Juan Ret

Colocado em 2021-09-15 In Vida em Aliança

Um eterno dia de Aliança

CHILE, Marita Miranda Bustamante •

Juan Retamal morreu atropelado em Agua Santa, quando atravessava a rua para chegar à Missa do dia 18. —

A 18 de Agosto choveu muito, depois de um Inverno evasivo. A maioria de nós chegou ao Santuário um pouco molhados e, apenas alguns notaram o acidente que tinha ocorrido na esquina de Agua Santa, alguns minutos antes do início da Missa. Os restantes de nós só ouvimos o rumor, que o Pe. Ivan Simicic confirmou com tristeza na Homilia: o nosso Juan Retamal Torres, membro da Família Cenáculo de Fundação desde 1971, membro do Ramo dos Homens e da Pastoral do Santuário, tinha sido atropelado.

Nessa noite, não houve hino da Família ou queima da Capital de Graças e a notícia foi confirmada após a bênção final: Juan tinha morrido.

Na nossa bandeira flamejante…

Corremos para a esquina, para encontrar Juan com o corpo coberto, à chuva, na atitude de uma criança, enquanto os carabineiros faziam os procedimentos e a sua família chegava. A Irmã M. Consuelo Cerda tinha-o acompanhado durante a Missa mesmo antes de o reconhecer, e agora chegámos, incrivelmente, para nos juntarmos às orações e aos cânticos. “Na nossa bandeira flamejante…” começou a Irmã Maria Carolina Miranda, e todos nós a seguimos, com as vozes tremendo.

“O que vivemos com a morte de Juan aos pés do Santuário foi terrível; foi muito triste e deixou uma dor que penetrou até às profundezas da nossa alma. É a dor de sentir que um de nós não chegou à Missa, mas consola-nos saber que foi a Mãe que Se apressou e foi ao encontro de Juan aos pés do Seu Santuário. Sinto que nesse dia também voltámos a experimentar-nos família, unidos na tristeza. Unidos em torno de Juan pudemos abraçar-nos, chorar juntos, cantar e rezar à chuva pela alma do nosso amado Juan”, relata Valentina Ansaldi, membro da Pastoral da Água Santa.

La familia de Juan: Su esposa María Elena, con sus hijos María Elena, María Gabriela, María José y Juan Francisco.

Família de Juan: a sua esposa María Elena, com os seus filhos María Elena, María Gabriela, María José e Juan Francisco.

“Boas recompensas”

A história de Juan Retamal é longa nesta Família, quando chegou como estudante de liceu, convidado por um amigo, num tempo polarizado, cheio de intensas discussões políticas. Orlando Valle, que o recebeu nessa altura na Juventude Masculina, diz que ali encontrou diversidade de pensamento e aprendeu a olhar para todos como irmãos. “Uma das coisas de que falávamos muito nessa altura era a necessidade de jovens líderes católicos. Com isso, ele identificou-se logo”, diz ele.

Depois Juan foi para a Juventude Universitária, a “Torre de David”, como é chamada em Água Santa, por causa do Ideal que o Padre Kentenich lhes deu nos primeiros tempos.

No Santuário também conheceu María Elena Dinamarca, pediu-lhe namoro um dia depois da Missa e o Padre Sidney Fones casou-os no mesmo local. Foi lá que trouxeram os seus quatro recém-nascidos: María Elena, María Gabriela, María José e Juan Francisco. Aí também celebraram o seu 25º aniversário de casamento e as suas três netas foram baptizadas.

No seu funeral, num dia raro de sol e ameno, também ao lado do Santuário, os quatro filhos lembraram-se dos seus dons e piadas engraçadas, mas sobretudo do seu amor e ternura incondicionais: “Foste pai e babá por vocação, “amansando”, como diria, qualquer pessoa que se aproximasse de ti. Deu carinho, atenção e um abraço de urso“, leram.

Esta vocação à paternidade é evidente porque, segundo o que a sua filha Maru (María Elena) partilha connosco, havia um prognóstico de que não poderiam ter filhos por razões de saúde: “O meu pai fez uma promessa: Se a Mãe lhes concedesse o milagre de serem pais, cada uma das raparigas que tivessem chamar-se-ia Maria (…). Nós somos as suas 3 Marias”.

Com a sua esposa, estavam num grupo de Casais, até que os seus membros partiram para outros destinos. Assim Juan chegou ao Ramo dos Homens, onde contribuiu para a fraternidade e sensatez, segundo Orlando Valle, Chefe do Ramo, mas também para a alegria. “Ele tinha um humor quase inglês. Não era o tipo de humor que nos fazia escangalhar a rir, mas sim o tipo de humor que nos faz rir de passagem, o tipo de humor que é rápido ou uma pequena piada (…). E que muitas pessoas não conseguiam compreender”.

No Ano de S. José, mostrou a sua admiração pela figura paterna e viril do marido da Mãe, rezando sempre a oração quando era a sua vez de subir ao ambão nas Missas dominicais e organizando o workshop sobre S. José, no qual participaram muitas pessoas.

Como membro da Pastoral, no Domingo, 15 de Agosto, três dias antes da sua morte súbita, foi responsável pela coordenação da Missa da Assunção de Maria e pela introdução do mistério da eleição da Mãe de Deus para ser levada directamente para o céu. Era muito importante para ele colaborar na Liturgia. Por esta razão, em 2015, relativamente à preparação para a Semana Santa, escreveu: “Uma vez, numa reunião de catequistas da Diocese, Mons. Gonzalo (Duarte) disse: “O trabalho pastoral tem um salário muito mau, mas uma excelente reforma“. Em ambos ele tem razão, mas não tinha bem razão, porque de vez em quando, também tem muito boas recompensas, como no nosso caso: conhecer-se, fazer amigos, entrar numa comunidade muito confiante. Sim, é uma recompensa muito boa participar no trabalho pastoral. E agora, a proclamar o Cristo Ressuscitado…”.

Su grupo de la Rama de Hombres de Agua Santa.

O seu grupo dos Homens do Ramo da Água Santa.

Poderia ter sido qualquer um. Mas não

Quando Juan cruzou Água Santa naquela tarde chuvosa, na esperança de chegar à Missa da Aliança, foi selada uma vida em que o vínculo com a Mãe e com o Santuário de Água Santa esteve sempre presente. “Ele podia esquecer-se do telemóvel, o meu pai era super aéreo, mas nunca o ‘Rumo ao Céu'”, recorda Maru. E a Mãe já o tinha salvo antes, há 30 anos atrás, quando nas suas longas viagens como comerciante, adormeceu enquanto conduzia. Nem um arranhão tinha, embora a única coisa que permaneceu intacta no carro fossem os distintivos da Mãe”.

Para Valentina Ansaldi, o acidente de Juan abalou-nos profundamente: “Poderia ter sido qualquer um, mas também o facto de ter sido Juan, um membro activo do Ramo dos Homens, da Pastoral, também nos faz agradecer por toda a sua entrega à Família, por toda a sua fidelidade ao longo dos anos. Creio que ele é um grande exemplo de dedicação até ao fim, essa dedicação profunda e completa em todas as áreas da sua vida”. Neste caso, Orlando Valle interpretou esta mensagem: “Quando se leva a sério a Aliança, Deus e a Mãe também a levam a sério. E depois chega o momento em que te dizem: “Preparado, tens a tarefa feita, para que possas permanecer calmo”. Mas ficar calmo não é ficar neste mundo deitado numa praia das Caraíbas a beber um daiquiri. Não é essa tranquilidade, não é essa paz: é a paz da missão cumprida”.

De facto, alguns dias mais tarde, o conselho de bairro apelou a um protesto de rua para exigir um semáforo no cruzamento de Agua Santa para evitar futuros acidentes. Vários membros da Família juntaram-se ao protesto e foi visto e ouvido na rádio, televisão, jornais e redes sociais. A paz a que Juan nos chama é trabalho e missão, não descanso.

Juan en el Santuario, junto a la imagen de su querido San José.

Juan no Santuário, ao lado da imagem do seu amado São José.

Fonte: Vínculo, Ed. Set. de 2021. Com autorização dos editores.

Original: espanhol (14/9/2021). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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