Colocado em 2015-03-22 In Igreja - Francisco - movimentos

“Nunca me foi difícil escutar as pessoas”: a revista de uma favela argentina entrevista o Papa. E Francisco responde.

Ari Waldir Ramoz Diaz/mda.

Dois anos depois de sua eleição, o Papa Francisco concedeu uma entrevista “exclusiva” e distribuída desde 9 de março, “de casa em casa”. The New York Times, CNN, The Washington Post, Le Monde, Süddeustche Zeitung e outros grandes meios de comunicação continuarão na fila para conseguir uma entrevista com o líder da Igreja católica. Nessa ocasião, o Papa foi entrevistado pela La Cárcova News, a revista local de uma das favelas de Buenos Aires.

Bem, alguém pode pensar: a entrevista foi feita por algum jornalista voluntário esperto. Não: foi feita por um grupo de jovens das favelas que, em um dia de festa, conversando, bebendo “uns vinhos”, pensaram em entrevistar o “Padre Jorge”, como as pessoas das favelas se lembram do então Arcebispo de Buenos Aires.

 

Aproveitando as escolas de verão, jovens, adolescentes e adultos do centro de recuperação da Igreja de San Giovanni Bosco [São João Bosco], recém inaugurada pelo Pe. “Pepe” (José María di Paola), receberam as contribuições de quase 600 pessoas que enviaram uma pergunta ao Papa, conta Alver Metalli, de Buenos Aires, ao jornal católico Avvenire.

 

Foram eliminadas as perguntas repetidas, as frases compridas e, no fim, os corajosos jovens “jornalistas cidadãos” de Buenos Aires interrogaram o Papa sobre temas inteligentes: o conceito de periferia, as drogas, o narcotráfico, a política, os relacionamentos virtuais, os jovens-museu, o segredo da vida, a possibilidade de um atentado.

 

Sair do centro para ver melhor

Foram distribuídas 2.500 cópias da revista com a entrevista exclusiva. Os voluntários as distribuíram na região, deixando uma para cada família; e faltou uma semana para a impressão, por causa dos poucos recursos econômicos disponíveis.

É uma publicação do povo para o povo. É uma entrevista que celebra o estilo do pontificado de Francisco, um Papa da periferia para as periferias, que não se esquece do centro, o qual não exalta como opção, porque a opção é chegar aos últimos.

O Pontífice pede para sair do centro para observar melhor: “À medida que vamos saindo do centro, descobrimos mais coisas. E quando olhamos do centro, a partir das coisas novas que descobrimos, a partir de nossas novas posições, a partir dessa periferia, vemos que a realidade é diferente”, explica.

O Papa fala também da visão de periferia que influencia a pessoa. “Você pode ter um pensamento bem formado; porém, quando você se confronta com alguém que está fora desse pensamento, de alguma maneira você tem que buscar suas próprias razões, começa a discutir, se enriquece a partir da periferia do pensamento do outro”, acrescentou.

O triunfalismo dos traficantes de drogas

Em sua resposta sobre a questão do progresso das drogas no mundo, o Bispo de Roma denunciou que “existem países que já são escravos da droga”. Ele se preocupa com “o triunfalismo dos traficantes”.

“Existem países ou áreas onde tudo está sob domínio da droga. Em relação à Argentina, posso dizer apenas isto: há 25 anos, era um lugar distante da droga; hoje em dia, o consumo está presente; eu não tenho certeza, mas acredito que a droga é produzida ali também”, declarou.

Os jovens lhe perguntaram pela participação política no Bairro de Cárvoca e na Argentina. “É necessária uma plataforma eleitoral clara. Que cada um diga: nós, se formos eleitos, vamos fazer isso. Bem concretamente. A plataforma eleitoral é muito sadia, e ajuda as pessoas a conhecerem o que cada um pensa. Além disso, é preciso honestidade na apresentação da própria posição”.

O Papa defendeu uma “campanha eleitoral” não financiada para evitar “interesses” que depois cobram da democracia. “É um ideal, evidentemente, porque o dinheiro sempre faz falta; porém, em todo caso, que o financiamento seja público. Assim, eu, como cidadão, sei que estou financiando tal candidato com tal determinado valor. Que tudo seja transparente e limpo”.

O crescimento e a mudança pessoal

Os jovens entrevistadores lhe perguntaram como ele consegue tanto otimismo e se ele acredita na mudança das pessoas que foram “provadas pela vida”.

“Toda pessoa pode mudar, inclusive as que são mais provadas”, respondeu Francisco. A esse respeito, propôs duas certezas: a primeira, que “a pessoa é imagem de Deus e Deus não despreza sua imagem, sempre a resgata”. E segunda: “a força do próprio Espírito Santo, que transforma a consciência”.

O Papa garantiu que é questão de fé na pessoa, porque é filha de Deus. “Deus não abandona seus filhos”, assegurou.

Relações virtuais versus relações verdadeiras?

O Papa sustenta que as relações precisam do contato físico. “Você pode amar alguém; porém, se não pega em sua mão, se não lhe dá um abraço, não é amor”. Dessa maneira, insistiu que o “amor virtual não existe, existe a declaração de amor virtual, porém o verdadeiro amor prevê o contato físico, concreto”, explicou.

Nesse contexto, pediu “não jovens-museu”, informados virtualmente, mas jovens que “sintam e levem adiante sua vida com suas próprias mãos”.

Escutando, a pessoa se enriquece

“Nunca me foi difícil escutar as pessoas. Cada vez que as escuto, sempre me sinto bem. Porque ainda que não concorde, sempre, sempre, elas lhe falam algo ou o colocam em uma situação na qual você tem que repensar suas coisas. E isso o enriquece”. O Pontífice pediu aos jovens para que não se anulem a eles mesmos, fechando “a porta na cara” do outro.

Finalmente, perguntado se tem medo diante da existência de fanáticos que querem matá-lo, Francisco confessa: “Olhem, a vida está nas mãos de Deus. Eu disse ao Senhor: Vós cuidais de mim. Porém, se vossa vontade é que eu morra ou que me façam algo, peço-vos apenas um favor: que não me cause dor. Porque eu sou muito covarde para a dor física”.

Fonte: Aleteia.org

A edição de “La Carcova News” com a entrevista / composição de Emiliano Rodriguez, a cargo de Alver Metalli

Vossa Santidade fala muito de periferia. É uma palavra que usa muitas vezes. No que Vossa Santidade pensa, quando fala de periferias? Em nós, nas pessoas das favelas?

Quando falo de periferia, falo de limites. Normalmente, nós nos movimentamos em espaços que, de alguma forma, controlamos. Esse é o centro. Porém, à medida que vamos saindo do centro, descobrimos mais coisas. E quando olhamos do centro a partir das coisas novas que descobrimos, a partir de nossas novas posições, a partir dessa periferia, vemos que a realidade é diferente. Uma coisa é ver a realidade a partir do centro e outra coisa é vê-la a partir do último lugar onde se chega. Um exemplo. A Europa, vista de Madri no século XVI, era uma coisa; porém, quando Magalhães chega ao extremo do continente americano e olha para a Europa, a partir dali entende outra coisa. Vê-se melhor a realidade a partir da periferia do que a partir do centro. Também a realidade de uma pessoa, das periferias existenciais, inclusive a realidade do pensamento. Você tem que ter um pensamento bem formado; mas quando você se confronta com alguém que está fora desse pensamento, de alguma maneira você tem que buscar as suas próprias razões, começa a discutir; você se enriquece a partir da periferia do pensamento do outro.

Vossa Santidade conhece nossos problemas. A droga avança e não se detém, entra nas favelas e ataca nossos jovens. Quem precisa nos defender? E nós, como podemos nos defender?

É verdade, avança e não se detém. Existem países que já são escravos da droga e isso nos preocupa. O que mais me preocupa é o triunfalismo dos traficantes. Essa gente já canta vitória, tem triunfado. E isso é uma realidade. Existem países ou áreas onde tudo está sob domínio da droga. Em relação à Argentina, posso dizer apenas isto: há 25 anos era um lugar distante da droga; hoje em dia, o consumo está presente. Eu não tenho certeza, mas acredito que a droga é produzida ali também.

O que de mais importante devemos dar aos nossos filhos?

A pertença, a pertença a um lar. A pertença se dá com amor, com carinho, com tempo, levando-os pela mão, escutando-os, brincando com eles, dando-lhes o que precisam em cada momento para seu crescimento. Acima de tudo, dando-lhes lugar para que se expressem. Se você não brinca com seus filhos, está privando-os da dimensão da gratuidade. Se você não lhes dá espaço para que eles falem o que sentem e possam até discutir com você, porque se sentem livres, não está deixando que eles cresçam.

Porém, o mais importante é a fé. A mim, me dói muito quando encontro crianças que não sabem fazer o Sinal da Cruz. Para essas crianças, não chegou o que de mais importante um pai e uma mãe podem lhes dar: a fé.

Vossa Santidade acredita que sempre existe a possibilidade de mudança, tanto em situações difíceis de pessoas que tenham sido provadas pela vida, como em situações sociais ou internacionais que são causa de grandes sofrimentos para a população. Como consegue esse otimismo, inclusive quando poderia cair no desespero?

Toda pessoa pode mudar, inclusive as mais provadas. Eu conheço pessoas que viviam desesperadas e atualmente estão casadas, têm um lar. Isso não é otimismo, isso é certeza em duas coisas. Primeiro, no homem, na pessoa. A pessoa é imagem de Deus, e Deus não despreza sua imagem, sempre a resgata de alguma forma. E segundo, na força do próprio Espírito Santo, que muda a consciência. Não é otimismo, é fé na pessoa, porque é filha de Deus. Deus não abandona seus filhos. Gosto de repetir a frase: nós, os filhos de Deus, erramos o tempo todo, nos equivocamos, pecamos; porém, quando pedimos perdão, Ele sempre nos perdoa. Não se cansa de perdoar. Somos nós que, quando acreditamos que somos importantes, nos cansamos de pedir perdão.

Como se pode chegar a estar confiantes e ser constantes na fé? Quero dizer: vive-se entre altos e baixos; em alguns momentos, tem-se consciência da presença de Deus, de que Deus é um companheiro de caminho; porém, em outros, a pessoa se esquece disso e se comporta como se Deus não existisse. Pode-se alcançar uma estabilidade em um tema como o da fé?

Sim, há altos e baixos. Em alguns momentos, somos conscientes da presença de Deus; outras vezes, nos esquecemos disso. A Bíblia diz: a vida do homem, da pessoa sobre a terra é como o serviço militar. Quer dizer que você precisa estar em paz e lutando. Preparado para não desfalecer, não baixar a guarda; e, por outro lado, aproveitando as coisas belas que Deus lhe dá na vida. Ou seja, é preciso estar alerta. Não ser derrotista, não ser pessimista.

Como ser constante na fé? Se você não se negar a senti-la, vai senti-la muito próxima, vai encontrá-la em seu coração. Outro dia, pode ser que não sinta nada. Mas, com certeza, a fé está lá, certo? É preciso acostumar-se com o fato de que a fé não é um sentimento. Às vezes, o Senhor nos dá a graça de senti-la; porém, a fé é algo mais. A fé é meu relacionamento com Jesus Cristo; eu creio que Ele me salvou. Esse é o ponto central da fé. Procure nos momentos de sua vida quando você estava mal, quando estava perdido, quando não conseguia se agarrar em algo e observe como Cristo os salvou. Você abraçou a isso, essa é a raiz da fé de cada um. Quando você se esquece, quando não sente nada, você abraça isso, porque essa é a base de sua fé. E sempre com o Evangelho na mão. Leve um pequeno livro do Evangelho no bolso. Tenha-o em casa. Ali está a Palavra de Deus. Ali se alimenta a fé. Depois de tudo, a fé é um presente, não é uma atitude psicológica. E se lhe dão um presente, você tem que abri-lo, certo? Receba, então, o presente do Evangelho e leia-o. Leia-o e escute a Palavra de Deus.

A vida de Vossa Santidade tem sido intensa, rica. Nós também queremos viver uma vida plena, intensa. Como se faz para não viver inutilmente? E como alguém pode saber se não vive inutilmente?

Bem, eu já vivi muito inutilmente, sabem? Não foi tão intensa e tão rica. Eu sou um pecador como qualquer um. Acontece que, simplesmente, o Senhor me faz fazer coisas que podem ser vistas; porém, quantas vezes existem pessoas que não são vistas e que bem elas fazem! A intensidade não é diretamente proporcional ao que a gente vê. A intensidade, se vive por dentro. E se vive alimentando a mesma fé. Como? Fazendo obras de fecundidade, obras de amor para o bem das pessoas. Talvez o pior pecado contra o amor seja o de renegar uma pessoa. Existe uma pessoa que ama você, e você a renega, fazendo como se não a conhecesse. Ela está amando você e você a renega. Quem mais nos ama é Deus. Renegar Deus é um dos piores pecados de hoje em dia. São Pedro cometeu esse pecado, renegou Jesus Cristo… e o fizeram Papa! Então, o que sobra para mim? Por isso não… Vamos seguir em frente!

Vossa Santidade tem perto de si pessoas que não concordam com o senhor?

Sim, com certeza.

Como Vossa Santidade se comporta com elas?

Nunca me foi difícil escutar as pessoas. Cada vez que as escuto, sempre me sinto bem. Quando não as escutei, me senti mal. Porque ainda que você não concorde, sempre, sempre, elas lhe falam algo ou o colocam em uma situação na qual você tem que repensar suas coisas. E isso o enriquece. É a maneira de comportar-se em relação àqueles com quem não concordamos. Agora, se eu não estou de acordo com alguém e deixo de cumprimentá-lo, fecho-lhe a porta na cara ou não deixo que fale, não lhe pergunto nada, é evidente que me anulo a mim mesmo. Essa é a riqueza do diálogo. Dialogando, escutando, você se enriquece.

A moda atual empurra os jovens para as relações virtuais. Na favela também acontece isso. Como se pode fazer para que saiam do mundo de fantasia e ajudá-los a viver a realidade e as relações verdadeiras?

Eu faria distinção entre o mundo da fantasia e as relações virtuais. Às vezes, as relações virtuais não são de fantasia, são concretas, são coisas reais e muito concretas. Porém, evidentemente, o desejável é a relação não virtual, ou seja, a relação física, afetiva, a relação no tempo e no contato com as pessoas. Acredito que o perigo que nós corremos atualmente é o de ter uma capacidade de informação muito grande, de poder nos mover virtualmente dentro de toda uma série de coisas que podem nos levar a nos convertermos em jovens-museu. Um jovem-museu tem bastante informação; porém, o que ele faz com tudo o que tem? A maneira de ser fecundo na vida não passa pelo acúmulo de informação ou mantendo apenas comunicações virtuais, mas sim mudando o concreto da existência. Em última análise, quer dizer amar.

Você pode amar alguém, porém, se não pega nas mãos dela, se não lhe dá um abraço, não é amor; se ama alguém para casar, ou seja, com o desejo de se entregar completamente, e não a abraça, não lhe dá um beijo, não é verdadeiro amor. O amor virtual não existe. Existe a declaração de amor virtual, porém o verdadeiro amor prevê o contato físico, concreto. Vamos ao essencial da vida. E o essencial é isso. Então, não jovens-museu, que são informados apenas das coisas virtuais; mas jovens que sintam e que com suas próprias mãos – aqui significa o concreto – levem adiante sua vida. Gosto de falar das três linguagens: a linguagem da cabeça, a linguagem do coração e a linguagem das mãos. Tem que haver harmonia entre as três. De tal forma que se pense no que se sente e no que se faz, sinta o que se pense e naquilo que se faz, e faça o que sente e o que pensa. Isso é concreto. Ficar apenas no plano do virtual é como viver em uma cabeça sem corpo.

Há algo que Vossa Santidade queira sugerir aos governantes em um ano de eleições?

Primeiro, uma plataforma eleitoral clara. Que cada um diga: nós, se eleitos, vamos fazer “isto”. Bem concreto. A plataforma eleitoral é muito sadia, e ajuda as pessoas a ver o que cada um pensa. Em uma das eleições, há muitos anos, houve um caso importante sobre algo que alguns jornalistas espertos fizeram. Mais ou menos na mesma hora, encontraram-se com três candidatos. Não me lembro se eram candidatos a deputados ou a prefeitos. Os jornalistas perguntaram a cada um: o que você pensa sobre tal coisa? Cada um deu sua própria resposta e a cada um deles o jornalista disse: “Porém, o que você pensa não é o que o pensa o Partido que você representa. Veja a plataforma de seu Partido…”. Às vezes, os próprios candidatos não conhecem a plataforma eleitoral. Um candidato precisa apresentar-se à sociedade com uma plataforma eleitoral clara, bem estudada, dizendo explicitamente: “Se for eleito deputado, prefeito, governador, vou fazer ‘isso’, porque acho que ‘isso’ é o que é preciso fazer”.

Segundo, a honestidade na apresentação da própria posição. E terceiro – é uma das coisas que temos que conseguir, tomara que consigamos – uma campanha eleitoral gratuita, não financiada. Porque nos financiamentos das campanhas eleitorais, entram muitos interesses que depois serão cobradas. Então, é preciso ser independente de qualquer pessoa que possa financiar uma campanha eleitoral. É um ideal, evidentemente, porque sempre falta dinheiro para os cartazes, para a televisão. Porém, em todo caso, que o financiamento seja público. Assim, eu, cidadão, sei que estou financiando tal candidato com tal determinado valor. Que seja tudo transparente e límpido.

Quando Vossa Santidade vem para a Argentina?

A princípio, em 2016; entretanto, nada está muito certo ainda, porque é preciso programar outras viagens com outros países.

Escutamos pela televisão notícias que nos machucam, que existem fanáticos que querem matá-lo. Vossa Santidade não tem medo? E nós que gostamos do senhor, o que podemos fazer?

Olhem, a vida está nas mãos de Deus. Eu disse ao Senhor: Vós cuidais de mim. Porém, se vossa vontade é que eu morra ou que me façam algo, peço-vos apenas um favor: que não me cause dor. Porque eu sou muito covarde para a dor física”.

Fonte: La Cárcoca News

 Original em espanhol. Tradução para o Português: Maria Rita Fanelli Vianna – São Paulo / Brasil  

Etiquetas: , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *