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Colocado em 2021-07-26 In A Aliança de Amor Solidaria em tempos de coronavírus, Schoenstatt em saída

Experiência, necessidades e desafios durante e após a pandemia do Covid 19

CHILE, Verónica Del Fierro G. •

A pandemia mostrou-nos a fraqueza, os medos, a capacidade de adaptação e a resiliência perante a face mais dura do fracasso terapêutico com os nossos pacientes, a dolorosa perda de colegas de trabalho e familiares, testando a nossa capacidade de nos erguermos e confiarmos nos nossos conhecimentos, improvisando espaços para frequentar e multiplicar terapias, estudando e actualizando-nos em todos os cursos on-line de novas terapias ventilatórias e farmacológicas. Quando? No pouco e escasso tempo livre que restava, adiando um pouco mais o ansiado descanso. —

Como se dá apoio a equipa que se dirige como chefe (pouco mais de 300 pessoas), a quem se tem de guiar através de uma experiência desconhecida e perigosa, um salto para o vazio… onde a vida posta em acção é tão radical e muito, muito mais do que aplicar os conhecimentos da medicina de cuidados intensivos? Desistindo da sua vida!, desistindo da sua família para não os expormos, dos seus amigos, do mundo…

Com o passar dos dias, começamos a experimentar as necessidades mais prementes. Equipas aterrorizadas e paralisadas no início, cada pessoa com o seu próprio discernimento, sem muito tempo para compreender, o hospital absolutamente isolado, sem familiares, sem capelães ou padres, sem voluntários, apenas os doentes e o pessoal de saúde …..

A resposta surge: Vamos procurar juntos o significado desta experiência! (com uma ênfase personalizada). Despertamo-nos uns aos outros, humanizando-nos e identificando-nos com frases motivacionais:

  • Porque onde há escuridão, levaremos a luz.
  • Os doentes tocam e transformam a vida.
  • Cuidar é amar.
  • É o desafio da nossa geração, aquele que permanecerá na história da humanidade.
  • A Morte faz parte da Vida.
  • Cuidar do corpo, mente, alma e espírito das pessoas que o necessitem.

Para os crentes, a Palavra e o testemunho a todos é:

  • Viver e morrer no Evangelho”.
  • “Eu vim para dar a vida e a vida em abundância”.
  • “Não há maior amor do que dar a vida pelos próprios amigos”.
  • “O Sim de Maria e o meu próprio Sim com Ela para viver na Vontade de Deus”.
  • “Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida, ganhá-la-á”.

Para aqueles que acreditam numa vocação de serviço com espírito altruista:

  • Para o herói ou heroína que há em cada um dos nossos corações.
  • Pela alegria de cada paciente que se recupera.
  • Pelo luto e pelas lágrimas em oração por cada pessoa que faleceu nos nossos braços e por cada videochamada com os nossos telemóveis que deram conforto e alegria ao Doente e à sua família.

Fomos os seus pais, mães e irmãos, os seus assistentes espirituais e até recebemos “confissões” antes da sua morte, que guardámos com respeito e sigilo.

Acompanhámos muitas pessoas na morte… segundo os religiosos, com o espírito camiliano ou “Padres da Boa Morte”, como lhe chamam aqui na América Latina, temos tentado transformar tragédias em “páscoas”, mas também partilhámos as suas curas no trânsito pela doença, para recuperar e regressar à vida e a uma cura integral, com muitas conversões belas para a fé.

Desafios durante a Pandemia: Acolher e Fortalecer

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Santuário do Trabalho

Fortalecer a fé, estabelecendo um lugar especial, um pequeno e simples Santuário do Trabalho mariano no meu gabinete onde há imagens de Cristo na cruz e de São Camilo, o pão da palavra, uma vela que se acende quando qualquer funcionário sente que deve fazê-lo, onde pode aliviar a sua dor e preocupação em aliança com Maria, onde pode partilhar, chorar e ser fortalecido, com liberdade.

Fazer sobressair o melhor de cada um, acolher a dor de enfrentar diariamente o sofrimento e a morte, ajudar a despertar na pessoa aquele lugar de ESPERANÇA, que dá alegria e felicidade na alma para estar a dar cuidados humanizados, que faz ressonância com a vocação nos dons dados por Deus e reconhecê-los em si próprio, na CARIDADE.

Receber os cuidados dos outros. Muito importante, a medicina natural da terra, dos Povos Originais, para conhecer e receber a medicina natural, Mapuche (uma medicina ancestral) com as orações de um Machi, que nos ajudou e acompanhou neste processo. Tenho funcionários mapuches, que permitiram uma harmonia e uma corrente de amor e integração, de ajuda mútua, partilhando a riqueza das espiritualidades, num diálogo inter-religioso sempre acompanhado pela proclamação de Cristo, único mediador e salvador.

A ancoragem nas comunidades eclesiais que com a sua oração permanente me apoiaram até à data, a Família Camiliana Leiga do Chile, a União Apostólica das Mães de Schoenstatt.O cuidado dos civis, empresas que nos enviaram mensagens de encorajamento, acompanhadas de presentes, refeições, pequenos-almoços, cremes para o cuidado das mãos e dos rostos.

Desafios pós-pandémicos

Acompanhar o pessoal de saúde com instâncias como estas, com programas renovados de participação, independentemente das suas crenças, com a linguagem universal do amor, onde a experiência de vida é partilhada, não só a psicológica, onde a vida pode ser iluminada, a partir daquele núcleo sagrado e profundo de cada ser humano que permite a cura interior e com facilitadores que compreendem que, nesta pandemia, Cristo e Maria caminharam verdadeiramente connosco, estiveram presentes, despertando respostas pessoais diferentes, mas semearam em todos os corações….

A pandemia no hospital foi terreno fértil que a Igreja deve saber interpretar como um sinal dos nossos tempos e sair para conquistar os corações semeados e tocados por Deus, com diferentes graus de fecundidade, nos quais a imagem de Cristo e Maria, a mãe, estão sem dúvida latentes.

Creio que o desafio da actual situação pós-covid e as mudanças culturais nos obrigam, como Igreja, a fazer uma leitura sensível e detalhada, que consiga gerar novos cenários de mudança e inovação na evangelização, para o cuidado da Humanidade, após o contexto de dor e sofrimento, entendendo que a importância do verdadeiro Amor, está no comum, como São Francisco, que dá a sua vida pelo cuidado dos outros; como São Camilo, que cuida deles com espírito materno, como se fossem o seu único filho doente. Há muitas pessoas anónimas que levaram a cabo este cuidado.

Após a pandemia, temos de compreender que o importante é o cuidado holístico de cura-salvação.

O cuidado da saúde também anda de mãos dadas com a medicina da terra numa “ecologia integral”, como diz o Papa Francisco na sua encíclica Laudato Si’. Cuidar do nosso corpo é também cuidar do nosso território em todos os seus aspectos, reconhecendo o valor da medicina natural e a sabedoria dos nossos Povos Indígenas.

Muitas pessoas foram feridas, mas “a saúde não é a ausência de doença, mas o equilíbrio que nos permite viver com ela para crescer no Amor”.

Sem dúvida uma experiência que desafia fortemente a vocação, os valores, as crenças, os medos e o auto-conhecimento. Cuidar das pessoas como se fosse a nossa própria vida é um caminho de sobrevivência mútua com os doentes, sem ainda compreender o significado e que obriga a pessoa ao discernimento diário para agir. Qual é o limite de se dar e expôr a sua própria vida pela vida de muitos outros?

¡Uma experiência de verdadeiro Amor!

 


Verónica Del Fierro é membro do Ramo dos Casais de Bellavista, da União das Mães e dos Colaboradores da Ordem dos Camelianos, que acompanha a dor e a morte dos doentes. Enfermeira Chefe da Unidade de Cuidados Intensivos Hospitalar do Hospital Padre Alberto Hurtado.

Fonte: Revista Vínculo, Chile, Julho de 2021. Com autorização

Original: espanhol (24/7/2021). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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