Colocado em 18. Fevereiro 2019 In José Kentenich

Uma “biografia contada” de José Kentenich

ALEMANHA, Mons. Dr. Peter Wolf

A nova biografia de Dorothea Schlickmann sobre o Fundador do Movimento de Schoenstatt surpreende pelo subtítulo (Uma vida na borda do vulcão) que, no decurso da leitura se revela muito apropriado. A autora, doutorada e reconhecida pelas suas profundas publicações sobre a história de Schoenstatt, apresentou uma biografia altamente informativa do Padre Kentenich. Ela própria lhe chama “biografia contada”. A omissão das notas de pé de página, torna a longa biografia fácil de ler. Ao mesmo tempo, a autora, dá ao leitor a segurança de que as partes narrativas estão baseadas em documentos históricos. As citações originais de José Kentenich estão sempre assinaladas.—

Em muitas recordações, consistentemente, documentadas, são capturadas, a luz e a sombra da infância. Fala-se, abertamente, sobre o nascimento ilegítimo e das suas consequências, frequentemente, dolorosas. Inclusivamente, o jovem Kentenich não se salva de um tempo no orfanato. Numa carta fictícia da mãe, a autora fala do que aconteceu no orfanato de Oberhausen junto à estátua de Maria e revela, com delicadeza, o que a “consagração a Maria da criança de nove anos” veio a significar na sua vida futura. José quer ser sacerdote, uma coisa impossível naquele tempo para um filho ilegítimo. Através do Pe. Savels abre-se um caminho para os Pallottinos que, dão formação a missionários com destino a África. Assim, o jovem Kentenich chega a Ehrenbreitstein.

Lutas da juventude

 Com o início do noviciado, em Limburgo, agudiza-se a situação do, já jovem adulto de 19 anos. Vem a seguir, a época das “lutas de juventude” que o levaram, no sentido mais verdadeiro, ao abismo. Imediatamente a seguir, chega um tempo de doença que ameaça a sua vida (tuberculose). Como aluno muito dotado que foi, vê-se no começo dos estudos confrontado com a irrupção da filosofia moderna. Trata-se, essencialmente, da questão da verdade. Queria fazer o contraditório dos argumentos e lia, também, filósofos como Kant e escritores como Nietzsche que estavam no Index (Nota da Redacção: lista de livros proibidos pela Igreja, revogada pelo Papa Paulo VI em 1966). Isto produz nele sérios conflitos. No fim dos estudos, a sua admissão à profissão perpétua quase fracassa por causa da opinião de um dos seus professores. Para José Kentenich a fé sempre foi um risco.

Em 8 de Julho de 1910 é ordenado sacerdote em Limburgo e continua os seus estudos por mais um ano. Termina os estudos brilhantemente e chega a Ehrenbreitstein como professor de latim e de alemão. É o tempo das suas primeiras experiências pedagógicas, durante o qual, põe em prática um novo estilo de tratamento com os alunos baseado na confiança. Depois, vem o tempo como Director Espiritual em Schoenstatt e surge a fundação que é contada de modo erudito.

Enfrentar a loucura

No capítulo seguinte chegamos ao tempo do nacional-socialismo. Kentenich reconhece, imediatamente, o perigo da ideologia pardacenta e tenta ganhar influência, especialmente, nos círculos de sacerdotes e, entre os homens e as mulheres com vocação pedagógica. A biografia menciona dados concretos de participantes nos seus cursos para sacerdotes e nas suas Jornadas pedagógicas por toda a Alemanha e na Suíça, numa escala que, até agora, não tem sido tida em conta pelo público. Sob o título “Enfrentar a loucura” encontra-se a história de Franz Reinisch que, foi o único sacerdote que se negou a prestar juramento de fidelidade a Hitler e foi castigado com a morte.

O Padre Kentenich foi o único que o acompanhou e lhe deu forças nesta decisão de consciência. Em Setembro de 1941, o Padre Kentenich foi preso e acontece, portante, o momento de “obscuridade” na prisão da Gestapo, em Coblença. Ao fim de mais de quatro semanas, é libertado da obscuridade sem quebrantos e transferido para a prisão numa rua próxima, a das carmelitas. Aí decidir-se-á a ir para Dachau.

A autora consegue, numa linguagem concisa, visualizar, de maneira realista, a situação do campo de concentração de Dachau, e, criar consciência sobre os objectivos das SS e as consequências das diversas medidas tomadas pelos prisioneiros. Em meio destas condições desumanas, a biografia tem José Kentenich no primeiro plano e trata de rastrear o modo como lidou com a realidade do campo de concentração. Ela informa sobre a decisão de receber correspondência proibida e de ditar livros inteiros em verso para dirigir, de longe, a sua fundação. Os presos tinham medo e censuravam-no por isso.

Depois da libertação do campo de concentração de Dachau regressa a Schoenstatt, onde é recebido no dia 20 de Maio de 1945. Mas, não foi para descansar nem para celebrar. Ele tem, ainda, grandes planos. Vê a grande tarefa de processar a culpa infinita que a Alemanha assumiu. Está comprometido na formação das suas comunidades. Está envolvido na fundação de uma comunidade de sacerdotes diocesanos e na comunidade do Instituto das Senhoras de Schoenstatt. Tenho um grande respeito pela honestidade, com a qual, também são abordadas, no livro, as dificuldades internas. Isto ajuda a compreender melhor o desenvolvimento e garante a fidelidade histórica desta biografia.

Visitação e exílio

A isto, seguem-se dois capítulos condensados sobre as tensões com a Igreja e o exílio. Dorothea Schlickmann, muitas vezes, chama as coisas pelo seu nome. José Kentenich não se intimida. Quer que o Bispo de Trier e a Conferência Episcopal se ocupem de Schoenstatt. Insiste em que venha uma “comissão de estudo”. Mas, em lugar de uma “visita” vem a “visitação”, com tudo o que esta palavra desencadeia de suspeita. A conclusão do Visitador confirma, primeiro que, Schoenstatt é uma obra de Deus e está de acordo com a doutrina da Igreja. Na prática, também há, inconvenientes e perigos.

Dois meses depois, chega uma carta do Bispo Auxiliar que, ainda que, mantenha um acordo dogmático, apresenta objecções substanciais no campo pedagógico e critica, veementemente, as Irmãs de Maria, colaboradores e o Fundador. Agora, o Fundador vê-se obrigado a agir. Inicia uma resposta pormenorizada, a chamada “epístola perlonga”.

Nas páginas seguintes da biografia, a autora mostra os passos dados pelo Bispo Auxiliar Stein na Congregação religiosa, em Roma, para a Visitação Apostólica, o que vai implicar a participação do Santo Ofício. O Visitador é o Prof. Tromp SJ. Durante a discussão acerca da visitação, fica claro: querem retirar, de Schoenstatt e da sua Fundação, o Padre Kentenich. O Santo Ofício pede-lhe que renuncie voluntariamente a todos os cargos, de contrário, só regressaria à Europa no caixão. A sua resposta é: voluntariamente, nunca. Se é uma ordem, imediatamente. A biografia mostra a amarga e escura situação e o seu desespero humano.

Seguem-se 14 anos de exílio. Aprende-se muito sobre o tempo em Milwaukee/Wisconsin, Estados Unidos. E, a difícil situação na Alemanha. Descobrem-se os planos já prontos para a assinatura da dissolução da comunidade das Irmãs de Maria. A biografia descreve, abertamente, novas acusações e censuras contra o Fundador. Finalmente, o exílio está no ponto em que muitos o veêm como um Pastor da comunidade alemã, sem terem conhecimento da história da visitação. Lá, ele é um Pastor de corpo e alma. Mas, chegou o momento de inflexão na época do Concílio. Trata-se da independência de Schoenstatt por ordem da Santa Sé.

 “Regresso”

O último capítulo intitula-se “Regresso”. A biografia resume o regresso de Milwaukee e a morte do Fundador. Um telegrama cuja origem ainda não foi, completamente, esclarecida, chama a Roma o Fundador. Mas, aí ninguém reconhece ter enviado o telegrama. Este telegrama, mais uma vez, acarreta o maior risco para os esforços no sentido do regresso do Fundador. Mas, rapidamente, chega a decisão do Vaticano, não precisa regressar e o caso dele é entregue ao Ofício para a Congregação Religiosa. Esta revoga os decretos do Santo Ofício. O Fundador regressa a Schoenstatt em 24 de Dezembro de 1965.

A isto, seguem-se três anos completos com a sua fundação que, ele usa para um número infinito de encontros e para a expansão do Movimento. Morreu em 15 de setembro de 1968, a seguir à primeira celebração eucarística na recém-construída Igreja da Adoração, onde está enterrado, precisamente, no lugar da sua morte. No seu túmulo encontram-se as palavras DILEXIT ECCLESIAM. A biografia mostra que este amor pela Igreja não foi fácil para ele.

Josef Kentenich
Ein Leben am Rande des Vulkans

de Dorothea Schlickmann

Editora Herder, 2019
344 páginas
ISBN: 978-3-451-38388-5

 

Original: alemão (3/2/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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