Colocado em 2020-09-03 In Vida em Aliança

Nas pegadas de São Pedro

ARGENTINA, Pe. Tomás D. de la Riva •

A poucos dias da Ordenação Episcopal do Padre Jorge González, membro da nossa comunidade, como Região dos Padres de El Plata da União dos Sacerdotes de Schoenstatt, queremos apresentar a nossa imagem de São Pedro (ainda em processo de elaboração), feita para o Santuário da Região. —

A ideia de realizar esta imagem surgiu durante a Jornada Anual da Região de 2017, com o objectivo de se conquistar São Pedro para a Comunidade, com base na figura do Papa Francisco como sucessor de Pedro e, de descobrir o valor da liberdade e da obediência profética do Pe. Kentenich a respeito da Igreja, Igreja que ele soube amar.

Inspirados nas palavras do autor, o Pe. Marcos Sarmiento, e numa meditação do Pe. Alejandro Blanco A., expressamos todo o simbolismo que está por trás desta imagem.

Olhando para cima

Antes de mais, encontramo-lo na mesma posição que o “São Pedro” de todos os Santuários: olhando para cima. Esta posição indica que “todo o seu ser está orientado para Maria e para o Seu Filho”. A atitude de Pedro é adorável. Evoca a cena da Transfiguração. É a de um súbdito  deslumbrado perante o esplendor da sua Rainha. “La Reina del Plata”, diz-nos o Pe. Alejandro.

Como  nos diz o Pe. Marcos, “encontramos São Pedro de pé, firmemente assente no chão, mas olhando para cima”. Isto significa que ele está com os pés apoiados, firmemente, no chão onde está o Pastor, mas em movimento, em tensão, a olhar para o céu, a olhar para a Mãe Santíssima”.

Mas, ao contrário dos outros Pedros, ele está descalço, o que significa que está em contacto directo com a realidade, com as pessoas, sem qualquer interferência. Isto é o que diz o Papa Francisco, “um pastor com cheiro de ovelha”, um pastor que entra no rebanho e tem um contacto real e concreto com ele.

Em direcção às Novas Praias

O movimento que tem para cima é o mesmo que, por sua vez, o empurra para a frente. Vemos isto nos detalhes dos pés (também se percebe no manto): o pé esquerdo está em movimento, deixando as Velhas Praias, enquanto o pé direito está firme, a chegar às Novas Praias.

Entre as duas margens, encontramos o barco da Igreja, guiado por Pedro, rumo às Novas Praias, no meio da tempestade, em direcção às Novas Praias do Tempo. Por sugestão de outro membro da comunidade, o Padre Adrián Martínez, encontramos outros barcos ao fundo: que querem representar Schoenstatt na Igreja (como uma comunidade de barcos), avançando no meio do mar, rumo às Novas Praias.

Uma nova forma de la liberdade

O Pe. Marcos diz-nos que “ao lado de cada pé vemos algumas cadeias, mas são cadeias quebradas, totalmente caídas”. Estão inspiradas no Cântico de Gratidão do livro Rumo ao Céu (612) que começa “Caíram as cadeias!” Pretendem ser um sinal da libertação total do Pe. Kentenich pela Igreja, desejada por todo o Movimento.

O Pe. Alejandro também nos esclarece: “Ele é PETRUS EX VINCULA DIMISIT, cuja liberdade se torna profética:  anuncia com a sua vida uma nova forma de liberdade. Livre dos (ex) laços das Velhas Praias que o ancoravam na lei, em hierarquias, ritos e costumes que, naturalizados, acabaram por atrofiar o sentido para a fina percepção do Mistério divino; substituído, finalmente, por vacas multicoloridas. Liberto de (ex) uma forma recuperada de Se manifestar o Mistério eterno: o deus absconditus, que se revela no vínculo da intimidade insondável da voz da alma, sem a tutela de normas externas. Esse deus absconditus imerso no coração para o qual o Homem dos Novos Tempos parece ter desenvolvido uma nova sensibilidade”.

Sabemos bem que, no mundo de Schoenstatt, é vital, em primeiro lugar, a própria liberdade, e juntamente com ela, a liberdade profética, que muitas vezes não é compreendida no momento histórico. Foi o que aconteceu com o Pe. Kentenich, que viveu uma nova forma de santidade caracterizada pela liberdade e obediência proféticas

Um poder sinodal

Na sua mão esquerda segura a chave, um sinal do poder Petrino. Esta chave é praticamente horizontal, porque o poder que esperamos de Pedro não é um poder vertical, à maneira da política e do autoritarismo, mas é um poder universal e fraterno, sinodal. Isto não lhe retira autoridade, mas, pelo contrário, aumenta-a.

Continuando com a chave, o Pe. Marcos diz-nos: “Na cabeça da chave está uma representação do Isipo¹. O que seria a paleta é também um Isipo com quatro Santuários, indicando os quatro pontos cardeais: é o desejo de chegar a todos. Quer significar o poder libertador que a Igreja tem para toda a terra, querendo ser Schoenstatto um precursor. Como diria o Padre Kentenich, à sombra do Santuário, se co-decidirão os destinos da Igreja… “.

Na sua mão direita está o livro que, em primeiro lugar, é a Palavra, mas que também significa a vida. É daí que surge uma esfera que representa o mundo de Schoenstatt: a integridade do mundo de Schoenstatt, como Deus o criou, como Deus o concebeu, através do Pai Fundador. Esta esfera está inspirada na imagem de São Pedro do Santuário de Belmonte-Roma, que até agora era o único com uma esfera, mas já não é.

Esta esfera, com a sua aura dourada, representa também “o tempo cósmico com o qual o Menino divino irá brincar agradavelmente”: Todo o tempo (Aion), a sucessão dos universos (Chronos), e o nosso próprio tempo, o  Tempo Novo em que vivemos hoje (Kairos). Pedro mantém a esfera em delicado equilíbrio sobre o livro. Desta forma, a Palavra procura engravidar do Tempo Novo num encontro íntimo, sem se confundirem, a fim de reservar espaço a outros universos para a Palavra”, como o Pe. Alejandro nos descreve.

Um São Pedro sacerdotal, um Pastor

Então, ao contrário de todos os “São Pedros” de Schoenstatt, Pedro tem a Casula, ou seja, ele é um São Pedro sacerdotal. Esta veste sacerdotal evoca a sua vocação de instrumento: ele não é a luz, ele é a lâmpada. Também tem o Pálio, feito de lã. É um símbolo do pastoreio e um lembrete de que devemos carregar as ovelhas nos nossos ombros, como o pastor fez na parábola da ovelha perdida.

Dois detalhes deste Pálio são dignos de nota. Por um lado, tem as pontas negras, que significam as pernas da ovelha perdida. Por outro lado, tem várias cruzes negras, em forma de Isipo, “para sublinhar insistentemente a sua clara missão: servir o coração do Tempo Novo com o Evangelho, oferecendo o seu próprio coração, como Roque e os seus companheiros, como Mama Antula, Pedernera, Longueville, Murias, Angelelli, Romero, e todos os corajosos herdeiros dos primeiros Padres evangelizadores de El Plata”, como nos lembra o Padre Alejandro.

Para chegar a todo este simbolismo, o artista, o Padre Marcos, com as contribuições dos irmãos da Região e inspirado por Deus e pela Mãe Santíssima, fez o primeiro desenho. Esto foi apresentado na Jornada Regional Anual de 2018, onde foi aprovado por unanimidade, tendo sido acrescentados, comunitariamente, alguns outros gestos e sinais.

Neste momento da história, confiamos a São Pedro a vida da nossa comunidade, o ministério episcopal de Jorge e a situação actual que, como Movimento, nos toca atravessar.

¹A lenda do Isipo.

Conta a lenda que, na altura do afastamento dos Jesuítas das colónias espanholas por ordem do rei Carlos III, o último membro da Companhia que teve de abandonar as missões do Paraguai e do norte da Argentina, lamentou ser separado do que tanto amava, vendo que o trabalho iria ruir e, que os seus irmãos índios ficariam indefesos contra o assédio dos comerciantes de escravos portugueses, chorou de joelhos aos pés de um Ysypó.

Naquele momento, a cruz que usava no seu hábito caiu do peito sem que o jesuíta reparasse e caiu ao lado da árvore onde ficou esquecida. As raízes do Ysypó, procurando alimentar-se daquele solo húmido, absorveram as lágrimas do último jesuíta e, com elas, levaram a sua cruz.

É por isso que, desde então, cada vez que um Ysypó é cortado transversalmente, a imagem da cruz pode ser vista gravada no coração do caule.

A lenda expressa, com as belas imagens típicas da poesia popular, o que o projecto evangelizador das Missões Jesuítas queria ser. Serviço à vida cultural da nação Guarani e dos povos Ameríndios. Não se tratava de esmagar uma cultura e fundá-la de novo, mas de regar as suas raízes, a fim de fazer florescer, em pleno, o seu poder vital.

Este belo sonho jesuíta de se aproximar de um povo com o Evangelho do respeito e da dignidade, apesar de ter sido enviesado pelos interesses mesquinhos da política europeia daquela época, é-nos oferecido hoje como um verdadeiro precursor daquilo a que a Igreja chama Inculturação da Palavra de Deus.

 

Original: Espanhol (1/9/2020). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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