Colocado em 2020-08-28 In A Aliança de Amor Solidaria em tempos de coronavírus, Vida em Aliança

Portadores de alegria ante o mistério da morte

ARGENTINA | Jimena Ciuró via iglesiamillennial.com

Álvaro, Sandro e Rafael são três jovens noviços de Schoenstatt que chegaram a Mar del Plata para fazer sua “prática” no Hospital Interzonal de Agudos Oscar Allende quando começou a quarentena em março. Em plena pandemia e com a expectativa de deixar-se surpreender por Deus através dos doentes, abriram seus corações sem medo e em liberdade, mesmo em meio às incertezas e dificuldades. No dia 20 de agosto voltaram ao noviciado no Paraguai com a certeza de “missão cumprida”, mas levando muitos nomes com eles e com uma experiência que marcou profundamente suas vidas e seus corações sacerdotais para sempre. — 

Álvaro del Santo tem 25 anos e é da Espanha; Sandro Koch tem 26 anos e é da Suíça e Rafael Silva, de 22 anos, é do Chile. Os três estão no segundo ano do noviciado dos padres de Schoenstatt e a casa de formação fica perto de Assunção, Paraguai. “O primeiro ano é fechado e a ênfase está na oração, em formar comunidade e discernir a vida. Depois chega o momento da prática de quase seis meses, através da qual saímos ao mundo. Partimos para a prática em grupos de três noviços para cidades da Argentina: San Luis, Mendoza e aqui. Trabalhamos em um hospital, nos encontramos com doentes, com o mundo do trabalho e com a família de Schoenstatt”, explicou Álvaro.

 

“Algo especialmente lindo que vivi todos os dias é a alegria dos pacientes”

Durante os cinco meses no Hospital Interzonal, os jovens trabalharam junto aos doentes, aprenderam a tirar sangue, fazer controles, higienizar os pacientes e, claro, a acompanhá-los no ouvir e na presença religiosa. “Algo especialmente lindo que vivi todos os dias é a alegria dos pacientes quando a gente estava. Estivemos como enfermeiros, mas é totalmente diferente, porque não tínhamos as obrigações deles; fazíamos o trabalho deles, nós os ajudávamos, mas vivíamos essa experiência de outra forma. Se eu ficasse um pouco mais de tempo com um paciente, não tinha problema, nós podíamos estar mais tempo, conversar e assim construíamos uma relação. O hospital é um lugar muito denso e forte e, ser portador desta alegria em vidas concretas, inclusive até a morte, foi muito impactante”, comentou Sandro.

“O que mais me impactou foi o mistério da morte, a doença, a dor que simplesmente não se entende e que acompanhávamos muito de perto. As pessoas, apenas pelo mistério da vocação, sentiam uma proximidade e compartilhavam conosco coisas muito íntimas por puro carinho, sem nenhuma resposta, e nós os acompanhávamos”, expressou Rafael, o mais jovem dos três noviços.

Por seu lado Álvaro, que é enfermeiro, disse conhecer o âmbito hospitalar, embora tenha notado a precariedade e a falta de infraestrutura e insumos e, mesmo assim, destacou: “O que mais me surpreendeu é que fomos como noviços, foi bem impactante poder ver Jesus na outra pessoa e no que aquela pessoa te compartilha, também o que se gera por ser seminarista.  Também levo comigo muitas histórias, através das quais fui testemunha da fé das pessoas e do atuar de Deus na vida delas. Como dizia Sandro, sobre a alegria mesmo em meio a adversidades, lembro-me de um dia que levei o violão porque era aniversário de uma paciente e foi incrível como todos os enfermeiros se uniram e acompanharam o canto e a paciente disse ‘é o melhor aniversário da minha vida’. Foi muito lindo ver todos os trabalhadores da saúde que se envolveram nisso porque são eles que levam alegria no dia a dia aos pacientes que ali estão”.

 

O que levam para sua experiência sacerdotal

Álvaro: Primeiramente algo que serve para todos nós: “viver a incerteza”, especialmente nesta época que estamos vivendo, é um verdadeiro aprendizado. Não sabemos para onde nos levará Deus, como teremos que trabalhar. Aprender a deixar-se levar por Deus através das pessoas que estão em nosso caminho… Deus colocou primeiro em nosso caminho as pessoas no hospital, os doentes, temos que aceitar isso, abraçar com alegria e dar nosso 100% por onde Deus nos leve, ainda que surja a incerteza.

Rafael: Levarei comigo, como experiência sacerdotal mais forte, a escolha de fazer-me vulnerável todos os dias em que chegava pela manhã ao hospital. Novamente escolhia empatizar com a pessoa que estava sofrendo, alegrar-me com a pessoa que estava alegre, fazer-me vulnerável – em meu coração – diante da pessoa que me correspondia acompanhar e querer a cada dia e isso não é fácil, porque é cansativo e doloroso. Também chegava ao hospital e escolhia querer bem a um paciente, o qual, no melhor dos casos, voltava a sua casa e não o via mais ou ia ao céu e até chegar lá tampouco poderia vê-lo mais. No hospital a gente enfrentava frequentemente as despedidas e quando se escolhe querer bem a outra pessoa é doloroso, dá pena; era muito tentador querer afastar-se um pouco, dar espaço e que isso não me importasse tanto. Mas não é o caminho que eu quero escolher, porque ao envolver-me podia participar das alegrias dos pacientes, de suas esperanças e este é o caminho que me faz feliz e tenho que escolhê-lo todos os dias.

Sandro: Eu fico com o acompanhamento dos pacientes no hospital, das enfermeiras e dos médicos e o compartilhar a realidade que vivem no lugar em que estão. Os contextos culturais, as diferenças de infraestrutura de minha própria experiência de hospital, me marcaram muito… Mas levo comigo esta experiência de estar presente nesta realidade concreta, com estas vidas e rostos, e acompanhá-los em tudo o que levavam em seu interior. Há um decreto muito bonito do Concílio Vaticano II que diz: ‘As alegrias e tristezas, as esperanças e os desafios do homem de hoje são as alegrias, tristezas, esperanças e desafios da Igreja’. Isso é o que eu levo deste tempo: viver e acompanhar estas realidades tão intensas e tudo o que significa fazê-lo.

Obrigada à Família de Schoenstatt de Mar del Plata

“Já estamos indo embora de Mar del Plata, mas queremos agradecer por toda acolhida que recebemos, as amizades que fizemos aqui e dizer-lhes que vamos rezar por todos, vamos levar muitas coisas em nossos corações desse lugar. Estamos unidos no Santuário, na Aliança e oxalá algum dia a gente possa se reencontrar”, disse Álvaro. “Muito obrigado por tudo o que nos presentearam, os encontros, a oração, o apoio, o carinho e proximidade, muito obrigado por isso e com certeza encontraremos Novas Praias em muitos outros lugares do mundo”, disse Sandro. “Tanta oração e tanto carinho, vamos embora muito felizes de poder compartilhar estes meses aqui com esta família de Mar del Plata, verdadeiramente muito obrigado”, concluiu Rafael.

“Ao envolver-me podia participar das alegrias dos pacientes, de suas esperanças e este é o caminho que me faz feliz” 

O último mês em Mar del Plata, em uma fase de isolamento, os jovens noviços puderam aproximar-se do Santuário, participar da missa fechada com sacerdotes e aos domingos estar com alguns membros da família de Schoenstatt de Mar del Plata. Mas, mesmo assim, o encontro virtual e a proximidade espiritual permitiram que o “capitalário” com os nomes e as orações pelos pacientes fosse se enchendo de intenções e rostos de famílias, crianças e jovens que permaneceram no profundo do coração neste tempo de “trabalho” em Mar del Plata. Cada um deles foi oferecido por Álvaro, Sandro e Rafael no último dia 18 de agosto no santuário das Novas Praias e levado aos pés da Mãe para que Ela converta esses oferecimentos em graças abundantes, derramadas a partir deste pequeno santuário para todos.

Os “noviços do Covid-19” voltam ao Paraguai para seguir caminhando em sua formação sacerdotal. Certamente foi um curto tempo de trabalho, incertezas e perguntas, mas também de encontros significativos e certezas plenas que ficarão para sempre gravadas em seus corações e que manterão presentes nas orações e na Eucaristia oferecida a cada dia.

 

Fonte: https://iglesiamillennial.com. Publicado com autorização da autora e de Guadalupe García Corigliano, diretora de conteúdo da revista ‘Iglesia Millenial’.

Portadores de alegria ante o mistério da morte (ES)

Original: Espanhol (25/8/2020). Tradução: Luciana Rosas, Curitiba, Brasil

Portadores de alegría ante el misterio de la muerte

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