Colocado em 2016-11-03 In Francisco - Mensagem

Misericórdia é a viagem de ida, a viagem da miséria às minhas mãos

FRANCISCO – ANO DA MISERICÓRDIA •

O Ano Santo da Misericórdia está a chegar ao fim e cresce a intuição de que o tema da misericórdia acaba de começar, ou seja, que este Ano Santo foi um prelúdio, uma espécie de introdução para alguma coisa a que, não pucos, já chamam a refundação da Igreja, fiel à sua origem, numa cultura de misericórdia, pelo Papa Francisco e tantos cristãos, que na linha dos profetas e dos santos, há muito tempo esperam. Colocamos, com santo orgulho, também o Padre Kentenich – que, há precisamente 50 anos, proclamava a Aliança de Amor com Deus Pai Misericordioso – nesta linha dos profetas de uma refundação em “misericórdia em saída”.

Recentemente, o Papa Francisco descreveu a misericórdia como uma viagem da miséria às minhas mãos, uma viagem que implica os olhos, o coração e as mãos. Ou seja, misericórdia como um processo que é orgânico e tem o poder de nos fazer viver mais organicamente.

Neste processo, que mostra a miséria de uma família a viver debaixo de quatro paus e um plástico, que mostra o idoso que está a morrer no chão do hall de um banco na Alemanha, que mostra estes jovens que nunca experimentaram família e que roubam motos para não morrerem de fome nas ruas do Paraguai, que mostra os refugiados nos barcos no mar, que vê este casal divorciado e recasado, com o anseio de ser parte da comunidade eclesial…mas não acaba aqui, não acaba só no conhecimento. Mas que, é preciso deixar chegar o que se viu, o conhecimento, ao coração, sentir a dor, fazer passar a dor, a miséria alheia, pelo meu coração…Também não acaba aqui, no sentimento, a compaixão, o chorar com os pobres. Mas que passa pelo fazer, pelo compromisso, pelo agir – às mãos, diz Francisco. Ou seja: a misericórdia é um processo que implica a razão, os sentimentos e o agir. O Homem pleno. Misericórdia é a coisa mais orgânica que nos pode acontecer. Também por isso, Francisco e Kentenich se encontram, profundamente, na misericórdia.

Reunidos em Santa Fé, Argentina, por ocasião do 14º Encontro Nacional “Mãos Abertas”, esta associação de voluntários de origem cristã, recebeu uma mensagem em vídeo, do Papa Francisco, na qual, partindo do nome, Mãos Abertas, o Papa explica o processo orgânico que é a misericórdia.

Mensagem do Papa por ocasião do 14º Encontro Nacional de “Mãos Abertas”

Queridos amigos e amigas de «Manos Abiertas»!

Estais reunidos neste Encontro Nacional que tem como tema: «Misericórdia, uma viagem do coração às mãos». Tomemos dois textos do Evangelho: quando o bom samaritano encontrou aquele homem ao longo do caminho, diz o Evangelho que sentiu compaixão no coração, depois desceu do cavalo, tocou-o, curou-o; a compaixão do coração levou-o a fazer um trabalho com as suas mãos. Outro episódio do Evangelho fala-nos de Jesus, às portas da cidade de Naim, que viu sair o cortejo fúnebre do jovem filho de uma mãe viúva, e a mãe atrás; e sentiu compaixão por aquela mãe sozinha, aproximou-se e disse-lhe: «Não chores»; e as suas mãos começaram a agir, depois tocou-lhe os lábios e disse: «jovem, levanta-te!». Uma viagem do coração às mãos. Jesus é assim, é assim que nos ensina o Evangelho; a fazer, mas partindo do coração.

O coração, quer o do bom samaritano quer o de Jesus, foi tocado pela miséria: a miséria que viu ali; a miséria daquela mãe viúva que Jesus viu, aquela miséria da dor, e a miséria daquele percurso que o samaritano viu. O coração une-se à miséria do outro e isto é misericórdia. Quando a miséria do outro entra no meu coração sinto misericórdia, que não é como ter piedade, a piedade é outro sentimento. Posso sentir piedade diante de um animal ferido ou de uma situação, mas a misericórdia é outro sentimento, é quando a miséria do outro, ou uma situação de sofrimento, ou de miséria, entrou no meu coração. Diria: é a viagem de ida, a viagem da miséria ao coração. Eis o caminho: não há misericórdia se não começar pelo coração, um coração ferido pela miséria do outro, por uma situação dolorosa do outro, um coração que se deixa ferir.

É diferente ter bons sentimentos, isto não é misericórdia, são bons sentimentos. É diverso fazer filantropia com as mãos, isto não é misericórdia, é bom, é bom, não é mau fazer filantropia, mas não é misericórdia, é outra coisa. Misericórdia é aquela viagem de ida da misericórdia ao meu coração, que toca o meu coração e que, por vezes, o toca de tal modo que o faz tornar-se uma bússola no Pólo Norte, não sabe onde se encontra por aquilo que está a sentir.

É claro que algum de vós me pode perguntar: Padre, como se pode sentir misericórdia e não piedade? Pois bem, primeiro é preciso pedir a graça de sentir misericórdia, é uma graça, e tendes que a pedir ao Senhor. Mas o único caminho para sentir misericórdia é através do próprio pecado reconhecido por quem o pratica e perdoado pelo Senhor, através do pecado reconhecido e perdoado. Só podemos ser misericordiosos se nos sentirmos realmente misericordiados pelo Senhor, de outra maneira, não se pode ser misericordiosos. Se sentires que o teu pecado está assumido, perdoado, esquecido por Deus, estás misericordiado, e depois de teres sido misericordiado, poderás ser misericordioso, Se a misericórdia não parte do teu coração, não é misericórdia.

E aqui inicia a viagem de regresso. Se a viagem de ida foi deixar-me ferir o coração pela miséria dos outros, a viagem constante no meu coração é reconhecer o meu pecado, a minha miséria, a minha baixeza e sentir-me perdoado emisericordiado pelo Senhor; começa agora a viagem de regresso, do coração às mãos. E assim o caminho vai da minha miséria amada por Deus ao amor da miséria do outro; da minha miséria amada no meu coração à expressão com as minhas mãos, e isto é misericórdia. Misericórdia é uma viagem do coração às mãos. O que faço, abro as mãos ou o meu coração? Ambas as coisas. Deixa-te ferir o coração pela miséria, pela dos outros e pela tua; deixa-te misericordiar e empreende a viagem de regresso, e com as tuas mãos faz misericórdia aos outros prodigalizando misericórdia e amor. Que Deus vos abençoe e vos faça viver um encontro fecundo, proveitoso para toda a comunidade de «Manos Abiertas». E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim.

Coordenação da Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal. Tradução das palavras do Santo Padre: vatican.va

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