Colocado em 18. Agosto 2019 In Carta da juventude - diálogo em aliança

Respostas à Carta da Juventude: ”Uma Família com muros” – ou diálogo na Aliança

CHILE, Fernando Besser Mahuzier •

Vários meses depois de ser publicada a “Carta da Juventude” ,escrita pelos jovens da Juventude de Schoenstatt do Chile, Fernando Besser Mahuzier, da União das Famílias, abordou schoenstatt.org para oferecer uma carta por ele escrita em 17 de Dezembro de 2018, em resposta aos jovens. Com gosto a publicamos aqui. Que seja a primeira de muitas outras respostas às questões da Carta ou às questões que surgem depois de a ler. —

A preocupação de Fernando Besser surgiu porque “Muitas pessoas da União que conheciam a Carta escreveram para me agradecer por tê-lo feito. Estavam preocupados por não ouvir ecos de um documento tão forte e sólido, com tanto carinho e tanta esperança.  Sentiam e eu sinto que é muito importante continuar a fazê-lo porque este é um tempo urgente para Schoenstatt para conversar e chegar a um acordo; para nos ouvirmos e perguntarmos até compreendermos, para nos conduzir à empatia e à misericórdia, para fazermos alguma coisa partindo das nossas possibilidades e convidarmos outros a fazer o mesmo; tudo segundo o que o nosso Padre Hernán Alessandri nos ensinou”.

Fernando Besser Mahuzier é schoenstatteano desde 1968, de Montahue (Concepción, Chile). Tem 65 anos e é Engenheiro Civil Mecânico Industrial, casado com Inge Spichiger, participam na União Apostólica das Famílias, Região Imaculada, Território Chile e Bolívia. Têm 3 filhas, as 3 Marias, nascidas entre 1980 e 1984. No apostolado, gostam de trabalhar com os jovens, especialmente acompanhando-os na preparação para o casamento: “É fresco, novo, cintilante; encontra-se a força inata, instintiva, emocional, afectiva e intuitiva do amor expressado. Hoje quase todos vivem juntos e procuram consolidar e abençoar a sua união e a sua família; é muito interessante e novo”.

 

Uma carta de resposta

Santiago, 17 de Dezembro de 2018

 

Querida Juventude de Schoenstatt:

Feliz e grato, escrevo-vos em resposta à vossa carta de 12 de Setembro de 2018. A vossa carta está muito meditada e é o produto de um longo trabalho onde cada palavra é sopesada para adquirir o tom preciso. Parabéns aos redactores e revisores, certamente foi uma grande experiência de consenso para provar que, muito trabalho é necessário para construir e fazer Schoenstatt.

Achei especialmente interessante e coincidente a “denúncia” que fazem sob o título de “uma Família com muros“, onde indicam “…para evitar problemas, tensões e situações complexas, erguemos muros ou espaços separados, para não interferir (ou mesmo pronunciarmo-nos) nas questões uns dos outros”; e culminam com “Fazemos um convite para pôr de lado soluções a meio gaz, para que haja um diálogo eficaz, sincero, que cure e comprometido

 

É hora do diálogo real, do diálogo em Aliança

Em Schoenstatt precisamos conversar, dialogar e criar todos os espaços possíveis para nos encontrarmos, de todas as formas possíveis.

  1. Aqueles de nós que constituem família sabem que não bastam as boas intenções , é preciso investir tempo para dialogar em casal, para dialogar com os filhos, para dialogar em Schoenstatt. Os Santuários são uma promessa para avançar nisto, na medida em que vamos para estar, para rezar, para acompanhar os outros que estão ali. Há muito trabalho pastoral a ser desenvolvido e inventado, para que aqueles que vão saudar a Mãe de Deus, voltem e se sintam acolhidos… então, a Mater os fará apaixonar-se por Ela e cumprirá a sua tarefa.
  2. Não só tempo, mas também espaços, ritos e novos costumes; actividades significativas que nos entretenham e nos tragam felicidade. Sair e ir às periferias de Schoenstatt pelo menos … uma vez por ano, por semestre, por trimestre? Para nós e para muita gente das Uniões, as Missões Familiares foram uma experiência inesquecível neste sentido.
  3. Além disso, WhatsApp, Web, e.mail, Facebook, Twitter, LinkedIn e muitos outros espaços de ambiente e comunicação que nos ajudem a rezar uns pelos outros, a estar interessados e a perguntar, a compreender e a  comover-se, a estar envolvidos e a ter misericórdia e a passar à acção dentro das próprias possibilidades (“Eu vou fazê-lo”), pedindo a outros que façam o mesmo[1] Penso que, neste caso, Schoenstatt deve fazer um grande esforço para criar ambiente e desenvolver um plano de comunicações que permita a conversa. Hoje temos muito na Internet, mas para a grande maioria é só  num sentido e isso informa mas não envolve, não nos permite falar sobre o que precisamos.
[1] O método do nosso Pe. Hernán Alessandri era: i) Escutar e perguntar até compreender; ii) Ser misericordioso; iii) Fazer alguma coisa a partir das possibilidades de cada um; e iv) Convidar outros a fazer o mesmo.

 

iStock Getty Images, cherezoff, licensed for schoenstatt.org

 

A Unidade que não massifica (R ao C 496)

O assunto dos muros é muito importante. Vocês constatam-no a partir da observação[1], a partir do que se teceu na história e que resultou graças à boa vontade de todos os que participaram. Temos de continuar com a comparação[2] para chegarmos a uma síntese[3] do que é importante e para chegarmos a uma proposta concreta ou aplicação[4]  concreta de princípios para se melhorar este aspecto. A comparação óbvia é aquela que vocês propõem: a Família “… cujos caminhos se  cruzam muitas vezes com tensões e até lutas acaloradas, mas cujo objectivo é sempre trabalhar a abertura do coração, o acolhimento, o diálogo, a escuta e a compreensão. Nós somos Família! Seria estranho não discutirmos ou termos fricções como qualquer família natural”.

Estão a falar da unidade de Schoenstatt que não é uma quimera. Este tema é central para Schoenstatt; trata-se da federatividade de Schoenstatt, que é a nossa proposta à Igreja. A federatividade procura a liberdade de cada fundação, não como um ignorar das outras comunidades, mas como o exercício pleno e original de cada Ideal, da liberdade de cada um em assumir o seu, seja o seu próprio Ideal Pessoal, o Ideal do seu curso, da sua comunidade, ou o de todo o Schoenstatt.

Vale a pena lembrar que – para Schoenstatt – a vida não é uma contradição (isto “ou” aquilo, um ideal ou o outro), mas sim tensões (o Pai fala de um mundo construído não a partir de contradições absolutas, mas a partir de tensões). As tensões são contradições parciais e relativas sob um aspecto. {Pe. Hernán Alessandri, Jornada de Montahue}).

É urgente que todos nós aprendamos a conversar, a dialogar. A descrição que fazem é real e, tal como a vida, é uma descrição dramática. O diálogo aprende-se, pelo menos é o que ensinamos nos cursos para noivos. E segundo a nossa experiência, isto não é automático. Se alguém se propuser, é possível. Mas se não o fizer num espaço/tempo específico, são palavras superficiais que dão poucos pontos de contacto para informar sobre a minha vida, sobre o que acredito, o que penso, o que sinto e o que faço. E há poucas oportunidades para ajudar o tu, alegre e altruisticamente. Por um lado, está a disciplina com base na vontade, por outro, está a urgência com base na responsabilidade… Mas quem sou eu para dizer ao outro o que vejo, o que sinto, o que penso, a minha visão do que Deus está a gritar? Como posso garantir que o outro não se sinta ofendido, desconfortável ou questionado? Precisamos, urgentemente, de lições particulares. Que a Jornada de Dirigentes nos ensine a fazer isto. Devemos também reconhecê-lo como uma ferida que temos, e pedir à Mãe de Deus que realize, através das nossas feridas, os milagres de que necessitamos. A coroa é uma boa aposta para a Parusia.

A era cultural é ambiental, de colaboração e digital

A era cultural mudou. Agora é ambiental, de colaboração e digital. Isto mudou radicalmente muitos critérios que, somados à questão das redes sociais que pressionam os meios de comunicação social por notícias (verdadeiras e falsas, dramáticas e sensacionalistas), nos faz ter um julgamento muito mais severo e menos tolerante, na medida em que, em todos os casos, a sentença é eterna, até a morte, não há perdão ou cumprimento da pena que termina e perdoa.

A dimensão do pecado foi particularmente perturbada e hoje parece que se trata de uma dupla exigência: “ser santo ou ser delinquente”, o que não é normal nem saudável. Os factos são julgados; as intenções podem ser agravantes ou atenuantes. A pós-verdade ocorre quando os factos são ignorados e julgados pelas intenções, que às vezes são falsas.

Muitos jornalistas, autênticos fariseus com vestes brancas, acusam discretamente os outros de terem regras estranhas às suas vidas e à sua vida. Acusam-nos, incriminam-nos, condenam-nos e abandonam-nos, sem qualquer restrição ou limite. Refiro-me a meios sensacionalistas como a CNN, entre outros.

Precisamos de humanizar e julgar com muito mais cuidado; não nos pode acontecer novamente que tratemos os crimes como simples delitos, mas também não pode continuar a acontecer que os delitos simples sejam julgados como crimes, ou que as deduções permitam gerar intenções que sejam qualificadas como crimes de encobrimento.

Liberdade, realidade, justiça

As outras questões referidas parecem-me igualmente de extrema importância e valor. Na pedagogia dos ideais é fundamental para o aprendiz que os ideais sejam assimiláveis, e vocês dizem que eles se escapam e às vezes são formulados “a partir de abstrações sobrenaturais, filosóficas ou metafísicas”.

Certamente, o Padre Kentenich seria muito realista e prático; ele proporia a sua máxima da ordem do ser para ver a ordem de agir e encorajaria o cultivo máximo do espírito, do valor desse Ideal, confiando na liberdade de cada um de não fazer nem um pouco mais do que pode e de aspirar ao que quiser.

A nossa pedagogia da santidade, que cada um de nós seja – plena e totalmente ele próprio realizando, em plenitude, o seu Ideal Pessoal – é brilhante e proclama a liberdade, a individualidade que só se realiza na solidariedade; aqui não há lugar para os moldes. Eu gosto que falem do tema das realidades sexuais, um motor que, hoje, está sempre presente.

O nosso Pai é o mestre da liberdade e da justiça, e estes temas do sexo não são, nem podem ser tabu, são temas que necessitam de modéstia, respeito e essa força juvenil capaz de complementar a paixão e a pureza, não só no despertar sexual, mas por muitos anos.

A Central de Assessores precisa de uma actualização séria, e nisso está a difícil tarefa do tempo apostólico.

Os Santuários precisam de uma pastoral moderna e atraente, incluindo a Web virtual e as redes sociais. A vida destes lugares deve dar prioridade e incendiar mais vida, é necessário soprar nas brasas para que se acendam novos fogos a partir do que temos. Schoenstatt é um Movimento extraordinariamente feminino, como nenhum outro.É profundamente mariano, e mais do que isso, é profundamente feminino. É por isso que Schoenstatt deve partilhar sua experiência de se ser igual em dignidade e diferente no modo; somos muito mais femininos do que achamos. Não aspiramos a nenhuma igualdade, aspiramos a ser iguais em dignidade e diferentes no modo.O nosso modelo, o de Maria, é o do Homem Novo, de um ser extraordinariamente completo e digno. Hoje, onde felizmente emergem os direitos das crianças e os direitos das mulheres, somos urgidos a partilhar a nossa visão, que é extraordinariamente nova e saudável, muito para além da média da sociedade.Para terminar, felicito-vos pelo vosso valioso e importante trabalho. É importante lembrar que tudo vem do que temos, e dali floresce. Muitas vezes perdemos muito tempo a procurar novas sementes, do Oriente e do Ocidente, em vez de percebermos a semente que somos e as sementes que temos.Quando percebemos e nos esforçamos para sermos nós  próprios, então ficamos maravilhados com o diamante que Deus criou. O mesmo acontece com os nossos Santuários e com todo o nosso Schoenstatt. Se permitirmos que a Mãe de Deus nos acolha (a partir das nossas próprias feridas), Ela nos transformará e nos enviará, porque Ela é a grande Missionária e fará grandes milagres. Assim, temos que reconstruir Schoenstatt a partir das suas próprias raízes, dos seus próprios sucessos, das suas próprias glórias… que são muitas.

Abraços

Fernando Besser Mahuzier

União Apostólica das Famílias

[1] Beobachten
[2] Vergleichen
[3] Straffen
[4] Anwenden

Original: espanhol (9/8/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

Carta da Juventude do Chile: Dizer as coisas e ser a renovação que Schoenstatt necessita

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