Colocado em 2020-06-12 In Vida em Aliança

A andar aprende-se andando …

Por Rafael Mascayano M., Chile •

Maio de 1972, segunda Escola para Chefes da Juventude Masculina em Santiago, Chile. Esta invenção do Padre Rafael Fernández, o nosso Assessor à época, implicava que um grupo de jovens deixasse ao máximo a sua carreira, para ter um ano de vida em comunidade, de formação e de serviço ao Movimento, especificamente à Juventude Masculina. Já tínhamos passado algum tempo juntos e alguns problemas de convivência já tinham começado a surgir. Foi assim que convidámos um irmão de La Salle, especialista em dinâmicas de grupo, para nos ajudar nesta matéria. —

O Ir. Miguel fez-nos sentar à volta da mesa e convidou-nos a pôr o dinheiro que tínhamos nos bolsos à nossa frente, sabendo que não voltaria. Embora, como estudantes universitários, não fosse muito, era o que cada um de nós tinha. Com um grande espírito comunitário (estávamos lá por uma alguma razão), colocámo-lo à nossa frente. O Ir. Miguel olhou para nós e deu-nos a seguinte instrução: olhem bem para todos aqueles que estão nesta mesa e, quando eu vos der o sinal, deixarão o dinheiro para quem acharem que precisa dele. Ao sinal, e sem qualquer problema grave, fomos colocando o nosso dinheiro à frente de diferentes irmãos da comunidade. Depois, a um novo sinal, partilhámos as razões por que tínhamos dado dinheiro a este ou aquele irmão. Uma conversa interessante. Como era a hora do café, o Ir. Miguel insistiu em que tivéssemos o cuidado de ser claros quanto ao que cada um de nós tinha à sua frente.

Tomámos um café e regressámos à dinâmica. À frente de cada um de nós estava o dinheiro que os outros nos tinham deixado. A nova instrução do Ir. Miguel: agora, dêem uma volta e tirem dinheiro de alguém do grupo. Andámos às voltas e às voltas, tirando uma moeda… e talvez outra… foi difícil. No diálogo que se seguiu, percebemos como era fácil dar e como era difícil pedir, ter confiança no outro para pedir ajuda, pedir colaboração… E, assim, continuámos as nossas relações com a comunidade.

“Queremos aprender, não apenas teoricamente…” (José Kentenich, 27/10/1912)

Não tínhamos tido uma conversa sobre partilhar e receber, mas, como propõe o Pe. Kentenich, tínhamos “experimentado” profundamente esta aprendizagem, interiorizámo-la na nossa realidade e ela provocou mudanças nas nossas relações enquanto comunidade e enquanto pessoas. Tanto assim, que até hoje registei esta experiência e ainda hoje é uma tarefa de constante auto-educação em mim.

Ao longo destes anos, juntamente com a Nena (a minha mulher), acompanhámos diferentes grupos, em diferentes realidades do nosso país e vimos constantemente que a aprendizagem activa produz melhores mudanças nos processos educativos do que apenas a leitura ou a audição de palestras. Não é que estes métodos não sejam válidos, mas sim que é muito importante, num processo de aprendizagem, que sejam acompanhados, para garantir, por experiências reais que tenham impacto nos conhecimentos, nas emoções e nas acções. Vimos como os casais se descobrem a inventar um “Passa palavra” para um determinado assunto, ou o “Quem quer ser milionário”, mesmo utilizando uma selecção aleatória através do computador. A criatividade floresce, nós rimos, divertimo-nos e aprendemos.

Aprende-se a andar andando; a amar, amando. (José Kentenich, 27/10/1912)

E que dizer de “A Bicicleta”! Uma escola de liderança, conduzida por Peque, Jorge e a sua grande equipa do Ramo de Casais de Bellavista. É claro que as suas actividades estão a outro nível… Que produção! Experimentar a “Casa do Papel”, na qual diferentes testes devem ser realizados para conquistar uma atitude do líder de Schoenstatt, é algo que só pode ser experimentado, mais do que apenas dito.

Sim, há muita criatividade no nosso Movimento, muita capacidade de dar vida aos processos formativos, aproveitando outros meios, outras metodologias, para aprofundar o que o Pe. Kentenich nos disse a respeito de que os processos devem mobilizar “todas as forças vitais da pessoa” e não apenas as racionais, ou seja, gerar processos de vida (lebensvorgang); e que é necessário tocar, nos processos de aprendizagem, com todas as forças vitais: alma, sentimentos, emoções, vontade, acção… como o Pe. Kentenich.

Ou seja, para que possa ser uma realidade nos nossos processos formativos, que a vida se acende na vida, Leben entzündet sich am Leben.

 

Nós queremos aprender. Por conseguinte, não só vocês, mas também eu. Queremos aprender uns com os outros. Porque nunca vamos acabar de aprender, muito menos a arte da auto-educação, que é o trabalho e a tarefa de toda a nossa vida”.(Pe. Kentenich, 27/10/1912)

Rafael Mascayano M.
Mg.(Mestrado) em  Curriculum, PUC Chile
Mg.  (Mestrado) em  Gestão Educativa, UNAB

 

 

 

Original: espanhol (9/6/2020). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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