Colocado em 21. Agosto 2016 In Igreja - Francisco - movimentos

Madre Teresa: Encontro com uma Santa

Por Msgr. Peter Wolf, DD •

Será um ponto alto do ano de misericórdia quando o Papa Francisco canonizar a Madre Teresa de Calcutá no dia 4 de setembro. Mesmo enquanto estava viva muitas pessoas viam-na como uma santa, e quando a conheciam sentiam que estavam reunidos com alguém mais do que uma pessoa comprometida ou uma personalidade bem conhecida. De qualquer forma eu nunca vou esquecer o meu encontro com ela.

Foi durante as Katholikentag [1], em Freiburg, em 1978. Um pequeno grupo de pessoas responsáveis pela pastoral das vocações teve a ideia de convidar a Madre Teresa para visitar Freiburg. Esperávamos abordar o tema das vocações de uma nova maneira. Queríamos pedir-lhe para falar com os jovens na Catedral de Freiburg e dar-lhes o seu testemunho. Fui convidado para ajudar a preparar a missa, e assim surgiu a oportunidade para eu conhecer Madre Teresa pessoalmente.

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Ela estava diante de mim, no seu Sari branco com a borda azul, ela era muito mais pequena do que eu a tinha imaginado. Ela foi muito atenciosa quando me encarou. Eu tinha a sensação de que, ao mesmo tempo que ela estava falando comigo ela estava rezando. O Rosário escorregou constantemente através dos seus dedos ossudos. Ela estava totalmente com Deus e ainda totalmente com as pessoas à sua frente. Com alegria falei-lhe de uma jovem estudante que me tinha falado do seu desejo de ingressar na comunidade de Madre Teresa.

Depois da nossa conversa no escritório, fomos para a capela da casa no Centro Espiritual do Katholikentag, que tinha sido instalada na Borromeus College. Mal avistou o tabernáculo ela caiu de joelhos; com todos os seus sentidos ela dirigiu-se a Ele. … Depois eu acompanhei-a através da casa até à porta de entrada, com acesso para a rua. Constantemente chegavam pessoas que simplesmente queriam tocar as suas roupas. Pareceu-me como no Evangelho, quando Jesus percorria as ruas e as pessoas queriam tocá-lo.

Outra lembrança que me causou grande impressão foi o encontro com o cardeal Ratzinger, na sacristia da Catedral de Freiburg, antes da vigília, no final da noite. O cardeal já estava na sacristia na sua batina vermelha. Alguém a acompanhou até à sacristia no seu sari branco e azul e camisa cinza fina. Ela imediatamente aproximou-se dele, cumprimentou-o com humildade e beijou o seu anel. Ainda hoje este momento é para mim a imagem de um encontro entre oficial e carismático, e eu nunca o vou esquecer. O serviço da Vigília começou pelas 22:30 A catedral estava completamente cheia havia algumas horas e havia uma grande multidão no exterior. Depois dos hinos e das leituras, seguiu-se um sermão pelo cardeal Ratzinger e outro pelo Bispo Stroba da Polónia, depois foi a vez da Madre Teresa. Ela caminhou até ao microfone com o rosário na mão.

Ela convidou imediatamente os milhares de jovens a rezar uma Avé-Maria com ela. Em seguida, ela deu o seu testemunho. Para explicar o que significava para ela uma vocação, ela começou com o exemplo de Maria, “A vocação da nossa Santa Mãe era a de acolher Jesus na sua vida.” Um pouco mais tarde, ela disse em Inglês, “Vocação é pertencer a Jesus …” Em seguida, ela disse-lhes simplesmente o que ela e as suas irmãs tinham feito para os mais pobres dos pobres durante anos. Todos ouviram atentamente e podia-se sentir algo da sua proximidade com os mais pobres dos pobres. Muitos começaram a adivinhar a sua paixão por Cristo nos pobres e nos moribundos nas ruas de Calcutá, e onde quer que se pudessem encontrar. Ainda mais do que no escritório, fiquei profundamente tocado, assim como ficaram muitos mais naquela noite. Como falava a Santa. Ao mesmo tempo, ela afirmou claramente que ela não queria fazer nada de excecional. Ela não faria qualquer distinção. “O chamamento vai para ti e para mim!” “A santidade é um dever para ti e para mim.” Eu ainda posso ouvir essas palavras, “A santidade não é um luxo de poucos, é simplesmente um dever para ti e para mim. “Estas palavras ainda se aplicam hoje, quando a Madre Teresa é canonizada pelo Papa Francisco. Seis anos depois da sua morte o Papa João Paulo II beatificou-a. Então, e ainda mais agora, quando ela é beatificada em 4 de setembro, o que muitos, dentro e fora da Igreja, têm pensado e expressado, será solenemente proclamado após um processo que durou vários anos: Madre Teresa é uma Santa.

Em vida, ela convenceu as pessoas. Muitos consideraram que o que ela alcançou e mudou como sendo quase sobre-humano. Grande parte disto aparecerá novamente na comunicação social na altura da sua canonização, juntamente com números impressionantes e exemplos comoventes. Mas será que eles também vão olhar e tomar em conta a razão por que ela fez tudo isso, e o que realmente moveu esta mulher nas profundezas do seu ser?

Espero que a canonização vá ajudar a lançar luz sobre qual era a verdadeira motivação de Madre Teresa, e donde ela tirou força para o que ela fez. O fascínio de Madre Teresa é mais profundo. O que me move não é apenas a sua vida comprometida, eu também estou fascinado pela sua espiritualidade, o seu legado espiritual. Nela vemos uma irmã que morava com o coração no Evangelho. Nela vemos alguém que viveu a misericórdia de forma radical. Ela tomou as palavras de Jesus literalmente: “O que você fizer ao menor dos meus irmãos e irmãs, você fará por mim.” Nela vemos uma irmã, e entretanto nas centenas e milhares delas, que levam a presença de Jesus ao pobre de forma concreta e tão sensível como ele está presente na Eucaristia. Madre Teresa lançou as raízes profundas do cristianismo; ele só pode vir do compromisso final e incondicional com os mais pobres dos pobres.

unity-cross-01_1Há alguns anos, de repente, eu entendi mais uma vez o que é o centro e a fonte da espiritualidade da qual Madre Teresa viveu, e com a qual ela inspirou as suas irmãs, quando ouvi como ela amou a Cruz da Unidade, que tem desempenhado um papel tão especial no Movimento de Schoenstatt há tanto tempo, e que teve um lugar especial nas celebrações do centenário. A Madre Teresa encontrou esta cruz na sujeira da rua e não sabia nada da sua história. Descobriu-a novamente quando visitou o Vaticano e viu que era a cruz peitoral de Dom Errázuriz, que era então o secretário da Congregação para a Vida Consagrada. Madre Teresa disse-lhe que esta cruz era a melhor expressão do que ela e a sua comunidade queriam fazer: Como Maria, ficar junto à Cruz de Cristo agonizante e encontrá-lo lá. O Arcebispo, mais tarde Cardeal, deu-lhe centenas de cópias desta Cruz da Unidade para as suas irmãs.

Quero levar Madre Teresa a sério na sua vida tão real para Cristo nos pobres e sofredores. Ela não os tratou como problemas, mas honrou a Cristo neles. Eu quero que outros levem a sério o que ela muitas vezes expressou no amor aos pobres como um desejo de anseio por Cristo. Em cada capela das suas casas da comunidade, espalhadas pelo mundo, pode-se encontrar as palavras: “Tenho sede” escrito ao lado do crucifixo. Ela e as suas irmãs querem responder a essas palavras durante a sua adoração diária e no que elas fazem para os mais pobres dos pobres, para os quais elas aceitaram a obrigação de servi-los gratuitamente através de um quarto voto. Ela estava consciente de ter sido chamada a este compromisso com grande urgência e pressa, a exemplo de Maria, que partiu à pressa para ajudar sua prima Isabel. É uma vocação profundamente mariana que a Madre Teresa viveu e realizou. Isto é apenas como ela viveu a sua vocação de pertencer totalmente a Cristo.

[1] NT – Katholikentag – Encontro de católicos na Alemanha, começou por ser um festival com a ideia de ser uma assembleia da sociedade católica na Alemanha para promover as relações com o governo. Hoje é um acontecimento nacional da responsabilidade dos Católicos leigos da Alemanha, comemorando-se este ano o primeiro centenário.

Original: Alemão. Tradução: José Carlos A. Cravo, Lisboa, Portugal

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