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Colocado em 2021-10-19 In obras de misericórdia, Schoenstatt em saída

Caminhar juntos rumo a um NÓS cada vez maior

CHILE, Rolando Orellana e Monchi Pisani •

“Foi uma imagem desoladora que deu a volta ao mundo. Colchões, cobertores, roupas, brinquedos de crianças e até fraldas pertencentes a um grupo de venezuelanos, tudo queimado enquanto uma multidão de manifestantes gritava slogans contra os estrangeiros…”, podia ler-se no final de Setembro, por ocasião do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, no website da BBC Mundo. Xenofobia, ódio contra os migrantes, violência contra eles e desprezo pelas suas vidas, as razões da sua emigração, as consequências no corpo e na alma deles, especialmente nas crianças: uma preocupação do Papa Francisco e de muitas pessoas de boa vontade, olhando para o que acontece aos migrantes na Europa, em África, no Médio Oriente, nos Estados Unidos, e também no Chile. Concretamente em Iquique, onde um casal do Movimento Apostólico de Schoenstatt leva a sério a cultura da Aliança. —

Ontem provavelmente viram a notícia do despejo de imigrantes em Iquique e hoje viram a notícia de uma marcha contra a imigração.

Gostaria de partilhar convosco a nossa relação, ou melhor, a relação de Monchi, com esta pobreza sem esperança, sem casas de banho, sem privacidade, sem comida, sem trabalho, sem nada. Não o sabíamos, nem o conhecíamos.

Iquique - migrantes | Fuente: Cooperativa Iquique

Estamos todos no mesmo barco e somos chamados a comprometer-nos para que não haja mais muros a separar-nos (Papa Francisco)

Sabemos, ou pensamos saber, que no nosso Chile há muitos irmãos e irmãs na pobreza, mas eles não são desprezados pelos seus pares. Têm um lugar para se aliviarem, mesmo que não seja uma casa de banho com azulejos. Têm a possibilidade de serem tratados com algum atraso num hospital, mas isto é diferente, é o mundo dos sírios, dos palestinianos, dos judeus na Alemanha nazi, é triste.

Monchi na última semana tem sido capaz de ajudar vários. Essencialmente tem sido dar dignidade e empatia, incluindo três famílias jovens, com crianças por nascer, deixadas numa residência do Hogar de Cristo para saírem da tenda na praia durante algumas semanas.

Também ajudámos dois jovens a encontrar trabalho, partilhámos lanches, comprámos pelo menos 2 carrinhos de bebé, 4 tendas e vários sacos-cama. Há uma necessidade tremenda.

Hoje vimos na televisão a marcha contra os imigrantes e sentimos vergonha, tristeza, raiva, angústia… esperamos nunca estar numa situação como esta, com pessoas à nossa volta que estão satisfeitas e que nos rejeitam.

Tivemos um fim-de-semana muito diferente. Experimentámos a dor de muitas pessoas imigrantes. Centenas de venezuelanos vivem na praia, famílias com crianças, bebés, todos refugiados na praia… é difícil olhar para baixo sem reparar neles.

migrantes | Fuente: Cooperativa Iquique

A jornalista venezuelana

Há um mês atrás estávamos a caminho para almoçar num lugar agradável perto da praia e encontrámos muitas famílias a dormir no Paseo, que costumava ser um lugar habitual para todas as pessoas aqui na cidade, mas agora estava ocupado. Estávamos a caminho de um restaurante para almoçar e, o que poderia ter sido um passeio particularmente relaxado, foi o momento de contacto com a realidade que tínhamos estado a observar durante algum tempo: uma mãe muito jovem com duas meninas pequenas, uma de 2 anos e outra de 3 meses nos braços e a mãe fez o gesto de puxar a orelha da menina e ela começou a chorar sem compreender porquê. Na minha mente, a situação extremamente difícil que todos eles vivem, a tristeza, a incerteza, o cansaço, a falta de futuro, a fome, o frio, o abandono social e humano, tudo! Tudo a fez agir assim com a sua pequenina. Tive o impulso de ir falar com ela, ou melhor, de a ouvir e abraçá-la, e no meu coração pedir-lhe perdão!

O meu pai deu-me uma nota para lhe passar (é o que temos feito com muitas famílias que temos encontrado, também levei compras e coisas às famílias que vemos da nossa janela, mas não tinha sentido a tremenda ligação que senti com ela). E, enquanto lha dava, as suas lágrimas saíam com enorme tristeza. Explicou-me, sem que eu dissesse nada, que a sua filhinha estava a ser arrancada e ela estava sozinha, o marido tinha ido buscar algo que lhe tinha sido oferecido, tinham acabado de sair do abrigo de manhã e tinham sido colocados em quarentena e agora não sabiam o que fazer.

Ela era jornalista e os seus documentos tinham sido roubados. Dei-lhes carinho e partimos com a firme intenção de regressar. Fomos ao restaurante e entrar lá foi diferente, não foi a mesma coisa como se nada tivesse acontecido. O meu coração estava apertado, grato por estar com o meu marido, não tinha vontade de comer e ofereci-o a Deus.

Falámos muito sobre o assunto e decidimos comprar-lhes uma tenda. Voltámos a perguntar-lhes se tinham recebido uma e descobri que havia alguns rapazes do Hogar de Cristo que lhes tinham trazido sanduíches e lanches, e que também tinham recebido uma tenda. Deixei-lhes mais dinheiro para que pudessem comprar um chip para o telemóvel para lhe poder telefonar. Fiz-lhes biscoitos, assim como lhes trouxe sopa, roupa e artigos de higiene pessoal… mas não consegui encontrá-los. Procurei-os com afinco e disseram-me que tinham desaparecido.

Cheias de esperança de que se iriam sair bem aqui

Conheci duas raparigas, com uma menina de 10 meses, que tinham acabado de chegar e ainda não tinham feito a quarentena, porque tinham pago para serem trazidas da Bolívia para cá, pelo que não fizeram a papelada em Colchane. Elas eram super giras e, com um tremendo optimismo, não conheciam ninguém, claro, por isso dei-lhes todas as coisas, incluindo o carrinho. Estavam muito felizes, cheias de esperança de que se iriam sair bem aqui.

Era trágico, porque estava muito ansiosa por não os encontrar, e quando me aproximei destas raparigas e elas me disseram que tinham acabado de chegar, vi-as com o bebé nos braços e ofereci-lhes coisas. Quando me despedi abracei-as e comecei a chorar, foi estranho, porque elas confortavam-me a mim!

Hoje um amigo meu recordou-nos o seguinte: a Sagrada Família eram imigrantes, estavam numa terra estrangeira, ninguém os recebia, todos lhes fechavam as portas, ninguém os recebia para receber a chegada de Cristo!


Para eventual ajuda financeira que gostassem de canalizar através de Monchi para ajudar os imigrantes, façam-no por favor para a sua conta: Banco Estado / Conta RUT: 7395857 / RUT: 7395857-1 /Para eventual ayuda económica que quieran canalizar a través de Monchi para ayudar a los inmigrantes, favor hacerlo a su cuenta: Banco Estado / Cuenta RUT: 7395857 / RUT: 7395857-1 / [email protected]

Fonte: Vinculo, Outubro de 2021. Com autorização

Original: espanhol (17/10/2021). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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