Colocado em 18. Maio 2019 In Vida em Aliança

A liderança Kentenichiana como resposta à mudança tecnológica nas empresas

ARGENTINA, Carlos E.  Barrio y Lipperheide •

Vivemos numa era de mudança permanente. O avanço da tecnologia está a criar a necessidade de nos adaptarmos continuamente a novos cenários humanos e laborais, tornando o futuro difícil de prever.—

Neste sentido, Andrés Oppenheimer comenta que “a Universidade de Oxford previu que 47% dos empregos estão em risco de serem substituídos, nos Estados Unidos, por robôs e computadores com inteligência artificial durante os próximos 15 ou 20 anos”.[1]

Se bem que a Argentina e os demais países em vias de desenvolvimento não sejam os Estados Unidos da América, as mudanças tecnológicas tendem a espalhar-se por todo o mundo a grande velocidade.

Crescimento exponencial

Esta tendência rumo a um mundo tecnológico que compromete o trabalho e a forma de produzir é confirmada pela chamada Lei de Moore, que afirma que o poder dos microchips duplica a cada 2 anos, o que nos coloca diante da necessidade de modificar quase permanentemente os processos produtivos e os serviços que oferecemos. Thomas L. Friedman diz que se tomarmos por exemplo “… um microchip Intel de primeira geração de 1971, o 4004, e o último que lançou no mercado, o processador Intel Core de sexta geração, vemos que o último chip oferece 3.500 vezes mais desempenho, é 90.000 vezes mais eficiente em termos de energia e o seu custo é 60.000 vezes menor”.[2]

Estes avanços confrontam-nos com a necessidade de nos adaptarmos a novos cenários de mudança no mundo do trabalho e dos negócios. A adaptabilidade está a revelar-se um factor-chave a ter em conta por aqueles que trabalham para não ficarem à margem.

As soft skills

Os líderes enfrentam novos desafios nos quais as chamadas “soft skills” (por oposição às “hard”) são cada vez mais relevantes, devido à importância da adaptação humana a estes novos cenários.

Diz John C. Maxwell que : “A educadora e autora Bruna Martinuzzi cita um estudo de uma organização chamada The Economist Intelligence Unit onde foram identificadas as três qualidades de liderança que serão importantes nos próximos anos: “a capacidade de motivar o pessoal (35%), a capacidade de trabalhar bem transculturalmente(34%) e a capacidade de facilitar a mudança (32%). Estas três qualidades requerem adaptabilidade.

Um estudo mais recente desenvolvido pela Right Management e publicado no The Flux Report deixa claro que a adaptabilidade é uma necessidade crescente. Aí se afirma que 91% das contratações futuras no mercado de trabalho serão baseadas na capacidade dos indivíduos em lidarem com a mudança e a incerteza. Os bons líderes adaptam-se. Mudam. Não permanecem estáticos porque sabem que o mundo à sua volta não permanece estático. Sempre foi assim, mas nunca foi tão evidente como hoje, nem a capacidade de mudar rapidamente foi mais importante do que é actualmente”.[3]

A necessidade da adaptabilidade

O efeito que está a ser produzido nos líderes que enfrentam esta necessidade de adaptabilidade é o de um certo estado de incerteza e insegurança, porque não têm uma ideia clara da direcção a seguir e não conseguem a necessária adaptação a estas mudanças. O desafio é desenvolver a capacidade de adaptação sem perder o foco para onde ir. A mudança tecnológica obriga-nos a mudar a nossa forma de pensar, liderar e agir no trabalho, mas sem perder o rumo. Esse é o desafio da liderança de hoje!

Encontro em José Kentenich uma sábia resposta ao dilema colocado, propondo uma liderança inovadora, baseada em desenvolver “os vínculos jurídicos só os necessários, a liberdade tanto quanto possível, e cultivar o espírito em todos os aspectos e de maneira plena e segura”[4]

A fórmula de Kentenich – não só (mas sim) para Schoenstatt, mas também para empresas

Kentenich propõe-nos “uma forte limitação ou redução adequada do poder no organizativo-jurídico, unida a uma plenitude de poder extraordinariamente rica no vital”.[5]

A fórmula de Kentenich é a resposta certa para a liderança contemporânea, onde grande flexibilidade e adaptabilidade são necessárias, sem perder o foco do rumo.

A tendência em fortalecer os vínculos jurídicos e/ou organizativos na empresa, que no passado a levaram ao sucesso, é a tentação de muitas empresas e líderes, que buscam “garantir” as conquistas obtidas, acreditando que o sucesso do passado se repetirá sem solução de continuidade, se a fórmula utilizada for reforçada. Há muitos exemplos que nos mostram esse fracasso, como Kodak, Blockbuster ou Blackberry, para citar alguns.

Muitas vezes as empresas são guiadas por uma certa -e rígida- concepção de si mesmas, que acaba por espartilhá-las numa forma fixa de produzir, gerir, relacionar-se com os empregados e com o ambiente social, correndo o risco de produzir um vazio de espírito e a perda de contacto com o profundo e autêntico do trabalho e da pessoa. Por outro lado – deste ponto de vista – tendem a reforçar as estruturas organizativas para assegurar esta concepção de si mesmas.

O espírito cria uma forma…

Devemos estar conscientes da validade do velho axioma citado por Kentenich, que afirma que “o espírito cria uma forma; a forma protege o espírito, mas carrega consigo, com o passar do tempo, o perigo de o devorar”. [6]

É a primazia do cultivo do espírito no líder Kentenichiano, que lhe permitirá responder às novas qualidades exigidas no mundo do trabalho, como propõe Bruna Martinuzzi. Só um homem cheio de espírito será capaz de motivar sua equipa, compreender as mudanças transculturais e facilitá-las. Somente quem desenvolve um espírito livre e criativo terá o ouvido atento a estas novas realidades e viverá mais desapegado das rígidas estruturas organizativas que procuram limitá-lo.

É este espírito que o levará a ter contacto com as mudanças verdadeiramente profundas de cada momento, que se estão a gerar por detrás das mudanças tecnológicas. Só um olhar atento e descontaminado do imediato e urgente poderá ver a luz no caminho.

Esta liderança reger-se-á pelo modelo do Homem Novo que Kentenich nos propõe, como uma “personalidade auto-responsável, internamente livre e independente, animada pelo espírito, que tem em si a vontade de decisão e alegria e que se mantém afastada tanto da escravatura à forma, como da falta arbitrária de vínculos”.[7]

Este líder terá que estar aberto a parar para refletir sobre as perguntas que John C. Maxwell nos faz: “Quão disponível está para mudar?  Está pronto para começar a fazer mais perguntas em vez de dar mais respostas? Está pronto para se tornar um melhor ouvinte, um melhor observador”.[8]

Deixamo-nos atropelar pelo trabalho e perdemos a vida.

O excesso de tarefas colocadas pela aceleração tecnológica em que nos movemos, leva-nos a continuar a cumprir o que Gary Hamel e C. K. Prahalad apontavam há mais de 20 anos que “… os gestores de topo dedicam menos de 3% da sua energia a gerar uma perspectiva colectiva de futuro” [9], tornando-se esta tendência um ciclo vicioso em vez de virtuoso.

Sem uma pausa reflexiva não poderemos avançar para o desenvolvimento de uma visão enriquecida com a contribuição de todos.

Como nos diz Enrique Shaw, “saibamos ouvir com o propósito de compreender” [10]. Só assim podemos desenvolver a alma da empresa, na qual vamos descobrindo uma visão partilhada que lhe dê sentido.

Só um homem que “… cultiva o espírito em todos os seus aspectos e de modo pleno e seguro[11]poderá orientar o rumo e fazer da empresa “… uma comunidade de vida… um lar de relações humanas “ [12] no meio da permanente mudança tecnológica que devemos desentranhar e à qual nos devemos adaptar todos os dias.

 

Fotos: iStock Getty Images/metamorworks, www.metamorworks.com,  licensed for schoenstatt.org

Carlos E. Barrio y Lipperheide, [email protected]

Mais artigos do mesmo autor

[1] Oppenheimer, Andrés. ¡Sálve-se quem puder!: O futuro do trabalho na era da automatização (Spanish Edition) (Posição no Kindle16-17). Penguin Random House Grupo Editorial México. Edição de Kindle
[2] Thomas L. Friedman. “Obrigado pelo atraso.” Editorial Paidós (2018), p. 53.
[3] Maxwell, John C. As mudanças na liderança (Edição em espanhol) (p. 6). Grupo Nelson. Kindle Edition.
[4] José Kentenich. “O mundo dos vínculos pessoais” (Editora Nueva Patris -Herbert King-, 2015), p. 81.
[5] Kentenich, José. O segredo da vitalidade de Schoenstatt – Volume 1 (Edição em Espanhol). Nova Patris. Kindle Edition.
[6] José Kentenich. “O mundo das vinculações pessoais” (Editora Nueva Patris -Herbert King-, 2015), p. 82.
[7] Horacio Sosa Carbó. “O desafio dos valores”. (Editora EDUCA, 2.000), p. 174.
[8] Maxwell, John C… As mudanças na liderança (Edição Espanhola) (p. 9). Grupo Nelson. Kindle Edition.
[9] Jim Kouzes. Barry Posner. “O Desafio da Liderança. Editora Granica (1997), p. 172.
[10] Enrique Shaw. “E dominai a terra.” Editora ACDE (2010), p.43
[11] José Kentenich. “O mundo das vinculações pessoais” (Editora Nueva Patris -Herbert King-, 2015), p. 81.
[12] Enrique Shaw. “Notas e apontamentos pessoais.” Editora Claretiana (2013), p. 53.

Original: espanhol (13/5/2019). Tradução. Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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