Colocado em 2015-11-13 In Francisco - Mensagem

“A Igreja, como Jesus, vive no meio do povo e para o povo”

FRANCISCO EM PRATO E FLORENÇA •

É necessário saber o que pensam as pessoas, afirmou Francisco na Missa na conclusão da sua Visita Pastoral às cidades italianas de Prato e Florença, mantendo o contacto com a realidade, tendo em conta as suas alegrias, as suas tristezas, os seus triunfos e os seus fracassos, esta é a única maneira para poder ajudá-los. “É a única maneira de falar ao coração das pessoas, tocando a sua experiência quotidiana: o trabalho, a família, os problemas de saúde, o trânsito, a escola, os serviços médicos e assim por diante… É a única forma de abrir o seu coração à escuta de Deus. Na realidade, quando Deus quis falar connosco, encarnou-se. Os discípulos de Jesus nunca devem esquecer de onde foram escolhidos, ou seja, do meio do povo, e jamais devem cair na tentação de assumir atitudes desapegadas, como se o que as pessoas pensam e vivem não lhes dissesse respeito, ou não fosse importante para eles”.

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Texto Completo da Homilia do Papa Francisco durante a Santa Misa em Florença:

No Evangelho de hoje, Jesus dirige duas perguntas aos seus discípulos. A primeira: «Para o povo, quem é o Filho do Homem?» (Mt 16, 13), é uma interrogação que demonstra como o coração e o olhar de Jesus estão abertos a todos. Jesus interessa-se por aquilo que as pessoas pensam, não para as contentar, mas para poder comunicar-se com elas. Sem saber o que as pessoas pensam, o discípulo isola-se e começa a julgá-las segundo os próprios pensamentos e convicções pessoais. Manter um contacto sadio com a realidade, com aquilo que as pessoas vivem, com as suas lágrimas e as suas alegrias, é o único modo para as poder ajudar, poder formá-las e se comunicar com elas. É a única maneira de falar ao coração das pessoas, tocando a sua experiência quotidiana: o trabalho, a família, os problemas de saúde, o trânsito, a escola, os serviços médicos e assim por diante… É a única forma de abrir o seu coração à escuta de Deus. Na realidade, quando Deus quis falar connosco, encarnou-se. Os discípulos de Jesus nunca devem esquecer de onde foram escolhidos, ou seja, do meio do povo, e jamais devem cair na tentação de assumir atitudes desapegadas, como se o que as pessoas pensam e vivem não lhes dissesse respeito, ou não fosse importante para eles.

Isto é válido também para nós. E o facto de nos termos congregado hoje aqui para celebrar a Santa Missa num estádio desportivo no-lo recorda. A Igreja, como Jesus, vive no meio do povo e para o povo. Por isso, em toda a sua história, a Igreja sempre trouxe no seu seio a mesma pergunta: Para os homens e as mulheres de hoje, quem é Jesus?

Inclusive o santo Papa Leão Magno, originário da Toscana, cuja memória celebramos hoje, tinha no seu coração esta pergunta, este anseio apostólico, a fim de que todos pudessem conhecer Jesus, e conhecê-lo por aquilo que realmente é, não uma sua imagem ofuscada pelas filosofias ou ideologias do tempo.

Portanto, é necessário amadurecer uma fé pessoal nele. Então, eis a segunda pergunta que Jesus dirige aos seus discípulos:«E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mt 16, 15). Uma interrogação que ainda hoje ressoa na nossa consciência de discípulos, e é decisiva para a nossa identidade e missão. Somente se reconhecermos Jesus na sua verdade, seremos capazes de olhar para a verdade da nossa condição humana, e conseguiremos oferecer a nossa contribuição para a plena humanização da sociedade.

Preservar e anunciar a recta fé em Jesus Cristo é o cerne da nossa identidade cristã, porque só no reconhecimento do mistério do Filho de Deus feito homem nós poderemos penetrar no mistério de Deus e no mistério do homem.

À pergunta de Jesus, Simão responde: «Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo!» (v. 16). Esta resposta encerra toda a missão de Pedro e resume aquilo que se tornará para a Igreja o ministério petrino, ou seja, preservar e proclamar a verdade da fé; defender e promover a comunhão entre todas as Igrejas; e conservar a disciplina da Igreja. Nesta missão o Papa Leão foi e permanece um modelo exemplar, tanto nos seus ensinamentos luminosos, como nos seus gestos cheios da mansidão, da compaixão e da força de Deus.

Estimados irmãos e irmãs, ainda hoje temos a alegria de compartilhar esta fé e de responder juntos ao Senhor Jesus: «Para nós Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo». O nosso júbilo consiste também em ir contra a corrente e ultrapassar a opinião corrente que, tanto hoje como outrora, não consegue ver em Jesus mais do que um profeta ou um mestre. Temos a alegria de reconhecer nele a presença de Deus, o Enviado do Pai, o Filho que veio fazer-se instrumento de salvação para a humanidade. Esta profissão de fé que Simão Pedro proclamou permanece também para nós. Ela não representa apenas o fundamento da nossa salvação, mas também o caminho ao longo do qual ela se realiza e a meta para a qual tende.

Com efeito, na raiz do mistério da salvação encontra-se a vontade de um Deus misericordioso, que não quer render-se diante da incompreensão, da culpa e da miséria do homem, mas entrega-se a ele a ponto de se fazer Ele mesmo homem, para se encontra com cada pessoa na sua condição concreta. É este amor misericordioso de Deus que Simão Pedro reconhece na face de Jesus. O mesmo rosto que nós somos chamados a reconhecer nas formas com que o Senhor nos garantiu a sua presença no meio de nós: na sua Palavra, que ilumina as obscuridades da nossa mente e do nosso coração; nos seus Sacramentos que, de cada nossa morte, nos geram para uma vida nova; na comunhão fraternal que o Espírito Santo gera entre os seus discípulos; no amor ilimitado, que se faz serviço generoso e atencioso por todos; no pobre, que nos recorda como Jesus quis que a suprema revelação de si mesmo e do Pai tivesse a imagem do Crucificado humilhado.

Esta verdade da fé é verdade que escandaliza, porque pede para acreditar em Jesus que, não obstante fosse Deus, se esvaziou e se abaixou à condição de servo, até à morte de cruz, e foi por isso que Deus o fez Senhor do universo (cf. Fl 2, 6-11). É a verdade que ainda hoje escandaliza quantos não toleram o mistério de Deus gravado no rosto de Cristo. É a verdade que não podemos tocar nem abraçar sem, como diz são Paulo, entrar no mistério de Jesus Cristo, e sem fazer nossos os seus próprios sentimentos (cf. Fl 2, 5). Somente a partir do Coração de Cristo podemos entender, professar e viver a sua verdade.

Na realidade, a comunhão entre divino e humano, realizada plenamente em Jesus, é a nossa meta, o ponto de chegada da história humana segundo o desígnio do Pai. É a bem-aventurança do encontro entre a nossa debilidade e a sua grandeza, entre a nossa pequenez e a sua misericórdia que preencherá todas as nossas colunas. Contudo, esta meta não é apenas o horizonte que ilumina o nosso caminho, mas é aquilo que nos atrai com a sua força suave; é o que se começa a saborear e a viver já aqui, o que se constrói dia após dia com todos os bens que semeamos ao nosso redor. São estas as sementes que contribuem para criar uma humanidade nova, renovada, onde ninguém é deixado à margem nem descartado; onde quem serve é o maior; e onde os mais pequeninos e os pobres são acolhidos e ajudados.

Deus e o homem não são os dois extremos de uma oposição: eles procuram-se desde sempre, porque Deus reconhece no homem a própria imagem, e o homem só se reconhece a si mesmo olhando para Deus. Nisto consiste a verdadeira sabedoria, que o Livro do Sirácida assinala como característica de quantos aderem ao seguimento do Senhor. É a sabedoria de são Leão Magno, fruto da convergência de vários elementos: palavra, inteligência, oração, ensinamento e memória. Mas são Leão recorda-nos também que não pode existir verdadeira sabedoria fora do vínculo a Cristo e do serviço à Igreja. Este é o caminho no qual nos cruzamos com a humanidade e onde podemos encontrá-la com o espírito do bom samaritano. Não é sem motivo que o humanismo, do qual Florença foi testemunha nos seus momentos mais criativos, teve sempre o semblante da caridade. Que esta herança seja fecunda de um novo humanismo para esta cidade e para a Itália inteira.

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FONTE: Santa Sé
Coordenação: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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