Colocado em 2016-09-15 In Schoenstatteanos

Situar o outro na luz adequada: Theresia Zehnder

ALEMANHA, María Fischer •

Era uma cálida tarde de julho de 2012, no centro de Stuttgart, no luminoso apartamento de Theresia Zehnder, mobilado com muito bom gosto. Já octogenária, até há poucos anos tinha trabalhado  como fotógrafa no seu próprio estúdio “Hostrup”. Tinha café e bolos sobre a mesa, enquanto se preparavam a câmara e o microfone. Uma profissional completa: “será que a minha foto vai ficar bem?” perguntou-me, “que não seja uma simples instantânea!”

Ela fez retratos, fotografou bispos, artistas e políticos. E também a Madre Teresa e o fundador do Movimento de Schoenstatt, Padre José Kentenich. E sente-se orgulhosa de que essas fotos do Pai sejam as únicas que se fizeram de forma profissional. Foto instantânea ou retrato. Estávamos a meio do tema antes que a câmara começasse a filmar.

A ideia desta entrevista surgiu durante um encontro da Academia Internacional Kentenijiana para Diretivos IKAF (em alemão: Internationale Kentenich-Akademie für Führungskräfte). O que ofereceu o Padre Kentenich a esta mulher profissional para toda a sua vida, uma mulher que sempre foi independente e estabeleceu na sua profissão os mais altos padrões de qualidade? E como encontrou ela o seu caminho em Schoenstatt e como plasmou a sua vida? Esta entrevista nunca se utilizou dentro do IKAF. Agora vale ouro. Theresia Zehnder faleceu na passada sexta-feira, 2 de setembro, aos 87 anos.

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O caminho para Schoenstatt: “para além da paróquia, até outras dioceses e outros países”

Theresia cresceu num ambiente religioso. “A minha mãe era muito religiosa. Íamos todos os dias à paróquia. A região de Schwäbisch Gmünd é muito católica! Mas isso não nos fez mal!”, disse sorrindo. Eram seis irmãos, três rapazes e três raparigas, com uma diferença de 20 anos entre o mais velho e o mais novo. Na paróquia era muito eficiente colaborando na preparação da Sta. Missa. “Tínhamos uma chefe que pertencia ao Instituto Secular Nossa Senhora de Schoenstatt. Ela levou-nos da juventude da paróquia para a juventude de Schoenstatt. Isso foi no início, logo depois da  segunda guerra mundial”. O que lhe interessou em Schoenstatt? “Era algo que ia mais além da paróquia, até outras dioceses e países”. Internacional, amplo, diverso. Isso foi o que atraiu Theresia.

Em 1950 teve uma profunda vivência com o Padre Kentenich. Durante o tempo da guerra, surgiu a imagem do “Jardim de Maria” para descrever o processo de responsabilizar-se mutuamente e de forma solidária na Aliança de Amor, a fidelidade e o compromisso mútuo, inclusive para além da dor: uma aliança entre o Pai e Fundador e a sua família que moveu os membros desta família a responsabilizarem-se radicalmente uns pelos outros convertendo-os em aliados. O Padre Kentenich incorporou neste processo os membros da Juventude Feminina e elas decidiram integrar esta vida de aliança. Theresia Zehnder esteve presente durante este acontecimento em Schoenstatt, no ano de 1950: “Fomos à sacristia e ainda recordo que a nossa chefe estava presente. Ela disse: ‘Pai, podemos dar-lhe a mão?’ E ele respondeu: ‘Quero que me deem as duas mãos’. Para nós esta situação era bastante normal: O Pai era simplesmente o Pai! Não pensávamos que ele era um grande homem, uma personalidade importante. As Irmãs de Maria andavam sempre em seu redor, mas para nós este sacerdote que tinha fundado Schoenstatt era alguém completamente normal”.

Era o meu tudo

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Theresia foi chefe diocesana da Juventude de Schoenstatt, viveu de forma intensa as jornadas com o Pe. Bezler em Schwarzhorn (Montanha nos Alpes, no Tirol, de 2.812 mts) e sentia-se profundamente motivada: “Lá em cima, no Schwarzhorn, enterrámos coisas e tivemos jornadas. Numa Semana Santa subimos a pé três vezes a Schwarzhorn, uma caminhada de três horas e meia Dormíamos todas no grande dormitório. O Padre Bezler ensinou-nos a comer lentamente, assim a última também conseguia terminar. Todas estas pequenas coisas significaram para nós o ser família. Logo me disseram em casa: Já agora leva a tua cama, assim podes viver todo o tempo em Schwarzhorn. Schoenstatt foi tudo para mim…“

Ela decidiu ingressar na União de Mulheres de Schoenstatt. Theresia respondeu a uma pergunta que não se fez: “Não quis ser Irmã de Maria. Essa opção pareceu-me muito estreita, demasiado estreita para mim. E não teria podido trabalhar mais na minha profissão”. Em Schoenstatt encontra-se toda a amplitude das vocações apostólicas: apostolado ao lado da profissão, apostolado na profissão, e ao serviço de todos os que optam por uma ou por outra ou uma mistura destas opções, e também existe o apostolado como profissão. Theresia Zehnder foi fotógrafa de corpo e alma. E a sua profissão converteu-se no seu apostolado. O que a fascinou na União de Mulheres? A sua resposta foi apenas uma palavra: “liberdade”.

O que se pode fazer apostolicamente como fotógrafa?

“O meu lema foi sempre: cada pessoa existe uma só vez. Se sou capaz de descobrir esta singularidade nas minhas fotografias, então é uma boa foto. Tenho que dedicar-me à pessoa, descobrir a sua personalidade. Tinha um estúdio fotográfico. Nunca fiz fotos técnicas. Rezei sempre a oração de consagração por cada cliente, durante trinta anos. Porque eu pensava: tenho que descobrir o que a pessoa representa. A maioria gostou da sua foto mas também houve muitos que não sentiram o mesmo porque se viam de forma diferente.

E de forma muito singela: “Enquanto tiro as fotos não posso falar de Schoenstatt aos meus clientes. Mas se consigo transmitir a alguém que é único, então isso é puro Schoenstatt”.

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Como se faz isso profissionalmente?

“Nunca digo: ‘ria-se!’ Digo: ‘pense em algo bonito!’ Essa é a diferença. Pode-se rir com os olhos ou com a boca, aí está a diferença. Algumas vezes diziam: ‘Oh, para mim não há nada bonito’. Os clientes mais difíceis eram aqueles que não se aceitavam a si próprios. Eram verdadeiramente difíceis”.

“Por exemplo, se tinha como cliente um guarda florestal que chegava com o seu casaco verde, ele sentia-se bem. O mesmo acontecia com um médico, que se sentia mais cómodo com a sua bata branca. Trata-se de ver e fotografar as pessoas no contexto a que pertencem. Fotografei muitos bispos. Foi muito mais fácil fotografar os bispos porque eram eles próprios e não quem queria fazer ressaltar o seu cargo. E a muitos fotografei-os várias vezes. Sim, fotografei muitos bispos. Numa ocasião, Mons. Georg Moser, bispo de Rottenburg Stuttgart telefonou-me e perguntou: ‘quer fotografar a Madre Teresa?’ Pediu-me que fosse ao Marienhospital e disse-me: ‘venha amanhã à hora do pequeno-almoço’. Na verdade, era ele quem queria ter fotos junto à Madre Teresa. As fotos foram feitas numa varanda, ao ar livre. A Madre Teresa foi muito natural, não deu nenhuma importância a si mesma”.

Empresária com a foto do santuário no seu estúdio

“Sempre tive uma foto do santuário no estúdio. E uma bastante grande! E mais de uma vez me disseram: ‘Oh, a senhora pertence a esse lugar’!”.

Como jovem mulher nos anos cinquenta, como lhe ocorreu a ideia de se converter em empresária?

“Um tempo trabalhei em Leverkusen, outro em Maguncia. Mas não gostei. Voltei a Stuttgart e ali fiz o meu exame de fotografia. Geralmente trabalha-se de forma independente, isso faz parte da profissão. As coisas foram naturalmente acontecendo: a dona do estúdio Hostrup, onde eu estava a trabalhar como empregada, queria terminar o seu trabalho a aí surgiu a questão: “quem iria dirigir o estúdio?” Tive sorte: a minha família tinha acabado de vender uma casa e recebi parte da herança. Era justamente a quantia que necessitava para comprar o estúdio”.

O Padre Kentenich disse-lhe alguma coisa enquanto empresária?

Foto & Copyright: Theresia Zehnder

Foto & Copyright: Theresia Zehnder

Sim, disse, e Theresia Zehnder ainda se lembra perfeitamente. Foi depois de uma série de fotos que ela tirou ao fundador, quando chegou o momento de poder falar:

“Meu Deus, de que vou falar com o Pai! Não o conheço muito bem”, essa foi a sua primeira reação. “Pensei: seguramente vai-me perguntar sobre o ideal do meu curso e sobre temas da União.

Em vez disso, ele perguntou-lhe:

‘Quanto custa o seu negocio e como o paga?’ E depois: ‘Se precisar de dinheiro, não se dirija a parentes, amigos ou família, mas peça ao banco. Ali paga interesses, mas é livre”.

Do exílio em Milwaukee o Pai escreveu-lhe uma carta por causa da aquisição do estúdio de fotografia: “Uma cordial saudação e bênçãos pela aquisição e nova responsabilidade com o negócio. Uma verdadeira filha de Schoenstatt deve arriscar um pouco”.

Quando Theresia falou com ele uns anos mais tarde sobre o desafio de ser chefe dos seus anteriores colegas, ele deu-lhe o seguinte conselho: “De algum modo, deve permanecer criança, assim conseguirá.  Desta forma é-se suficientemente forte para se ser chefe de outros. Existe uma certa distância quando se é chefe. Em algum lugar terá que estar em casa, mas noutro lugar”.

A “imagem do profeta“

Chegámos ao tema pelo qual Theresia Zehnder é conhecida em Schoenstatt. Como foi possível que tirasse esse retrato tão conhecido e tão bonito do Padre Kentenich?

“A ‘culpa’ foi da Irmã M. Zita”, esclareceu Theresia Zehnder. “Ela tinha tirado muitas fotos ao Padre Kentenich, mas disse-lhe: é maravilhoso o que fez, mas são só fotos instantâneas. Não quero ter só fotos instantâneas. Mas outras Irmãs não pensavam assim. Levaram o Pai ao meu estúdio quando estive em Stuttgart, que ficava só a quinze minutos da estação. Na estação tirei várias fotos e filmei. Aí tirei também a foto que foi escolhida para a estampa no ano de 1955. Essa é realmente a minha foto favorita do Padre Kentenich, porque ali aparece como o profeta”.

Em Stuttgart “acordámos que lhe tiraria umas fotos de estúdio. Desta vez algo realmente bem feito!” O Padre Kentenich concordou.

E sem esperar a pergunta, disse: “Existem tantas fotos dele! Nalgumas vê-se apenas uma barba branca e todos a acham fantástica, mas mais nada. Isso não pode ser. O Padre Kentenich é muito mais que uma barba branca”.

Os retratos em Würzburg

Foto & Copyright: Theresia Zehnder

Foto & Copyright: Theresia Zehnder

Chegou o momento no Centro de Schoenstatt da Marienhöhe, em Würzburg. Ali fizeram-se os retratos do Padre Kentenich. Theresia Zehnder recordou cada detalhe:

“Quando soube que o Padre Kentenich pediu que o barbeiro viesse um dia antes, senti-me mais tranquila. Pensei: ele leva isto a sério.

Levei todas as coisas que precisava: cheguei de comboio, junto com o grande tripé e a grande câmara! E pensava ao mesmo tempo: o meu exame de fotografia foi mais fácil que isto.

Disse-lhe: “Pai, quero ter uma imagem intemporal”.  Por isso fotografei-o sem sorriso. Não gosto quando há uma imagem com um sorriso na cara, isso não é intemporal. “Para a foto precisei de uma parede branca, uma mesa e uma cadeira, nada mais. O Padre Kentenich”, contou ela, “sentou-se na cadeira e perguntou: ‘estou bem agora?’ E passou a mão ao longo da sua barba pelo lado esquerdo e depois pelo direito. ‘Pai: o senhor está sempre bonito!’ – Não, nem sempre’.

As Irmãs estavam paradas junto à porta e observavam. Assim não podia trabalhar, apesar de toda a minha boa intenção. Então pedi a todas que saíssem. O Pai achou piada à minha atuação com as Irmãs. Mas eu disse-lhe: “Não consigo trabalhar se por trás de mim há uma série de pessoas a observar-me”.

Em meia hora estava tudo pronto. Com a grande câmara ocupei doze rolos de fotos. No total eram 8 a 10 fotos. Tinha um medo enorme. Se algo sai mal, pensei, não poderei voltar a pedir-lhe que pose para novas fotos! Estou feliz de ter feito essas fotos! Depois entreguei-lhe as fotos já reveladas”.

Theresia Zehnder teve um último encontro pessoal com o Pai e Fundador. E este encontro também foi especial: “Depois de uma conferência pediu-me que me aproximasse e perguntou-me: “Alguém lhe pagou as fotos? “Naturalmente ninguém tinha pensado nisso, pelo que lhe respondi: ‘Pai, isso não devia ser um problema para si. Estou feliz de ter feitos essas fotos”.

E num momento de reflexão acrescentou: “Essa meia hora com as fotos foram o ponto culminante na minha vida”.

 

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A entrevista foi possível graças a Bettina Betzner.

Original: alemão. Tradução: Maria de Lurdes Dias, Lisboa, Portugal

 

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