Verónica Ciudad Pap

Colocado em 2022-04-08 In Schoenstatteanos, Vida em Aliança

Uma mudança no Ramo das Mães do Chile que cria precedentes

CHILE, Marita Miranda Bustamente •

Verónica Ciudad Pap, uma parteira casada com dois filhos e dois netos, é um membro da Família de Agua Santa. A partir de agora, coordena as Assessoras dos Ramos das Mães em todo o Chile, posição que até agora só era ocupada pelas Irmãs de Maria. Nesta entrevista, ela diz que esta mudança abrirá um precedente no Movimento e fala-nos dos seus desafios, da sua luta contra o lúpus, da situação das mulheres na Igreja e da visão do Ramo sobre as acusações contra o Padre Kentenich. —

“Inspirar. Essa é a minha função, a minha tarefa”, diz Verónica Ciudad Pap sobre as tarefas que assumiu ao ser eleita como Assessora Nacional do Ramo das Mães, para coordenar o trabalho das Assessoras no país, que são maioritariamente Irmãs de Maria, juntamente com algumas leigas e para orientar o trabalho em cada lugar onde Schoenstatt se encontra no Chile. De acordo com o seu relato, a sua nomeação foi ideia da Irmã María Jesús Viada, responsável pelo Movimento no Conselho Provincial, do qual faz parte juntamente com outras quatro Irmãs. A proposta foi aprovada por elas e pelo Director Nacional. “Todas estavam felizes, todas aceitaram. Foi, tanto quanto sei, muito aberto e muito acolhedor”, conta feliz.

É parteira, casada com Joel Pérez, mãe de Alejandra e Guillermo e avó de dois netos. De facto, os primeiros a aderir ao Movimento foram os seus filhos. “Eu via a minha filha fazer Capital de Graças com estas pequenas lentilhas e dizia como isto é estranho”.

Entrou em Schoenstatt em 2003 e gostou desde o primeiro minuto. “Foi um antes e um depois para mim, porque tenho um passado não-Igreja”. Ela explica que a sua família não é religiosa embora tenha sido baptizada, mas optou por fazer a sua Primeira Comunhão e Confirmação por conta própria. “Foi um caminho onde Deus me escolhia nas diferentes fases da minha vida e me foi dando seguranças para poder seguir em frente com os problemas de saúde que me surgiram“.

No Ramo das Mães de Água Santa, ela selou a Aliança de Amor, depois a militância e o Jardim de Maria. Foi também chefe do Ramo e participou na Pastoral do Santuário.

Esclareceu que a sua nomeação como Assessora Nacional não foi repentina. Há algum tempo, foi convidada para um curso para dirigentes da Central do Movimento e, quando terminou, foi-lhe pedido que se encarregasse de assessorar os Ramos de Copiapó e Vallenar e, nos verões, de contribuir para a preparação dos dossiês do ano. Outras Assessoras leigas locais foram também nomeadas em locais como Chillán, Arica e a Região do Maule.

Qual acha que é hoje o principal desafio dos Ramos das Mães?

Verónica Ciudad Pap– Temos um grave problema no Ramo das Mães porque o Ramo está muito envelhecido, a entrada de jovens não se verifica. Temos de procurar formas de acolher outras situações de vida, não só as mulheres casadas pela Igreja e pelo casamento civil como até agora, mas estamos mais abertos às mulheres que têm um segundo casamento, porque são elas as pessoas que mais precisam de nós, que têm feridas, que talvez tenham sido tremendamente discriminadas pela Igreja e acredito que nós, com a nossa Aliança de Amor, podemos dar uma resposta maravilhosa a isso.

Na verdade, temos muitas experiências. No nosso Ramo há muitas mulheres que se encontram nessa situação, durante o processo em que estiveram no Movimento ou que entraram no Ramo nessas condições. E temos feito um bom trabalho. Este ano vamos também dar-lhes um workshop, para ver se cicatrizaram essas feridas e para lhes dar aquele acompanhamento.

Veronica acrescenta que o outro grande desafio está relacionado com a criação de uma ligação mais forte entre as senhoras e o resto da Igreja Católica, que é muitas vezes vista como estranha. “Penso que o Ramo, que é tão diverso, activo e motivado, pode dar uma contribuição maravilhosa da mulher na Igreja“, diz ela.

Isto é precisamente porque, para ela, não há nada de estranho na vida da igreja: “Sempre estive muito envolvida na Igreja. Eu adoro a Igreja. Eu adoro trabalhar com as paróquias, com as pessoas que trabalham nas paróquias”.

Verónica é a coordenadora pastoral da Paróquia de Santa Maria de los Ángeles em Reñaca (“Demiti-me hoje e eles disseram-me que não”, confessa) e é também activa na Diocese de Valparaíso, na área da formação. Durante a pandemia estava a dar assistência espiritual por telefone a todos aqueles que telefonavam (“ainda telefonam“, acrescenta). Como se isso não fosse suficiente, colabora com o acompanhamento das secretárias paroquiais para que se sintam parte da Igreja e não apenas como funcionárias.

Sobre as mulheres, o feminismo e a Igreja

A nova Assessora Nacional também se propôs a tarefa de ajudar as senhoras a irem mais fundo e a poderem discutir melhor as questões contingentes e sociais. Por exemplo, ela já programou uma série sobre teoria do género com Cecilia Sturla, uma estudiosa argentina de Schoenstatt.

O que pensa do feminismo e do papel da mulher na sociedade?

– O feminismo tem sido muito importante, tem tornado possível às mulheres estarem muito envolvidas nas esferas laboral, social, cultural e política.

Ela explica que esta ideia está muito presente nos membros mais novos, embora “as mais velhas que estão no Ramo ainda estejam com o sistema em que o marido lhes diz “Eu ajudo a lavar a loiça”, “Eu ajudo a levar o lixo para fora” (…). Mas há toda uma nova onda de pessoas que têm uma maneira diferente de pensar e acreditam que as mulheres têm de fazer parte da sociedade, e estou absolutamente convencida disso. Mas temos de o fazer sem perder a nossa feminilidade e saber que existe sempre um complemento, independentemente de sermos casadas, de termos ou não um parceiro, mas existe um complemento, tanto no trabalho, socialmente, culturalmente, porque cada um pode contribuir com o melhor de si próprio a partir do seu próprio ser.

Do seu extenso trabalho paroquial e diocesano, como vê o desenvolvimento das mulheres dentro da Igreja?

– A Igreja tem-se aberto à possibilidade de ter mais mulheres em posições mais importantes e o Papa Francisco já o fez explicitamente, mas penso que ainda há um longo caminho a percorrer e a Igreja é muito lenta a reagir. Terrível! Penso que se abriram, mas às mulheres consagradas, como se tivessem medo que os leigos fossem incorporados e acredito que nisto Schoenstatt está sempre um passo à frente.

Foi por isso que aceitei este desafio, porque acredito que é um precedente para o futuro e eles também estão a pensar em fazê-lo no Ramo dos Casais. Porque temos de estar abertos à realidade, temos de viver e dar uma resposta à realidade, ao que estamos a viver neste momento e penso que em Schoenstatt temos muitas respostas para isso. Creio que nós, leigos, temos de dar o passo.

Acabou de aludir ao ser das mulheres. Sabemos que o Pe. Kentenich dedicou grande parte da sua pedagogia a este assunto. Como têm vivido como Ramo as acusações contra o Fundador, que afectam especificamente as mulheres?

– Estamos todas à espera de respostas e vendo todo o processo, muito pendentes. Mas tomaram a atitude de que se ele cometeu abusos, temos de mudar os procedimentos, temos de mudar muitas coisas dentro do Movimento, para que possamos corrigir todos estes problemas e ver o Pai Fundador de uma forma diferente e não como o temos deificado até agora. Fui sempre muito crítica em relação a isso. E disse-o também ao Conselho de Assessores. Porque quando vim para o Movimento, não sabia se estavam a falar do Padre Kentenich ou de Deus Pai. E isto chocou-me no início e eu disse-o muitas vezes. Isto tem mudado muito no processo pedagógico. E as senhoras assumiram-no desta forma: que talvez tenha cometido erros, que é um ser humano, que fez algo que na altura não foi considerado com as medidas de hoje, mas que mudou a minha vida, eu sou outra pessoa, Schoenstatt é maravilhoso. O carisma que ele me deu é belo. Temos de esperar e não vou fechar a minha mente ao facto de que ele possa ter sido culpado e que seja ou não um santo.

A sua história pessoal não tem sido fácil. Como valoriza esta tarefa dentro do que tem sido a sua vida?

– Eu tenho lúpus e costumava ter crises. Crises muito graves. Três vezes na UCI a ponto de morrer e tudo. Na verdade, desenganaram-me e (disseram-me) que eu ia morrer aos 40 anos de idade. Fui diagnosticada com lúpus quando tinha 27 anos e recebi as minhas primeiras próteses da anca quando tinha 35, porque afectou muito os meus ossos, tive necrose avascular. Troquei de próteses, três vezes à direita, duas vezes à esquerda, e também tenho necrose num ombro. Mas a verdade é que Schoenstatt mudou-me, deixei-me conduzir pela Mãe e fiz tudo o que quis na minha vida. Nunca pensei que pudesse chegar a ter netos…tê-los, sim, mas não vê-los ou apreciá-los. Pedi a Deus que me concedesse algum tempo para que as crianças fossem mais velhas, para que estivessem um pouco mais formadas, para que tivessem a imagem da sua mãe. Mas nunca pensei chegar a este ponto e muito menos ser tão feliz e trabalhar naquilo em que estou a trabalhar. Tenho o apoio da minha família, o que é muito importante. O meu marido acompanha-me em tudo, ajuda-me, motiva-me, e os meus filhos também, é maravilhoso! Estou feliz e agora, com este tremendo desafio, vou fazer tudo o que estiver ao alcance das minhas forças para dar o meu melhor e que a Mãe e Jesus estarão comigo.

Fonte: Revista «Vínculo», Chile, Abril de 2022. Com autorização

Original: espanhol (7/4/2022). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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