Colocado em 2016-01-15 In Artigos de Opinião

Maternidade de Maria: um novo começo

Pe. Oscar Saldivar, Homilia na Festa de Santa Maria, Mãe de Deus – Solenidade, 1 de Janeiro de 2016 •

Queridos irmãos e irmãs

Ao iniciarmos este novo ano, a Liturgia da nossa fé propõe-nos celebrar a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Ao fazê-lo, coloca perante os nossos olhos a maternidade divina de Maria; isto é, recorda-nos que confessamos Jesus Cristo como “verdadeiro Deus e verdadeiro homem” [1] e, portanto, reconhecemos a Santíssima Virgem, Sua mãe, como “Mãe de Deus” [2].

Com esta celebração termina a Oitava do Natal do Senhor, os oito dias que, liturgicamente, se celebram como um só dia “o dia santo em que a Virgem Maria deu à luz o Salvador do Mundo”. [3]

O contexto litúrgico desta Solenidade mostra-nos a relação que há entre o dogma da Encarnação do Filho de Deus e o dogma da Maternidade Divina de Maria (Concílio de Éfeso, ano 431): o Verbo de Deus, o Filho Unigénito do Pai, realmente Se fez carne (cf. Jo 1,14), fez-Se homem e, de tal forma que, Maria é realmente Mãe de Deus, “não porque o Verbo de Deus tenha recebido d’Ela a Sua natureza divina mas, porque é d’Ela que tem o corpo sagrado dotado duma alma racional, unido à Pessoa do Verbo, [é d’Ela] de quem se diz que o Verbo nasceu segundo a carne”. [4]

Sim, a maternidade de Maria no que se refere ao Filho de Deus é verdadeira e, se a Sua maternidade é verdadeira, a humanidade do Filho de Deus é verdadeira. O Filho não parece ser humano; em Jesus, o Filho de Deus é verdadeiramente humano. Ele partilha connosco, a nossa natureza humana, a nossa realidade. Ele partilha connosco, as nossas alegrias e tristezas, os nossos cansaços e limites. Ele fez-Se “em tudo semelhante a nós, excepto no pecado” (Hb 4,15); Ele partilha connosco as nossas esperanças e, deste modo, nos salva. Ele “nasceu duma mulher e sujeito à Lei, para redimir os que estavam submetidos à Lei e fazer-nos filhos adoptivos” (Gal 4, 4-5).

Um novo começo

A maternidade divina de Maria é a razão pela qual Ela tem um lugar privilegiado na História da Salvação.

A Sua presença no Novo Testamento dá testemunho de que, desde o princípio Ela foi reconhecida como mãe de Jesus: Isabel saúda-A perguntando-se “Quem sou eu para que venha a mim a mãe do meu Senhor?” (Lc 1, 43); quando os pastores foram ver o que o Anjo lhes tinha anunciado, “encontraram Maria, José e o Menino deitado no presépio” ((Lc 2,16); também os Magos do Oriente que seguiram a estrela, “ao entrarem na casa, encontraram o Menino com Maria, Sua mãe” (Mt 2,11).

Ao longo do ministério de Jesus vê-se esta relação especial e íntima entre mãe e filho (cf Jo 2, 1-12), relação que chega ao seu apogeu ao pé da Cruz de Jesus, junto à qual “estava a Sua mãe” (Jo 19,25).

Desta relação materno-filial, do reconhecimento da maternidade divina de Maria, saem todos os outros dogmas marianos. A Virgindade perene, a Imaculada Conceição e a Assunção aos Céus em corpo e alma. Trata-se da íntima relação entre Cristo e Maria.

Mas, trata-se, também, da íntima relação entre Maria e a Igreja. E, com esta Solenidade põe-se de manifesto esta relação. A maternidade divina de Maria é o “começo novo e absoluto em carne e em espírito” [5]. O começo novo da humanidade porque com Jesus Cristo, nascido de Maria, começa novamente a humanidade, começa a salvação.

Sim, para toda a humanidade e para toda a Igreja, a maternidade divina de Maria é sinal dum novo início “em carne e em espírito”, isto é, na totalidade do humano. A salvação que se realiza pela Encarnação do Filho de Deus, em Maria, é um começo novo que abarca todas as dimensões da vida humana. E, ao recordarmos esta maternidade, ao recordarmos o nascimento de Jesus em Belém, lembramos que podemos, sempre, começar de novo. “Com Jesus Cristo sempre nasce e renasce a alegria”. [6]

Que bem nos faz, ao iniciarmos um novo ano, consciencializarmo-nos de que, com Jesus e com Maria, ocorre um começo novo! Que com eles, cada um de nós, pode, sempre, começar de novo. Podemos, sempre, deixarmo-nos salvar pelo Senhor.

“O Senhor te conceda a paz”

E, neste novo ano, neste novo início que, nos oferece a Salvação em Cristo, sempre disponível para nós, com a Sua misericórdia, a Sagrada Escritura oferece-nos a bênção do Senhor sobre o Seu povo:

“Que o Senhor te abençoe e te proteja. Que o Senhor faça brilhar sobre ti a Sua face e te mostre a Sua graça. Que o Senhor te mostre o Seu rosto e te conceda a paz” (Nm 6, 24-26).

Invoquemos o Senhor para que Ele nos abençoe. A isso nos convida a Sagrada Escritura: “invoquem o meu nome sobre os israelitas e, Eu os abençoarei” (Nm 6, 27). Sim, quando nós, os sacerdotes, invocamos o nome de Deus sobre o povo; quando os padres invocam o nome de Deus sobre os Seus filhos, Ele abençoa o fruto das Suas entranhas; quando invocamos com fé o nome de Deus sobre as pessoas que amamos, Ele abençoa os que se confiam à nossa oração.

Ao iniciarmos este novo ano, com os seus desafios e esperanças, invoquemos sobre este novo tempo o nome de Deus para que Ele abençoe o caminhar que, hoje, iniciamos como pessoas, como famílias, como país e como Igreja.

Mas, invocar o nome do Senhor para que Ele nos conceda a paz é, também, trabalhar pela paz. Por isso, hoje, também invocamos o nome do Senhor sobre os nossos irmãos lesados pelas inundações e, comprometemo-nos, também, a sermos solidários com eles. A paz de Deus é um dom do alto, mas, também, uma tarefa quotidiana para o Homem sobre a Terra. [7]

Nesse sentido, a paz que Deus deseja conceder-nos neste novo início é a paz que, se consegue, vencendo a indiferença, o egoísmo e o comodismo que não se compromete com os outros.

A Maria, Mãe de Deus e Mãe da paz, dirige-se a nossa súplica ao iniciarmos um novo ano, um novo tempo, um novo começo:

“ À vossa proteção recorremos, santa Mãe de Deus.

Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades,

mas livrai-nos sempre de todos os perigos

ó Virgem gloriosa e bendita.” Amén

 

[1] Catecismo da Igreja Católica, n° 464.
[2] Catecismo da Igreja Católica, n° 466.
[3] Missal Romano, Oração Eucarística II: «Lembra-te, Senhor» própio do Natal do Senhor e a sua Oitava.
[4] Concílio Ecuménico de Éfeso (DS 251), citação do Catecismo da Igreja Católica, n°466.
[5] K. RAHNER, «Virginitas in partu. Acerca do problema da Tradição e da evolução do dogma», em K. RAHNER, Escritos de Teologia, Volume IV (Taurus Ediciones, Madrid 1962), 201-202.
[6] PAPA FRANCISCO, Evangelii Gaudium 1.
[7] Cf. PAPA FRANCISCO, «Vence a indiferença e conquista a paz», Mensagem para a celebração da XLIX Jornada Mundial da Paz, 1 de Janeiro de 2016, n°1 [em linha]. [data de consulta: 31 de Dezembro de 2015]. Disponível: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/peace/documents/papa-francesco_20151208_messaggio-xlix-giornata-mondiale-pace-2016.html>
Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

 

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