Colocado em 10. Novembro 2019 In Artigos de Opinião, Vozes do Tempo

A violência no Chile

CHILE, Patricio Young •

Estamos consternados com a situação de violência produzida no nosso país com o incêndio de estações de metro, municípios e outras instâncias públicas, bem como a pilhagem e incêndio de supermercados, centros comerciais e pequenas lojas. —

Alguns explicam que esta é uma manifestação de raiva, outros que é própria da lumpen (classe desprezível de sub-proletariado NT) e outros de uma acção organizada de anarquistas e anti-sistemas. A pilhagem é uma expressão da lumpen (O termo, que pode ser traduzido, ao pé da letra, como “homem trapo”, foi introduzido por Karl Marx e Friedrich Engels em A Ideologia Alemã 1845 NT), como se observou nas detenções posteriores, com pessoas comuns e correntes que, na gíria chilena “foram ressuscitadas”. (NR: eram demasiado espertos, aproveitaram-se).

Agora, houve violações de direitos humanos e actos muito violentos com agentes da polícia.

Mas vamos mais fundo. Esta violência manifesta é também o resultado da violência institucional, representada na grande desigualdade social. É verdade que o país cresceu e as taxas de pobreza caíram consideravelmente, atingindo 8,6% da população em 2018. Mas a desigualdade está a aumentar. A CEPAL indica que, em 2017, 1% possuía 26,5% da riqueza, enquanto 50% das famílias de menores rendimentos tinham 2,1%, e 10% concentravam 66,5% da riqueza do país, onde se encontra a maioria dos schoenstatteanos. Esta violência é expressa em cuidados de saúde precários, na educação, em pensões paupérrimas. Além disso, um Estado que há anos responde aos conflitos sociais apenas depois de barricadas e incêndios de pneus e pouco ou nada através do diálogo. Em suma, vivíamos numa sociedade violenta, que, deste modo, não era viável.

Deixámo-los sozinhos durante anos.

Fernando Chomali, Arcebispo da Diocese de Concepción, referindo-se à violência dos saqueadores, disse: “Aqueles que saquearam os supermercados hoje fazem parte da nossa sociedade: estudaram nas escolas e colégios e, alguns deles, muito endividados, nas universidades que as políticas públicas geraram. Provavelmente, os seus avós (em muitos casos, o pilar das suas famílias) têm estado à espera de uma operação há anos e muitos morreram entretanto. Os nossos saqueadores sentem que não devem nada ao Chile a não ser sofrimento e humilhação. Deixámo-los sozinhos durante anos. Isto deve envergonhar-nos”.

Noutro parágrafo do documento, somos duramente interpelados: “Não sejamos hipócritas, nós gerámos os saqueadores, eles são dos nossos, e levará muito tempo para se reverter a situação. Assumir a própria culpa na esfera que nos corresponde, pedir perdão e reparar o mal causado é a primeira coisa, assim como voltar a falar de virtude, austeridade e simplicidade”.

Em suma, ninguém pode olhar para o outro lado, muito menos nós, schoenstatteanos. Todos nós, por acção ou omissão, fomos responsáveis por esta situação.

Tudo isto pode explicar a raiva e a violência, mas em nenhum caso a justifica.

Sabemos que a violência é uma espiral que não gera situações melhores do que aquelas que procura resolver. No entanto, se queremos acabar com a violência, temos de ultrapassar as realidades e as estruturas sociais que a geram. “Infelizmente, no nosso tempo, tão rico em tantas conquistas e esperanças, não faltam poderes e forças que acabam por produzir uma cultura do descarte; e isto tende a tornar-se uma mentalidade comum. As vítimas de tal cultura são precisamente os seres humanos mais fracos e mais frágeis – os “nascituros”, os mais pobres, os idosos doentes, os gravemente incapacitados… – que correm o risco de serem “descartados”, expulsos por uma engrenagem que deve ser eficiente a todo custo (Papa Francisco, 7/12/2013).

Pela mesma razão, se esta violência é estrutural, então é necessário rever o modelo e, em particular, a Constituição que a sustenta. Por exemplo, há aspectos que afectam a participação social, que não permite a existência de um plebiscito, a subsidiaridade do Estado que lhe permite fazer apenas o que o sector privado não pode, o sistema presidencialista que para muitos deve ser mudado para semi-presidencialista

Participar com a esperança de crescer

Mas esta crise é muito esperançosa porque é característica do crescimento. Porque o país tem mais riqueza, deve saber como distribuí-la melhor. Para este fim, há muitos que querem que seja estabelecido um “Estado-Providência” que garanta a todos um nível mínimo de qualidade na saúde, educação e pensões.

No país surgiram Conselhos, espontaneamente auto-convocados, para fazerem o levantamento das necessidades e propostas dos cidadãos. Hoje, com o consentimento do governo. Neles devemos todos participar e estar presentes. Caso contrário, amanhã não teremos o direito de reclamar se algo não nos parecer bem.

Não quero desigualdades entre os meus filhos

Tudo isto aconteceu a 18 de Outubro, que clara deucidência. Deus e a nossa Mater falam-nos, claramente, na voz de milhões de chilenos. Não quero esta grande desigualdade entre os meus filhos! Aqui está a nossa tarefa hoje, ajudar a criar condições para uma maior justiça social.

“Que cada um olhe dentro da própria consciência e escute a palavra que diz: sai dos teus interesses que atrofiam o teu coração, supera a indiferença para com o outro que torna o teu coração insensível, vence as tuas razões de morte e abre-te ao diálogo, à reconciliação…”(Papa Francisco, Vigília de oração pela paz, 7/9/2013)

 “Não é o confronto que oferece perspectivas de esperança para a resolução dos problemas mas, a capacidade de encontro e de diálogo” (Papa Francisco, 25/8/2013).

A paz é fruto da justiça e do diálogo

Foto: iStock Getty Images, ID 1065178846, Hydromet

Original: espanhol (8/11/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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