perguntei ao Pe. Pedro ao sair da cadeia, enquanto estávamos indo até “Esperança”, aquela parte semiaberta onde se encontram os jovens que podem sair. Todos estávamos indo encharcados, com a roupa suja e molhada de suor e das lágrimas dos jovens. “Sim” me respondeu. É cansativo, fisicamente, quando 220 jovens te abraçam e não só uma vez. É o idioma desta pastoral carcerária, idioma que transforma o clima, que muda a maneira como estes jovens se sentem e se comunicam. Buscam o abraço do “Pa’i”, e de todos que vêm com ele para visitá-los. São abraços que simplesmente comunicam o amor de Deus para com eles. No sentido mais literal, Deus precisa de nossos braços, de nossos abraços, para se aproximar deles. Onde falam palavras (por um lado, porque eles só sabem guarani, e por outro, porque você não sabe o que dizer ao ver suas cicatrizes ou escutar suas histórias) e quando não dá para recorrer a teoria, só resta abraçá-los, silenciosamente, e às vezes, simplesmente chorar com eles. Não sei se voltarei a ver algum deles. Espero que não seja neste lugar, pois espero que saiam para não voltar, e mesmo não conhecendo nem lembrando seus nomes, é um adeus de irmãos, que vou levar em minhas orações, todos os dias e para sempre.

Pai Nosso

Todos estes abraços culminaram no final da breve catequese de cada grupo na oração do Pai Nosso e Ave Maria, todos abraçados, como uma grande família, uma grande aliança.

A capela era simples, com a cruz, a imagem da MTA, a Virgem de Guadalupe e Jesus Misericordioso. Um dos jovens penteava carinhosamente o longo cabelo da pequena estátua da Virgem de Caacupé que estava sobre o altar. Assim celebramos a Festa da Anunciação do Senhor no dia 25 de março de 2017. Foi uma celebração digna, verdadeira, linda e inesquecível.

Quero mudar

Com tudo o que aconteceu neste dia, lembrei quando há alguns dias atrás o Padre Pedro me contou uma história real de sua visita ao Centro Educativo de Itaguá (CEO):

“Hoje no CEI, estava escrevendo algumas coisas na minha caderneta. De repente, um menino me toma a caderneta e começa a escrever nela. Pesei que talvez anotava o número da mãe, para lhe pedir algo, alguma coisa assim…

Mas não. O que escreveu foi:

Quero mudar, quero mudar, te prometo, Pa’i Pedro, quero mudar.

 

Quero te ajudar a mudar, Pepito. Com minha oração, com meu capital de graças, com calçados ou um copo de chocolate… Te prometo, Pepito, quero te ajudar.

Quem me ajuda a ajudar a Pepito?

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Banco GNB
Cta Nro. 001-065259-003
Congregación Padres de Schoenstatt

Conta bancária na Europa

Schönstatt-Patres International e. V.
IBAN  DE91 4006 0265 0003 1616 26
BIC/SWIFT GENODEM1DKM
Uso previsto: P. Pedro Kuehlcke, Casa Madre de Tuparenda

Original: espanhol, 23.06.2017. Tradução: Isabel Lombardi, Guarapuava PR, Brasil

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