Colocado em 2. Março 2017 In Projetos, Schoenstatt em saída

“Deus permite a separação matrimonial para um bem maior”

ESPANHA, por Patricia Navas em Aleteia.org •

A sua separação matrimonial converteu-a numa perita em fechar feridas afectivas. Há mais de dez anos que María Luísa Erhardt escuta e acompanha pessoas separadas através de um serviço católico por ela orientado em Espanha conhecido pelo nome do lugar onde Jesus descansava: Betânia. Nesta entrevista a Aleteia ela comparte o seu processo de cura e afirma: “quando Deus permite a separação, é sempre para um bem maior”.

¿Que sofrimentos comuns experimentam geralmente as pessoas separadas?

As separações não são todas iguais, dependem de factores distintos. Não é o mesmo se separar por abandono, por traição, porque a convivência é impossível, porque há incompatibilidade, porque não havia verdadeiro amor e compromisso, mas ilusão e se confundiu com enamoramento, ou desejo que se confundiu com amor,…

É então distinta a ajuda de que cada um necessita…

Evidentemente, cada pessoa precisa de respostas distintas. Betânia oferece uma reposta personalizada; Deus concede o dom do discernimento sempre que gratuitamente nos colocamos ao Seu serviço.

À medida que vamos recuperando, descobrimos que havia fardos anteriores a impossibilitar-nos de sermos livres para eleger.

Em matrimónios bem constituídos ou que depois se foram transformando pela graça de Deus existem também fardos, mas nestes casos, Deus permitiu a separação sempre para um bem maior, tanto para a pessoa, como para o cônjuge, os filhos, a família,…

Isto é muito difícil de entender porque muitas pessoas partem para uma separação depois de elas mesmas terem criticado os separados, julgando-os,… E agora vêm-se na mesma situação por eles anteriormente criticada. E isto também é uma cura da sociedade através das pessoas com feridas.

¡Quantas vezes fazemos juízos e temos preconceitos das pessoas que não satisfazem as nossas expectativas! E não somos Deus, para julgar nem criticar ninguém.

Não foi nomeio dos meus êxitos que mais vi a Deus, mas nas minhas feridas, porque é aí, na fragilidade, onde uma pessoa tem a oportunidade de se abrir.

Muito raramente Deus cura através dos êxitos, mais habitual é que Ele o faça através das feridas, aí onde o homem nada pode: é o homem frágil que atrai o amor e a misericórdia de Cristo. É no coração ferido de cada uma dessas pessoas, que se abre, que nós aprendemos a ler o amor de Cristo.

¿Como podem ser aliviados esses sofrimentos?

O que primeiro fazemos ou procuramos fazer é escutar para conquistar o coração, porque na medida em que uma pessoa conquista o coração do outro, entregando-lhe o seu próprio, essa pessoa se abre.

Nesta sociedade o difícil é abrir o coração. Ensinaram-nos a defender-nos, a fechar o coração, a desconfiar, a fazer juízos e a ter preconceitos.

O que procuramos em Betânia é conquistar o coração, mas isto não se pode fazer, se nós primeiro não entregamos o nosso próprio. A autoridade, não se reduzindo a uma submissão, só se recebe a partir da conquista do coração, visto que ela nos é oferecida pelo tu.

E fazemo-lo, respeitando os tempos de cada um. Os que estão preparados para ver com objectividade a sua história de vida e reconhecer seus erros, podem entrar em Betânia para fazer esse processo de cura.

Se eu estou fechada, porque me sinto frustrada e fracassada, porque meu matrimónio não respondia ao meu projecto, e busco culpáveis, quer dizer que o centro continuo a ser eu, e nestes casos não podemos fazer muito por acompanhar a pessoa.

Em toda a relação há uma responsabilidade mútua. Já não posso falar de culpabilidade, porque não havendo vontade ela não existe, e além disso as culpas bloqueiam. Nas nossas decisões temos que ter conhecimento e responsabilidade.

Se tivermos um maior conhecimento de nós mesmos, poderemos modificar e reparar. Isto liberta-nos dos fardos que temos. Nestes processos, com a graça de Deus, cada um aprende a perdoar-se a si mesmo. Só Deus cura e salva.

¿Como superou o seu fracasso matrimonial?

Eu não o considero fracasso. Nunca o considerei assim. Nem todos os separados consideram que a sua situação é um fracasso. Nem eu quando me separei. Isso é o primeiro de tudo.

Quem me guiou, quem vai curando meu coração e meu ego foi sempre o Senhor. Hoje vejo minha separação como a oportunidade na qual de ver me encontrei com Cristo.

Antes de separar-me busquei ajuda em livros de autoajuda, psicólogos e  psiquiatras, mas em um dado momento dei-me conta que nem eles nem os coachers ajudavam à minha alma, ao meu coração. Davam-me umas pautas, mas eu buscava mais: a cura da minha pessoa, a recuperação do meu ser.

Então conheci o Santuário de Schoenstatt, fiz a Aliança de Amor com Maria e disse-lhe: “se de verdade és minha mãe e através de ti Deus me quer curar, aqui estou”.

Só pus meu sim a estar aí, a ir ao menos uma vez por semana, não muito mais, e assim se foi modificando meu coração e meu pensamento. É preciso darmos um sim, senão Deus não pode fazer nada.

Quem me curou a mim foi Deus. E à medida que eu ia curando, repercutia-se nos meus filhos. Deus está comigo e, ainda que eu seja infiel, Ele é fiel a mim.

A Aliança de Amor foi a princípio da minha cura. Maria tomou-a a sério. Eu não acreditava, era muito cética, mas Ela me tomou pela mão e continua a tomar-me cada dia.

Nunca fui tão feliz como quando me deixei fazer feliz. O problema é quando não nos deixamos fazer; quando o centro sou eu e com meus raciocínios humanos me construo um muro no qual não posso escutar e não confio senão em, mas o amor de Deus é tão grande e sua paciência tão infinita……

¿Como se pode evitar sentir ódio, após uma separação matrimonial?

Consegue-se quando se olha para si mesmo e reconhece que também tem erros, quando deixa de culpabilizar só a outra pessoa, de esperar e de exigir que os outros o façam feliz. Quando se descobre, a minha felicidade não está nos outros nem deles depende, mas está dentro de mim.

Começamos então a dar-nos conta que o outro sabe tanto como eu e quando se descobre que o outro também caiu em enganos (por exemplo, para conseguir que me amem mais, dependi demasiado, fui mais escrava, deixei-me maltratar, humilhar,…).

Outro passo importante é aprender a perdoar-se a si mesmo,… o mais difícil não é que Deus me perdoe, mas que eu me perdoe e que eu perdoe. Isto é difícil, porque estamos muito centrados em nós mesmos.

A mim me ajudou muitíssimo primeiramente identificar isto e despois pensar: se agora Jesus Cristo aparecesse e eu lhe pedisse que me perdoasse porque fui orgulhosa, soberba, porque feri ou porque me pus por cima dos outros e os pisei, a primeira coisa que me iria preguntar é esta: ¿perdoas a quem te feriu a ti?

Se não perdoamos aos que nos feriram ¿que direito temos de pedir a Deus que nos perdoe?  Se não perdoo, não cresço, porque estou atada ao rancor e ao ressentimento e isto me diminui como pessoa, perdoar liberta-nos, é o mais sadio do mundo… Deus não pode estar no rancor e ressentimento. O rancor, o ressentimento,… são as ataduras al mal, então dependo do mal, escolho o mal.

O amor de Deus é tão grande que me deixa escolher entre o bem e o mal. Depois tenho a grande sorte de que o Senhor me perdoa sempre, mas se não perdoo não vou a ser capaz de receber a verdadeira libertação do perdão de Deus.

A cura do perdão é o mais precioso, cada vez que perdoamos de coração o nosso amor se assemelha ao amor de Deus. Quando saímos de nós mesmos para perdoar, estamos assemelhando-nos a Deus. O verdadeiro poder está no amor.

Quando se começa a entender isto, começa-se a perceber a Deus apesar de todos os erros, feridas, pecados: de ter abortado, de ter recebido abusos sexuais, de uma separação,… o amor de Deus vence apesar de tudo e o perdão é o poder de Deus, que nós oferecemos também aos homens. O perdão é um dão que é preciso pedir a Deus.

Para Cristo era uma oportunidade todo aquele que estava fora de la lei, fora da norma, e Betânia quer igualmente seguir seus passos, sem juízos nem preconceitos, mas como oportunidade para que Cristo se mostre nessa pessoa com o seu amor. Respeitando-a e amando-a como ela é, não como queremos que ela seja.

O tempo é um dom para a conversão e o perdão. Chegar a isto é o tesouro da felicidade neste mundo, sem importar que as circunstâncias sejam difíceis. 

¿Como se faz para que as crianças possam crescer em harmonia, quando seus pais estão separados?

As crianças são as vítimas inocentes e precisam das duas referências, da paterna e da materna. O maior erro e dano que podemos fazer a nossos filhos é tira a fama a seu padre ou a sua mãe, falar mal do outro, tirar-lhe a autoridade… É necessário proteger os filhos de nossos ódios e rancores. Eles têm direito a ter pai e mãe.

Os filhos são as vítimas da separação, não a causa. Houve uma infidelidade, incluso um assassínio,… a causa encontra-se nos dois pais.

Todos somos responsáveis: um maltratador não existe, se eu não me deixo maltratar. Aqui há uma série de responsabilidades por carências na educação, por medos. E tudo isso, se não o soubemos fazer bem no matrimónio, são fardos para nossos filhos.

Na separação, os filhos sentem-se inseguros, e necessitam experimentar o amor incondicional. É cruel utilizar os filhos falando mal do outro, ou usando-os como armas de arremesso. Os mais inocentes e indefesos numa família são os filhos, é preciso protegê-los mais, incluso aos pais, porque são os mais frágeis, ainda que os pais tenham de passar por uma cura pessoal.

 

Fonte: www.aleteia.org

Maria Luisa Erhardt é um membro da Federação das Mães.

Original: espanhol. Tradução: P. Manuel Alves, Braga, Portugal

Dez anos da Betania Espanha

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