Santa Cruz do Sul

Colocado em 2020-12-17 In Vida em Aliança

Em Santa Cruz do Sul, na urgência do diálogo, o sigilo e a ausência

BRASIL, Luciana Rosas •

Nós, schoenstattianos do Brasil, temos acompanhado com assombro e indignação os últimos acontecimentos em relação ao Santuário de Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul. Ao adentrar um pouco na história e conhecer melhor os fatos relacionados ao assunto, fica cada vez mais claro que a proposta de Família em Schoenstatt precisa ser melhor vivenciada na prática. —

A “bomba” estourou através de uma carta aberta com data de 27 de outubro de 2020 enviada pela superiora provincial, Ir. M. Lillian Goerck, à mídia de Santa Cruz do Sul.

Breve panorama

O Instituto das Irmãs de Maria de Schoenstatt, portadoras jurídicas do Santuário de Santa Cruz do Sul, Tabor Immaculata Dilexit Ecclesiam, no final de outubro de 2020, decidiram fechar permanentemente as portas do Santuário e levaram o altar, imagem da Mãe e a estátua do Pe. Kentenich para uma casa localizada no centro da cidade.

O assunto vinha sendo debatido dentro da Família de Schoenstatt local, porém com várias manifestações contrárias à mudança da localização do Santuário. A decisão unilateral da mudança do Santuário foi tomada pelas Irmãs de Maria e a comunicação de tal decisão ocorreu por meio da imprensa através de uma carta aberta.

Conforme descrito na carta aberta acima mencionada, as Irmãs de Maria alegam falta de segurança no local, falta de vocações e redução do número de peregrinos ao Santuário, bem como manifestam certo incômodo pelas pessoas irem visitar o local sem o fim específico de rezar, conforme descrito no documento: “…procurado como parque, sendo visitado para outras práticas que não condizem com o ambiente sagrado…”.

Santuário de Santa Cruz do Sul

Mobilização da comunidade santa-cruzense

Segundo apuração de schoenstatt.org, a retirada dos itens do Santuário pelas Irmãs de Maria ocorreu apenas dois dias após publicação desta carta aberta, a qual comunicava a decisão definitiva por parte das portadoras jurídicas.

Tal atitude despertou e mobilizou a comunidade santa-cruzense para a luta pela manutenção do Santuário em seu local de origem. Estão sendo coletadas assinaturas para envio ao Ministério Público que já foi acionado. Há também um abaixo assinado virtual que já reúne mais de 1.500 assinaturas e que pode ser acessado através do link: Abaixo assinado pró permanência e tombamento do Santuário de Schoenstatt de Santa Cruz do Sul – RS. Neste abaixo assinado podem ser lidos comentários comoventes. Transcrevemos alguns:

“É um refúgio espiritual, tem q ser preservado. Serve de alento a muitas pessoas que precisam apenas passar algumas horas lá para se energizarem, promove paz interior e infinitos benefícios à alma humana que todos precisam pra continuar na batalha da vida, nas lutas da caminhada, cada um do seu jeito, com suas necessidades, perspectivas e superações. O Santuário deve ser mantido!”
Rosane Konzen

“Quero que permaneça esse lugar sagrado onde tantas pessoas procuram conforto espiritual. Com certeza encontrarão uma solução”.
Zelia Lúcia Froehlich

“São 40 anos que os fiéis vão até esse espaço de energia espiritual. Acredito que a característica do Santuário em um ambiente de natureza propicia a devoção. Para mim, transmite muita paz”.
Marileni Hilbig

“O Santuário precisa permanecer onde se encontra. É nosso ponto de referência de fé e união. E também o é para todos que encontram a paz neste Santuário quando visitam nossa cidade. Fica Santuário!”
Carla Ceratti

“Porque creio que, tal como, Jesus disse em Mt 18 6-7 “…Aí de quem escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor seria que lhe atassem uma pedra de moinho ao pescoço….” Isto não se faz a una História com mais de quarenta anos. Podem ter a jurisdição canónica do Santuário mas não possuem a jurisdição das almas. Todos cometem erros mas, têm a hipótese de os emendar”.
Maria Helena Castro Valente, Lisboa

“Es un lugar sagrado! Un trono de gracias! A él va mi Capital de Gracias!!!”
Cristina White, Buenos Aires

“Meus pais foram fundadores.”
Tereshina Gerhardt

O poder executivo de Santa Cruz do Sul também está mobilizado. A prefeita eleita, Sra. Helena Hermany se reuniu com os dois lados envolvidos para trabalhar pelo assunto. Segundo reportagem do jornal Gazeta do Sul de 9 de dezembro de 2020, na reunião com a comunidade das Irmãs de Maria ocorrida no final de novembro, as mesmas se mostraram irredutíveis em sua decisão. No dia 8 de dezembro, dia da Imaculada, a prefeita eleita se reuniu com o grupo que representa as pessoas contrárias à mudança do Santuário e manifestou sua disposição em apoiar e já se dispôs a melhorar a questão da segurança do local, motivo alegado pelas Irmãs de Maria para a mudança do Santuário.

Santa Cruz do Sul Brasil

Reunião na Câmara de Vereadores de Santa Cruz do Sul

Uma reunião para o diálogo e a ausência

No dia 14 de dezembro passado foi realizada uma reunião especial na Câmara de Vereadores de Santa Cruz do Sul para debater, exclusivamente, a situação do Santuário de Schoenstatt na cidade, com a pauta: Venda da área em que está situado o Santuário de Schoenstatt e transferência do Santuário para a parte central da cidade . Todos os convocados para a reunião compareceram, com exceção do Instituto das Irmãs de Maria de Schoenstatt, que mandou um requerimento assinado pela superiora provincial Ir. M. Lillian Goerck justificando sua ausência devido ao “acúmulo de tarefas de final de ano e do tempo natalino, as agendas já estão preenchidas e não conseguimos alterar outros compromissos já assumidos…”.

A explanação da secretária da divisão econômica e de turismo, representando o poder executivo, Sra. Carina Inês Panke da Silva, foi esclarecedora. Iniciou sua colocação dizendo: “É com tristeza que estamos aqui hoje. Discutir uma situação em que se vê uma comunidade toda engajada e, ao mesmo tempo, pouca resposta da congregação, me deixa triste”.

Apresentou uma cronologia bastante consistente dos fatos que envolvem todo o processo. Segundo a secretária, foram realizadas diversas reuniões extraoficiais por solicitação do Instituto das Irmãs de Maria sinalizando a mudança de endereço do Santuário. Em fevereiro de 2019 aconteceu a primeira manifestação formal e em abril de 2019 o Instituto solicitou oficialmente o parecer da prefeitura sobre a situação do terreno, uma vez que há a manifestação por parte do Instituo das Irmãs de Maria de vender o terreno onde atualmente está situado o Santuário de Schoenstatt, com a justificativa de que a mudança deve-se à falta de segurança do local. Em janeiro de 2020 o prefeito, Sr. Telmo Kirst, nomeou uma comissão para discutir e apresentar as ações para que o Santuário permanecesse no local atual.

Ainda segundo a secretária, em fevereiro de 2020 a comissão solicitou reunião com o Instituto das Irmãs de Maria. Foi elaborada ata da reunião, a qual não foi disponibilizada para a prefeitura, nem mesmo após a solicitação formal por parte do então secretário da Fazenda, pertencente à comissão. Nesta reunião foi lido um manifesto sobre a importância do Santuário de Schoenstatt para o município, bem como as ações propostas pelo setor público em relação à segurança, motivo alegado pela comunidade das Irmãs de Maria para a saída do local. A secretária leu na reunião uma série de ações que já haviam sido propostas, visando resolver a questão levantada.

A secretária ressaltou também que todo este processo não havia sido tornado público por solicitação do Instituto das Irmãs de Maria de Schoenstatt, o qual solicitou sigilo total das reuniões e das manifestações.

Após publicação da carta aberta do Instituto das Irmãs de Maria com a decisão já unilateralmente tomada, em novembro de 2020 a prefeitura solicitou por telefone reunião presencial para a discussão do assunto, solicitação esta que não foi atendida. Também foi solicitada à prefeitura em novembro de 2020 o estudo sobre a viabilidade do tombamento do Santuário como patrimônio público.

Finaliza ressaltando que a prefeitura de Santa Cruz do Sul nunca esteve passiva diante da situação, porém que todas as propostas apresentadas foram refutadas pelo Instituto das Irmãs de Maria de Schoenstatt.

A íntegra da reunião pode ser assistida abaixo:

 

Questionamento: A forma de condução

O grande questionamento que permanece em aberto é a forma de condução do assunto por parte do Instituto das Irmãs de Maria de Schoenstatt. A equipe schoenstatt.org tentou entrar em contato para conversar com as irmãs no telefone que consta no site oficial do movimento de Schoenstatt do Brasil, mas mesmo com muita insistência, nenhuma das ligações foi atendida.

Neste site continua constando também como endereço do Santuário de Santa Cruz do Sul a BR 471, Km 144,5 – Saída para Rio Pardo/RS, embora o Santuário esteja já totalmente fechado.

Fonte: https://schoenstatt.org.br/home/contato-2/contato-dos-santuarios-no-brasil/#rs

Também recebemos a informação de Cássio Leal que, ao tentar comentar um artigo sobre a mudança de endereço do Santuário de Santa Cruz do Sul no site oficial do Movimento de Schoenstatt do Brasil, teve seu comentário não publicado, com a justificativa, através de e-mail, de que o mesmo seria encaminhado para as Irmãs de Maria da Província do Sul, inclusive estando em cópia do e-mail a Ir. Rosequiel, responsável pela comunicação das Irmãs de Santa Maria. Segundo Cássio Leal, nem o comentário foi publicado, nem houve qualquer tipo de contato ou retorno sobre o assunto.

Segue comentário que não foi publicado com autorização do autor:

“Lendo sobre a cidade de Santa Cruz do Sul, pude observar que tem em torno de 130 mil habitantes. Uma cidade de “colônia alemã”, classe média e bons índices de desenvolvimento humano. Já conheci santuários em lugares que realmente são “perigosos e inseguros”, com alta criminalidade, o que não é o caso de uma cidade como Santa Cruz, no interior do Rio Grande do Sul. Em vez de mudar o Santuário de lugar para vender o terreno, poderiam tentar transformar essa realidade de insegurança com a colaboração do poder público e também da Família de Schoenstatt, preservando assim a história deste Santuário e das pessoas que ajudaram a construí-lo como lugar de graças. Duas irmãs para administrar esse local é irrisório, Santa Maria poderia alocar mais irmãs para ajudar neste Santuário. Um lugar que seja mais afastado do centro, não quer dizer que não recebe visitas ou “não está cumprindo sua missão”. O Santuário de Atibaia fica no interior de São Paulo, em uma rodovia, e é um dos santuários de Schoenstatt mais visitados do mundo.”

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Terceira da esquerda para a direita, a prefeita eleita, Sra. Helena Hermany, em reunião com o grupo que representa as pessoas contrárias à mudança do Santuário

Sigilo, ausência e censura

Atitudes como as de sigilo sobre informações de interesse público, ausência em momentos cruciais de diálogo com a comunidade e censura sobre manifestações contrárias à posição do Instituto das Irmãs de Maria evidentemente não condizem com a missão que temos como Família de Schoenstatt, ainda mais nos tempos atuais.

Embora o requerimento que justifica a ausência das Irmãs de Maria na reunião de 14 de dezembro questione a atuação da imprensa no caso, conforme lido no início da reunião: “sabemos de vossa boa vontade de esclarecer os fatos, ouvindo também as colocações das pessoas que estão diretamente implicadas neste processo, pois muitas informações e especulações veiculadas pela mídia não correspondem com as nossas intenções e objetivos”, é de chamar muito a atenção que o Instituto das Irmãs de Maria de Schoenstatt tenha feito a comunicação da decisão tomada para a comunidade de Santa Cruz do Sul através de uma carta aberta para ser justamente publicada na mídia, o que gerou surpresa e consternação em todos os envolvidos, uma vez que as tratativas estavam sendo realizadas em sigilo por solicitação do próprio Instituto das Irmãs de Maria, segundo informação da secretária da divisão econômica e de turismo.

É papel da imprensa apurar e acompanhar assuntos de interesse público e é de responsabilidade das partes fornecer todas as informações de forma transparente para que a população seja devidamente informada. Se há informações incorretas ou que não correspondem aos fatos, elas devem ser contestadas. No dia 14 de dezembro houve o momento adequado para isso, porém o Instituto das Irmãs de Maria se ausentou.

Estamos unidos em oração pedindo à Mãe de Deus para que o assunto seja conduzido da forma como corresponde. Agradecemos também a todas as pessoas engajadas na luta pela manutenção do local do Santuário, inclusive através de apresentação de proposta de administração do Santuário por uma associação de leigos, proposta esta refutada pelo Instituto das Irmãs de Maria.

Vários participantes da reunião na Câmara de Vereadores ressaltaram a falta de diálogo aberto e a falta de boa vontade em encontrar uma solução por parte das Irmãs de Maria, uma vez que já foram apresentadas várias propostas visando resolver os problemas apontados como motivo para a venda do terreno e transferência de local do Santuário de Santa Cruz do Sul.

Ao contrário do que disse o presidente da câmara de vereadores e vice-prefeito eleito de Santa Cruz do Sul, Sr. Elstor Renato Desbessell , na reunião de 14 de dezembro sobre a experiência que teve junto com a prefeita eleita, sra. Helena Hermany, em sua primeira reunião com a comunidade das Irmãs de Maria, na qual manifestou que sentiram a insensibilidade e falta de boa vontade para a discussão do assunto por parte da comunidade das Irmãs, esperamos que o espírito de Família de Schoenstatt esteja verdadeiramente presente em Santa Cruz do Sul.

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3 Responses

  1. Lena Castro Valente diz:

    Este tipo de situações provoca uma dor no coração e grande inquietação na alma. Parece-me que tudo aquilo que Schoenstatt defende e pelo qual tantos deram a vida e outros tantos, no mundo inteiro, continuam a oferecer tudo o que têm e são… não se traduz nesta situação do Santuário de Santa Cruz do Sul. Uma atitude de abuso de poder e de surdez face aos apelos dos que clamam , aparentemente, no deserto. Irmãs de Maria, por favor, entreguem o Santuário à Diocese ou à Família de Schoenstatt para que cuidem dessa herança imaterial que, pela própria Mãe e Rainha, foi semeada nos corações de todos os que, ao longo dos anos lhe têm chamado lar. Ouçam a voz de Deus na voz dos Seus instrumentos.

  2. Rodrigo diz:

    Os pobres também precisam de um lugar de oração e encontro com Deus e Nossa Senhora. Ou por acaso a Sagrada Família não foi pobre?
    Ou na periferia o Movimento de Schoenstatt não pode existir?
    Que as irmãs entreguem o Santuário aos leigos ou a diocese, que eles vão cuidar bem.

  3. Minha Mãe fazia parte . Quando foi inaugurado ela colocou o Nome dos 6 filhos na sacristia como muitos fizeram.E hoje não estão mais aqui !! É um lugar que deve ser preservado . Vender Pra que??E Só ter Segurança como outros pontos turístico 🙏🙏

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