Colocado em 2017-01-09 In José Kentenich

Temos de renunciar a uma imagem do nosso Fundador, onde tudo é perfeito

Redacción •

Pe. Strada, no início de 2017 vai entregar ao P. Eduardo Aguirre o seu cargo de Postulador do processo de beatificação do P. José Kentenich. Desde quando é que realiza esta função?

2Pe. Strada: Vim para a Alemanha em 1984 e a minha primeira tarefa foi a de Reitor do Colégio José Kentenich em Münster. Permaneci aí 8 anos. A seguir, em 1992 fui nomeado membro da Direção Geral, e desde então estou aqui. Como eu era membro da Direção Geral, nomearam-me como Postulador em 20 de Janeiro de 1997. Faço exatamente 20 anos neste cargo em Janeiro de 2017.

Quando pensa no começo, qual é a impressão mais forte que lhe ficou, quando se encarregou desta tarefa do primeiro Postulador do processo de beatificação na altura, P. Engelbert Monnerjahn?

Pe. Strada: A tomada de posse teve que ser feita muito rapidamente. Só pude falar com o Padre Monnerjahn duas ou três veze, uma vez que ele morre já em Setembro de 1997. Naturalmente eu tinha dúzias de perguntas, mas já não as pude esclarecer com ele. Além disso o processo estava ainda muito no começo, sobretudo porque o segundo Delegado episcopal ainda mal se tinha ocupado do processo. Por isso, sob muitos aspetos, praticamente foi necessário começar quase de novo.

Desde o começo fiquei imediatamente impressionado pela quantidade de documentos, textos, escritos e cartas. Há 12.000 cartas: do P. Kentenich, ao P. Kentenich, sobre o P. Kentenich; 6.000 conferências, etc. Só pouco a pouco me ficou claro, que este processo é muito maior do que eu me havia imaginado. A isto acresce ainda o facto de que o P. Kentenich chegou a uma idade avançada. Mário Hiriart chegou só aos 32 anos de idade e pouco escreveu. João Pozzobon, também um homem estupendo e grande santo, não escreveu quase nada. Muito diferente é o caso do P. Kentenich: ele escreveu muito e, sobretudo, formulou uma mensagem totalmente nova para a Igreja, que em virtude da sua novidade trouxe consigo dificuldades muito especiais, como por exemplo as visitações. Havia por um lado, visto que mediante esta tarefa eu me abeirava mais de perto da pessoa do Padre Kentenich, do seu pensamento, da sua vida, da sua santidade. Por outro lado, tratava-se naturalmente de temas difíceis a estudar e de muitas perguntas a responder.

Seguramente que antes já tinha tido uma relação com o P. Kentenich. Agora esta mudou ou se aprofundou através da ocupação com ele no decurso do processo de beatificação?

Pe. Strada: Eu ainda conheci pessoalmente o P. Kentenich nos últimos três anos da sua vida. Em Setembro de 1965 ele regressou de Milwaukee a Roma e, na Noite Santa, chegou a Schoenstatt. Pela primeira vez vi o P. Kentenich em 29 de Março de 1966 no Santuário das Irmãs, durante uma conferência para as vocações dos Padres de Schoenstatt. No dia seguinte viajámos para Münster, Diocese do Bispo Tenhumberg, onde começou o nosso estudo. Em Agosto de 1967 veio ele mesmo a Münster e nos deu Retiro. Após o pequeno-almoço, em 23 de Agosto, pude falar mais ou menos meia hora com o P. Kentenich. Isto me causou uma impressão muito forte, apesar de a sua baixa estatura não dar uma impressão tão grande. Também tínhamos de nos acostumar ao seu vocabulário. Eu o experimentei como muito simples, humano, humilde e alegre, e ao mesmo tempo se podia sentir que era um homem de Deus, ligado com o outro mundo, e que Deus para ele é de facto uma pessoa.

Durante o processo de beatificação esta impressão alterou-se ou fortaleceu-se?

Pe. Strada: Sim, esta impressão por um lado fortaleceu-se, por outro lado também se tornou problemática. Através do processo entrei naturalmente em contacto com todos os matizes da personalidade do Padre Kentenich. Ele foi muito criticado; por uma parte dos Palotinos, por outros sacerdotes no campo de concentração de Dachau; as visitações atiram outras perguntas sobre a sua vida e a sua pessoa. Neste sentido é que eu digo problemático. E um par de perguntas permanecem para a eternidade. O processo exige uma profunda investigação sobre a pessoa e os seus motivos. E na pessoa de cada homem há segredos: porque é que ele procedeu ou não assim. Não seria mais prudente fazer isto ou aquilo? Cada vez mais me disse a mim: trata-se da santidade de um homem, não de um anjo. E homem significa: erro, problemas, conflitos, fiasco, fracassos. Tudo isto faz parte da vida humana. Não há santidade sem limites. Eu admiro o Papa João Paulo II. É um grande santo. E contudo ele cometeu pelo menos dois grandes erros: apresentou o fundador dos Legionários de Cristo, que humanamente era uma catástrofe, como modelo para a vida cristã. Um grave equívoco. E classificou os abusos sexuais por parte dos sacerdotes como matéria interna da Igreja e não como uma questão para a justiça. Com isto a Igreja sofreu também muito dano.

Então nos seus anos de postulador também teve de encarar aqueles matizes da pessoa do Padre Kentenich, que são difíceis de compreender e provavelmente tornaram e ainda tornam mais lento o processo.

Pe. Strada: Sim, certamente. Muito provavelmente estes pontos serão novamente examinados durante a segunda etapa do processo em Roma. Tome por exemplo o tom da “Epístola perlonga” ao Bispo Stein: Esta foi escrita num tom muito duro. Certamente uma pessoa pode perguntar-se, se era preciso um tom destes. Provavelmente não. Mas bom, cada pessoa tem o seu modo … Mas perante isto também está a incrível generosidade na entrega da pessoa do Padre Kentenich. Uma insignificância, mas não secundária: Tinha ele 80 anos, quando ele nos deu o Retiro em Münster. Eu sou testemunha de que ele mesmo nesta idade avançada chegou a trabalhar 18 horas por dia. Ele não se concedia por exemplo pausa alguma após o almoço, só para ter tempo, para falar com cada um de nós.

No seu longo tempo como postulador houve só momentos difíceis e “analisar atas” ou também pontos relevantes e momentos bonitos?

Pe. Strada: Houve muitos momentos bonitos. Por exemplo as reuniões extraordinariamente muito fraternais com o Delegado Episcopal de Tréveris, Dr. Holkenbrink. Também as reuniões com a comissão de história, que me convidara a todas as sessões, eram pontos altos, uma bonita convivência.

Quando, após 20 anos, contempla a partir da perspetiva atual o processo de beatificação, fica então satisfeito ou teria desejado um outro desenvolvimento?

Pe. Strada: Estou satisfeito. Só é pena o “repousar” do processo nos últimos anos. Ter-se-ia podido levar mais depressa o processo para Roma. Continuamos ainda à espera pelo encerramento do processo a nível diocesano. Estou contente pela compilação da documentação. Roma não poderá queixa-se. Classificámos quase 80.000 páginas. Junta-se a isto um índice de sensivelmente 32.000 documentos, que se encontram no arquivo. E aí há não só especificações técnicas, mas também um resumo do conteúdo de cada um dos documentos. Para esta classificação trabalharam com grande magnanimidade dúzias de pessoas, Irmãs de Maria, Padres, Senhoras e leigos. Algumas destas pessoas nem as conheço pessoalmente. Quando pedia ajuda, recebia sempre respostas positivas. Se podia notar, que toda a Família de Schoenstatt aprecia o trabalho para o processo e se empenha pela beatificação do Padre Kentenich.

O seu tempo como Postulador chega agora ao fim. Que vai fazer agora? Volta para a Argentina? 

Pe. Strada: Não, fico aqui na Alemanha e tanto quanto possível ajudarei o P. Eduardo Aguirre. Ele vai precisar de ajuda, pois irá ver-se confrontado com 100.000 páginas e ao mesmo tempo terá que preparar a etapa do processo de beatificação em Roma. Naturalmente assumirei também outras tarefas na comunidade, em terciados e retiros. E procurarei escrever alguma coisa sobre a vida do Padre Kentenich.

Há pouco um minino de dez anos perguntou: “Porque é que é importante que o Padre Kentenich seja beatificado? Podemos também tê-lo como companheiro de caminho”. O que lhe responderia?

Pe. Strada: Responderia assim: primeiro, os santos são “pessoas especiais na Igreja” e eu creio, o Padre Kentenich merece esta singularidade. Eles são exemplos claros de como se pode viver o Evangelho e são bons intercessores no Céu. Naturalmente eu tenho toda a liberdade para invocar a minha avó no Céu ou o Padre Kentenich. Mas é algo distinto, se a Igreja com a sua autoridade me diz que o Padre Kentenich é bom modelo e poderoso intercessor para a vida cristã.

Mas a canonização seria também importante para a plena reabilitação do Padre Kentenich. Muitos sabem que houve dificuldades, mas poucos conhecem a história exatamente. A canonização elimina isso. Isto é importante para a honra do Padre Kentenich.

Como pode a Família de Schoenstatt colaborar, para apoiar o processo de beatificação?

Pe. Strada: Evidentemente através de oração e contribuições ao Capital de Graças, mas seguramente também de um modo muito prático, como por exemplo os casais, que em Tréveris ajudaram a Notária a autenticar com carimbos 100.000 páginas ou as Irmãs de Maria idosas, que se dedicaram a ler os textos manuscritos do Padre Kentenich, para que pudessem ser gravados e a seguir poderem ser digitalizados.

Eu creio que não se pode falar de uma beatificação breve. A etapa de Roma vai exigir muito. A Congregação para a Causa dos Santos tem muito pouco pessoal, só há um responsável para 400-500 processos de beatificação em língua espanhola. Temos de aceitar a realidade como ela é.

Senhor Padre Strada, muito obrigado pela entrevista.

Perguntas fitas por Heinrich Brehm, da Sala de Imprensa de Schoenstatt, Alemanha (www.schoenstatt.de)

Tradução portuguesa da versão alemã da Entrevista com autorização de Schoenstatt.de, por P. Manuel Ribeiro Alves, Portugal

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