Colocado em 2017-03-01 In Artigos de Opinião

Não vos inquieteis

Pe. Óscar Iván Saldivar, Paraguai •

Queridos irmãos e irmãs

O Evangelho deste Domingo (Mt 6, 24-34) continua a desenvolver o tema da “Justiça superior” que Jesus propõe aos Seus discípulos (cf. Mt 5,20), a “Justiça do coração”. E fá-lo partindo da perspectiva do serviço a Deus e da confiança plena n’Ele.

Ninguém pode servir a dois senhores

No primeiro versículo do texto evangélico Jesus diz-nos “Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.» (Mt 6.24). As palavras de Jesus são claras “Ninguém pode servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Se queremos participar plenamente do Reino dos Céus – neste tempo e no tempo futuro – se queremos viver essa “Justiça superior” que procede de um coração totalmente entregue a Deus, então temos que nos decidir. E, justamente, Jesus apela à nossa decisão quando nos adverte: “Ninguém pode servir a dois senhores”. E, ninguém o pode fazer porque ninguém pode entregar totalmente o seu coração a dois senhores ao mesmo tempo. Temos que nos decidir. Com isto, Jesus aponta-nos uma profunda verdade humana e existencial: somente a uma pessoa, a um sonho, a um ideal, ou a uma realidade podemos entregar o coração. Porque o coração humano está feito para se entregar de forma indivisa.

Quando nos pomos a repartir bocados do nosso coração aqui e ali, então tropeçamos com a mediocridade, com a frustração. Experimentamo-lo no dia-a-dia: nas nossas relações pessoais, nas nossas decisões laborais e nas nossas mais profundas opções de vida.

Também na vida espiritual precisamos de nos decidir. Se queremos seguir Cristo, tem que ser com o coração inteiro, não pela metade. Como diz o Rumo ao Céu: “O Senhor que deu tudo por nós não Se contenta só com metade da nossa vida: quer por inteiro a alma e o coração, e não o brilho pálido de uma entrega medíocre” (R. C. 411)

Não vos inquieteis quanto à vossa vida

Se nos decidimos por servir plenamente a Deus, por Lhe entregar o nosso coração de forma indivisa, então não nos devemos inquietar quanto à nossa vida. (cf. Mt 6,25). No texto evangélico que acabámos de proclamar o termo “inquietar” aparece cinco vezes de diversas maneiras: “Não vos inquieteis quanto à vossa vida”; “Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?”; “Porque vos preocupais com o vestuário? “, “Não vos inquieteis”; “Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã”. Jesus não desconhece o facto de que precisamos de comida e de roupa e, que isto pode, muitas vezes, preocupar-nos; mas ensina-nos que a procura destes bens deve ser enquadrada na procura do Reino de Deus e da Sua Justiça (cf. Mt 6,33). Jesus não quer que nos deixemos cair na “procura excessiva das coisas terrenas, o esforço febril e o ciúme angustiante, o afã egoísta em que Deus não desempenha nenhum papel nem é tido em consideração” [1]

Quem vive a sua vida orientado, exclusivamente, para a obtenção de bens materiais e para a satisfação egoísta das suas próprias necessidades, não pode ser verdadeiro discípulo de Jesus. Quem não partilha os seus planos e projectos com Deus, não procura com fé a Sua vontade no dia-a-dia, ou já não espera a Sua intervenção providente na vida quotidiana, é um Homem de pouca fé (cf.Mt 6,30), ou um Homem que não experimentou na sua vida que Deus é “o Pai que está no Céu” e que, cada um de nós, é verdadeiramente valioso aos Seus olhos (cf. Mt 6,26). O Homem de fé – discípulo de Jesus e filho do Pai providente – escuta no seu coração a reconfortante palavra de Deus: “Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria” (Is 49,15). E, quando as preocupações lhe pesam na alma, desafoga o seu coração em Deus porque Ele é o seu refúgio (cf. Salmo 61,9),

Santidade da vida diária

Jesus convida-nos a procurar primeiro “o Reino de Deus e a Sua Justiça”, dizendo-nos que tudo o que precisamos nos será dado por acréscimo. Como podemos responder concretamente a este apelo do Senhor? O Padre José Kentenich propõe-nos o caminho da “santidade da vida diária” para respondermos concretamente a este apelo de Jesus. Em que consiste esta “santidade da vida diária?”

“A santidade da vida diária é a harmonia agradável a Deus entre a vinculação profundamente afectiva a Ele, ao trabalho e ao próximo em todas as circunstâncias da vida”.[2]

Assim como Jesus, o Pe. Kentenich ensina-nos a viver uma intensa vida com Deus, vida de santidade, no meio dos nossos afazeres e afãs mas, de tal forma que, a vinculação a Deus, ao trabalho e aos nossos irmãos se desenrole numa harmonia agradável a Deus. Aí está o segredo da santidade quotidiana. Não em fugir dos nossos compromissos e preocupações mas, em os pôr sempre em contacto com Deus; integrá-los na nossa vida espiritual. E que, o nosso amor a Deus, a nossa vida com Deus, vá dando o seu justo lugar a cada relação, a cada tarefa e a cada preocupação. “Não vos inquieteis”. Somos convidados, não ao afã e à inquietação mas, ao trabalho sereno e à harmonia de coração que nasce de uma profunda vinculação a Deus em todas as circunstâncias da vida. Procurando Deus em tudo o que fazemos, receberemos o necessário para a nossa subsistência e uma paz de coração que, nada nem ninguém nos poderá arrebatar.

A maria, Mãe da Serenidade, pedimos-Lhe que nos ensine a procurar em tudo “o Reino de Deus e a Sua Justiça” para que, assim, sejamos verdadeiros discípulos de Jesus na vida quotidiana. Amén.

[1] W. TRILLING, O Novo testamento e a Sua Mensagem. O Evangelho segundo S. Mateus. Volume(Herder, Barcelona 1980), 159s
[1] NIEHAUS (ED), Santidade, ¡Agora! Santidade da vida diária. Textos do Pe. José Kentenich (Editorial Patris, Santiago de Chile 2005), 31.

 

Original: espanhol. Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

Fotografia: Igreja Santa Maria de la Trinidad, Johana Goodacre.

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