Colocado em 16. Janeiro 2019 In abuso

Caminhar para o Sacerdócio depois dos abusos

Juan María Molina, seminarista dos Padres de Schoenstatt •

Em Agosto coube-me regressar ao Chile com a pergunta. Como será continuar o caminho para o Sacerdócio nestas circunstâncias? Está claro que, a realidade da Igreja no mundo não está a ser a melhor mas, uma coisa muito diferente é estar a estudar e a viver no olho do furacão…

A primeira metade de 2018 apanhou-me a viver na Alemanha na Casa Central da nossa Comunidade, num tempo de oração e estudo. Deste modo, começou o meu sétimo ano de caminho para o sacerdócio, o qual já me tinha feito viver no Chile, na Argentina e no Paraguai. De todos estes lugares a passagem pelo Chile foi, certamente, a mais importante; ou, pelo menos, a mais longa. Na Alemanha metido num gelado inverno, enquanto, pela primeira vez, experimentava o que é nevar, recebi os ecos da visita do Papa Francisco ao Chile. Pelo conhecido, isto foi só o começo de um ano charneira para a Igreja. O singular foi o ter sido o Papa o grande promotor de uma purificação da Igreja, acolhendo as vítimas e confrontando os responsáveis.

Muitas das consequências foram mediaticamente muito conhecidas: multiplicaram-se as denúncias de abusos, descobriram-se redes de tais práticas, em conjunto com os abusos, foram postas em evidência necessárias práticas encobridoras, todos os Bispos apresentaram a sua renúncia, num feito inédito na Igreja mundial e multiplicaram-se os pedidos de desculpas com credibilidade díspar. Certamente, menos mediaticamente, também houve outro tipo de consequências: suspeitas, desânimo Pastoral, perda de iniciativa apostólica, revisão de estruturas e de práticas pedagógicas, passes de factura, acusações, desencanto, tristeza e uma enorme incerteza.

Tudo isto foi, por mim, vivido à distância, até que, em Agosto, me coube regressar ao Chile com a pergunta. Como será continuar o caminho para o Sacerdócio nestas circunstâncias? Está claro que, a realidade da Igreja, no mundo, não está a ser a melhor mas, uma coisa muito diferente é estar a estudar e a viver no olho do furacão… Com isto tudo, estou cada vez mais consciente, da existência, neste país, de um substracto histórico-cultural que se converteu num caldo de cultura favorável a este tipo de práticas. Além disso, o lugar que a minha Comunidade ocupa nos diversos países é diferente. Ainda me lembro da vergonha que passei quando, ao entrar para o Noviciado, um irmão chileno fazia alarde da quantidade de irmãos de Comunidade, Bispos, que eles tinham. Esse irmão abandonou o caminho para o Sacerdócio e, hoje, é um bom pai de família. A sorte de alguns desses irmãos Bispos é, de sobra, conhecida.

Ao terminar este ano charneira, animo-me a partilhar convosco uma síntese pessoal do que, para mim, significa o Sacerdócio no meio destas circunstâncias. Em jeito de lembrança, uma das primeiras expressões deste novo tempo é uma pintura feita num dos muros exteriores do Seminário: “Pedofilia” denúncia desde há meses. E, lamentavelmente, conhecemos casos que lhes dão razão.

  1. Caminhar para o Sacerdócio depois dos abusos, é caminhar conscientemente atrás das pegadas de Jesus que caminha no meio de nós. Transformou-se num slogan: “pôr Cristo no centro”. Significa para mim, passar da lógica do controlo para a contemplação. É descentrar-se para reconhecer que, nem a vida nem a vocação, vêm de mim mas que me são dadas por Cristo. Por isso, é receber a vida como ela se apresenta. Este exercício de contemplação quebra a tentação de querermos controlar, como se, a existência de Deus dependesse do que eu fizesse.
  2. Caminhar para o Sacerdócio depois dos abusos, é estar mais conectado com o mundo. A par da anterior, há outra mudança fundamental: reconhecer que o mundo é melhor do que se pinta. Lamento que, em nós, esteja tão enraizada a suspeita perante a novidade, perante o que não encaixa nos nossos esquemas “do que sempre se fez assim”. Isto faz-nos sentir atacados por inimigos invisíveis e faz-nos acreditar que estamos sempre do lado correcto. Suspeitamos daqueles que denunciam os abusos – sim, ainda ouço discursos responsabilizando os abusados por terem sido abusados! Suspeitamos das intenções dos leigos. Suspeitamos das intenções das mulheres e do feminismo. Suspeitamos dos meios de comunicação. Suspeitamos dos nossos superiores. Em tudo isto, vejo um marcante traço cultural: parece que os chilenos são desconfiados por natureza. Contudo, repetidamente, experimento que a realidade é melhor do que eu pensava. Assim, o convite que Jesus faz a Zaqueu – quando não Zaqueu neste ano! – De descer depressa (Lc 19,1) também mo faz a mim para que desça rapidamente da atalaia moral na qual, muitas vezes, colocámos o Sacerdócio e vivamos em humilde comunhão com o mundo.
  3. Caminhar para o Sacerdócio depois dos abusos, é muito melhor com as mulheres. Prova disso, é a reconfortante experiência que estou a viver ao estar sendo acompanhado, espiritualmente, por uma mulher e que, aqui, quero manifestar. Ela já passou os 50 anos, é religiosa da Comunidade Servas do Espírito Santo. A sua contribuição não reside, unicamente, pelo facto de ser mulher, porque tem uma fenomenal preparação para a sua tarefa. Contudo, o facto de ser mulher traz consigo uma visão e um modo que para mim são novidade. No meu caso, deu-se mais por casualidade, do que para me armar em progressista mas, experimento o muito que as mulheres têm para contribuir para a nossa caminhada rumo ao Sacerdócio.
  4. Caminhar para o Sacerdócio depois dos abusos, é fazer uma revisão de nós próprios para nos tornarmos responsáveis. Este contexto, obrigatoriamente, confrontou-me com uma pergunta incómoda mas, necessária: Quão perto estive eu de práticas ou de realidades abusivas? Reconheço dinâmicas deste tipo na minha formação, na minha Comunidade, no meu âmbito Pastoral? É certo que, o abuso pode ser uma perigosa hermenêutica para o nosso tempo. Contudo, pessoalmente, vi necessário passar por este exame de consciência para me permitir um olhar crítico, adulto e responsável face ao clamor do tempo. Penso, sobretudo, que as renovações é mais provável serem feitas com base na minha juventude inquieta e livre de preconceitos, do que a partir de escritórios longínquos ou penteando cabelos brancos; e não, porque eu seja melhor mas porque Bílardo não pode jogar com três pontas de lança.
  5. Caminhar para o Sacerdócio depois dos abusos, é fazê-lo sinodalmente, conscientes da própria fraqueza e de que, o todo é mais do que a soma das partes. Reconheço que, muitos modelos tantas vezes, hoje, pontificados, desmoronam-se em pedaços. Nalguns casos é certo que engendravam condutas pouco sãs e noutros a sua bondade é posta à prova. É raro ver em sacerdotes jovens o medo de que, algumas das suas práticas, possam ser consideradas abusivas. O menos perigoso parece ser o não fazer nada, trabalhar burocraticamente ou refugiar-se por trás de algum estudo. Eu espero que este medo de errar seja uma coisa puramente transitória porque, também, me dou conta de que o novo modelo não pode ser alcançado a partir de um processo meticuloso, uns princípios metafísicos refletidos até à exaustão e, em seguida, aplicados. Nestas circunstâncias fazer ou propôr torna-se muito complicado. Com tais atitudes, seria desconhecer a realidade de criatura, finita, limitada, do próprio Homem. Parece-me que o caminho é para ser feito juntos, dialogando juntos, construindo juntos, sonhando juntos, reconhecendo-nos povo.
  6. Caminhar para o Sacerdócio depois dos abusos, é caminhar olhando para o futuro. Em jeito de síntese, tenho a impressão que, depois destes acontecimentos já nada poderá ser igual. Ainda que pareça pretensioso, o tempo actual parece reclamar um novo S. Francisco de Assis capaz de reconstruir a Igreja. Mais modestamente, perante a vertigem da inexorável mudança, eu vejo a possibilidade de sermos parteiros de um novo Sacerdócio. A planificação e este novo Sacerdócio não aparecem por um regresso à origem primordial mas, caminhando para um futuro por descobrir e construir, talvez seguindo as pistas dos pontos anteriores.

Parafraseando o Padre Kentenich, permito-me afirmar que, segundo o Plano da Divina Providência, a actual crise deve ser, com os seus poderosos impulsos, um meio extraordinariamente proveitoso para nós, na obra da nossa santificação. Esta é a santificação que o tempo exige de nós. Ela é a armadura com qual temos que nos revestir, a espada com a qual lutar para a consecução dos nossos desejos.

 

Original: espanhol (7/1/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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