Colocado em 3. Setembro 2016 In Francisco - Mensagem

Todo o tratamento que não seja misericordioso, por mais justo que pareça, acaba por se converter em maus tratos

FRANCISCO EM ROMA, Maria Fischer com material de AICA

O Papa Francisco enviou uma mensagem em vídeo aos participantes do Jubileu Continental da Misericórdia, uns 15 cardeais, mais de 120 bispos e dirigentes, a todos os níveis, de instituições religiosas e leigas católicas de 22 países da América Latina, das Caraíbas, para além dos Estados Unidos e do Canadá. O Papa congratulou-se pelo facto de terem podido participar neste acto todos os países da América, “ Face a tantas tentativas de fragmentação, de divisão e de confronto entre os nossos povos”.

“Pastores que saibam tratar e não maltratar”, “ o Alzheimer espiritual” ou o facto de sermos “misericordiados”, foram alguns dos termos que utilizou o Papa Francisco na mensagem em vídeo dirigida aos participantes do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, no continente americano que se realizou de 27 a 30 de Agosto. Trata-se de uma das mensagens em vídeo mais extensas que fez o Papa Francisco durante o seu Pontificado e, na qual, insiste em várias ideias sempre relacionadas com a Misericórdia.

Na sua mensagem o Santo Padre pergunta aos participantes do Jubileu do continente americano se, nas nossas catequeses, nos nossos seminários “ensinamos aos nossos seminaristas este modo de tratar com misericórdia?” “É aqui que se põem em jogo a nossa ação missionária e os nossos planos pastorais. É aqui que se põem em jogo as nossas reuniões presbiterais e até o nosso modo de fazer teologia: aprendendo a ter uma atitude misericordiosa, um modo de nos relacionarmos que dia após dia devemos pedir — porque é uma graça — que todos os dias somos convidados a aprender”.

Ao escutarmos a mensagem, não só fica claro o papel de Aparecida no Pontificado de Francisco, tal como o revela, autenticamente, o Pe. Alexandre Awi no seu livro “Ela é a minha mãe” – redigido com base numa longa entrevista com o Santo Padre [2]. Fica cada vez mais claro que o Ano da Misericórdia não é algo isolado, que acaba em Novembro para depois voltarmos ao de sempre. Pelo contrário, é um começo, é o início da transformação da linguagem da Igreja, a partir de uma linguagem de “inclusão/exclusão” para uma linguagem de misericórdia; uma mudança de linguagem que é a ferramenta para uma mudança de sistema. É a mudança que veio trazer Jesus.

Paulo dá-nos uma chave interessante: a atitude misericordiosa. Recorda-nos que esta atitude fez dele um apóstolo, o modo como Deus se aproximou da sua vida: «deu-me a misericórdia». O que o tornou discípulo foi a confiança que Deus pôs nele não obstante os seus muitos pecados. E isto recorda-nos que podemos ter os melhores planos, projetos e teorias ao pensar a nossa realidade, mas se nos faltar esta «atitude misericordiosa» a nossa pastoral permanecerá bloqueada no meio do caminho.

É aqui que se põem em jogo a nossa catequese, os nossos seminários — ensinamos aos nossos seminaristas este modo de tratar com misericórdia? — a nossa organização paroquial e a nossa pastoral. É aqui que se põem em jogo a nossa ação missionária e os nossos planos pastorais. É aqui que se põem em jogo as nossas reuniões presbiterais e até o nosso modo de fazer teologia: aprendendo a ter uma atitude misericordiosa, um modo de nos relacionarmos que dia após dia devemos pedir — porque é uma graça — que todos os dias somos convidados a aprender. Uma atitude misericordiosa entre nós bispos, presbíteros e leigos. Em teoria somos «missionários da misericórdia» e muitas vezes sobressaem mais os «maus tratos» do que os bons tratos. Quantas vezes nos nossos seminários nos esquecemos de promover, acompanhar e estimular uma pedagogia da misericórdia e que o coração da pastoral é a atitude misericordiosa. Pastores que saibam tratar e não maltratar. Peço-vos por favor: pastores que saibam tratar e não maltratar.

Hoje de modo particular somos convidados a praticar uma atitude misericordiosa em relação ao santo Povo fiel de Deus — o qual sabe bem que é misericordioso porque é memorioso — às pessoas que se aproximam das nossas comunidades, com as suas feridas, as suas dores e chagas. E também para com as pessoas que se aproximam das nossas comunidades e caminham feridas ao longo das vias da história, esperando receber este tratamento misericordioso. Aprende-se a misericórdia com a experiência — em nós antes de tudo — como em Paulo: ele mostrou toda a sua misericórdia, toda a sua paciente misericórdia. Aprende-se a misericórdia sentindo que Deus continua a confiar em nós e a convidar-nos para sermos seus missionários, a enviar-nos a fim de tratarmos os nossos irmãos do mesmo modo como Ele nos trata, como nos tratou, e cada um de nós conhece a própria história, pode ir até lá e fazer memória. Aprende-se a misericórdia porque o Pai continua a perdoar-nos. Já existe demasiado sofrimento na vida dos nossos povos para que se acrescentem outros. Aprender a tratar com misericórdia é aprender do Mestre a tornar-nos próximos, sem ter medo dos que foram descartados ou dos que são «manchados» e marcados pelo pecado. Aprender a dar a mão a quem caiu, sem ter medo dos comentários. Cada atitude não misericordiosa, por mais que pareça justa, acaba por se tornar mau trato. A criatividade está em potenciar os caminhos de esperança, os que privilegiam a atitude boa e fazem resplandecer a misericórdia.

Texto integral da mensagem em vídeo

[1] Em Portugal “Maria é minha mãe” http://www.bulhosa.pt/livro/maria-e-minha-mae/

Coordenação da tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal. Tradução das palavras do Santo Padre: vatican.va

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