Colocado em 2020-01-01 In obras de misericórdia, Projetos

Natal Solidário: do Santuário de La Plata àqueles que passam o Natal nas ruas, nos hospitais, no trabalho

ARGENTINA, Pe. José María Iturrería, María Fischer •

“Vamos com um presente. A uma pessoa que está numa situação de rua, levamos alguma coisa para comer; se alguém está a trabalhar, deixamos-lhe um pão doce para partilhar com os seus colegas de trabalho; a alguém que está hospitalizado, um alimento ou um presente. Isto é uma desculpa. O objectivo não é dar um pão doce: isso seria uma actividade muito pequena, algo muito superficial. Nós queremos ficar e conversar, para conhecer a outra pessoa. Falamos de tudo o que eles querem falar e muitas vezes também os acompanhamos em silêncio”, diz Fran Corda. Durante a madrugada de quarta-feira, 25 de Dezembro, na celebração do Natal, grupos de jovens católicos da cidade de La Plata realizaram o “Natal Solidário”, organizado pelo Movimento Católico de Schoenstatt.—

Como todos os anos, depois do brinde familiar, uma centena de jovens reuniram-se no Santuário localizado perto da Catedral de La Plata, para sair e visitar os sem-abrigo, aqueles que estavam a trabalhar nas ruas durante as primeiras horas da manhã, e pacientes de diferentes hospitais.

O projecto “Natal Solidário” começou em 2001 com 20 jovens e hoje mais de 200 membros da comunidade de Schoenstatt, juntamente com outros Movimentos da região, compõem este grupo. Padre José María Iturrería, Assessor da Família de Schoenstatt de La Plata, expressou: “Participam pessoas que querem partilhar um tempo de festa com o próximo. É uma iniciativa de Schoenstatt em colaboração com Movimentos e Grupos de Jovens da Arquidiocese de La Plata. Em vez de sairem para dançar ou passarem a festa sozinhos ou com um pequeno grupo de amigos e familiares, depois do brinde, os jovens vêm ao Santuário e organizam-se para expandir o seu espírito de solidariedade”.

Aproximar-nos das pessoas que trabalham no Natal

Este foi o meu quarto ano de participação no Natal Solidário, e decidi passá-lo a percorrer lugares para visitar as pessoas”. Era a primeira vez que o fazia e tinha muitas expectativas sobre como seríamos recebidos, as histórias que as pessoas teriam para nos contar, etc. E embora essas expectativas tenham sido cumpridas, acho que o que mais destaco é a alegria que ficou depois e, não apenas, por me ter aproximado de uma pessoa que estava a trabalhar no Natal para lhe oferecer um pão doce.

Foi de ver os seus rostos felizes, de ouvir as suas palavras de agradecimento, de saber que tínhamos realmente conseguido, com um gesto tão simples, mudar-lhes completamente a noite. Deixei cada lugar com o coração um pouco mais cheio, com a certeza de que em cada pessoa visitada tínhamos deixado um espaço para que Jesus nascesse nos seus corações. Quando regressei ao Santuário, senti um enorme desejo de chorar de alegria, porque é, realmente, mais o que se recebe do que o que se pode dar. Agradeço a Deus por me ter dado a oportunidade de ser Seu instrumento por mais um ano, e espero continuar a sê-lo em todos os anos que Ele me permitir”, comentou Clara Atencio, da Juventude Feminina de Schoenstatt, La Plata. Os grupos, compostos por 5 ou 6 pessoas, percorriam hospitais, praças, quartéis de bombeiros, esquadras e lojas onde o pessoal estava de plantão durante a manhã de Natal, distribuindo pequenos Presépios para expressar o Nascimento de Jesus.

 

Precisavam desse momento para se rirem connosco.

“Fomos a um posto de guarda numa praça, estavam lá duas pessoas. Uma era mãe de dois filhos e disse-nos que não podia passar a véspera de Natal com eles e o marido porque o seu turno é das 7 da tarde às 7 da manhã. Conseguimos conversar, rir, tornar o seu dia mais leve; deixámos-lhe doces de Natal para que ela surpreendesse os filhos quando acordassem. E eu pensei: uma mãe ou um pai quer aquele momento familiar com os seus filhos mais do que qualquer outra coisa, mas por causa da necessidade de trabalhar não podem estar com eles.

Talvez a nossa visita não tire o facto de eles não estarem com os filhos, mas tentamos encorajá-los dizendo que o que estão a fazer, esse sacrifício, vale realmente a pena para o futuro dos seus filhos. Ficou muito grata e feliz, precisava daquele momento para se rir connosco, para ter aquela noite diferente”, diz Sebastián Iaconis, encarregado de difundir o Natal Solidário no seu canal do YouTube: “Encerrámos o Natal Solidário com uma Missa ao ar livre. É outra opção para se viver a festa. Quando eu era mais jovem, achava que o Natal era ideal para ir para a paródia e assim por diante. Mas percebi que é mais agradável ver o nascer do sol partilhando com uma pessoa que está sozinha. Ouve-se cada história de solidão e pessimismo… É bom ir ao encontro deles, especialmente nesse dia”, diz Iako antes de convidar todos a viverem a experiência: “É uma proposta diferente para essa noite. Quer acredites ou não, é uma oportunidade de ir ao encontro e conhecer o outro”.

 

Com a sua família muito perto e mesmo assim a trabalhar na noite de Natal.

Cumén Putigna, Pastoral da Juventude da Diocese, conta:

“Este ano, no Natal Solidário 2019, vi que uma das minhas paragens fixas ao longo do percurso era um posto policial localizado na Plaza Belgrano. Esperava que fosse algo semelhante ao que tive no ano anterior na Plaza San Martín, onde a polícia era bastante amigável e pudemos conversar e passar um tempo muito agradável com eles. A primeira coisa que fez o meu grupo de 9 pessoas foi aproximar-se devagar, porque talvez ficassem um pouco surpreendidos ao verem-se rodeados, de repente, por muitas pessoas e, o que não queríamos era que se assustassem.

Mal nos tínhamos aproximado, vimos uma jovem senhora e um homem muito mais velho, ambos polícias a falar e a olhar para os seus telemóveis, claramente aborrecidos, e então começámos a saudá-los com as mãos, ao ver-nos a rapariga saudou-nos também e saiu com um lindo sorriso.

E lá os conhecemos, ambos de La Plata, com a família muito perto e mesmo assim a trabalhar na noite de Natal, cumpriam o turno das 19 às 7 da manhã e estavam ansiosos por ir passá-lo com a família. Disseram-nos que, pelo menos, era uma noite tranquila e que não tinham tido nenhuma emergência para atender, mas que, mesmo tendo a companhia um do outro não estavam a ter uma noite muito divertida. Foi então que entendemos que, por alguma razão, tínhamos a missão de passar por ali e que não podíamos sair sem conseguirmos arrancar-lhes um sorriso.

Conversámos durante mais de meia hora, desde experiências natalícias anteriores a piadas e experiências engraçadas que tínhamos tido. Finalmente, quando vimos que tínhamos conseguido dar-lhes um pouco daquela alegria que todos merecem nessa noite, decidimos ir para o nosso próximo destino, dando à jovem um  Presépio para os seus dois filhinhos que esperavam ansiosamente pela sua chegada, despedimo-nos, desta vez recebendo um abraço muito forte de cada um, constatando, assim, que tínhamos atingido o objectivo de os fazer passar um bom bocado”.

 

O Natal é mais

“Jesus veio por todos, foram vê-lo, pastores e reis, e depois Ele saiu ao encontro de pecadores e fê-los pescadores de Homens. Qual é a diferença entre alguém que trabalha como motorista, bombeiro, prostituta ou travesti, alguém que vende estampas ou incenso, alguém que vive no campo ou na cidade, uma pró-vida e uma feminista? Sim, não importa se é um vagabundo ou um milionário, se rouba toda a sua vida ou sai para o trabalho, se é bonito, se é feio, se é bom, se é mau… o importante é se soube como aproveitar. Uma frase que tem andado na minha cabeça desde que a ouvi, mas acima de tudo, a última palavra: aproveitar. Ficou a ecoar em mim. Tenho a sensação de que existe a chave e quero descobri-la. O que é o prazer? Tem limites? Podemos aproveitar bem? É condicionado pela moral, pela ética? Pode-se desfrutar de qualquer coisa.  O que é isso? Porque deixo de desfrutar das coisas? Eu penso em fumar, nada mais agradável do que isso, pode-se deixar de desfrutar?

Quando deixas de gozar com alguém, de falar mal do teu companheiro, quando deixas de gostar de fazer batota, de te embebedares todos os fins-de-semana, consegues aproveitar bem? Porque eu também gosto de estar com amigos, com a minha família, com a minha namorada, jogar futebol, ver um filme e isso também é aproveitar e não me arrependo. Pode ser tão ambíguo aproveitar?

“O importante é se soubeste desfrutar”… soubeste, mais uma vez esse eco. De onde vem essa palavra? Soubeste, de saber… sabedoria, sabedoria vem de reflectir sobre experiências e eu já tenho algumas. Então, quando é que eu sei como desfrutar? Não sei, nunca pensei sobre isso. Mas deduzo que saber desfrutar é não me arrepender de ter feito algo, mais cedo ou mais tarde arrepender-me-ei de coisas que fiz porque as vou ver de outro ponto de vista, com outra experiência, com outra sabedoria.

Mas do que nunca me arrependerei é de amar; saber aproveitar é saber amar, e todos nós podemos amar, desde um vagabundo até um milionário, desde um que sai para roubar a outro que sai para trabalhar, desde um pastorzinho até um rei e nós amamos, porque Ele nos amou primeiro. O amor de Jesus é igualmente infinito para todos. Ele veio para todos, foram-no ver pequenos pastores e reis e, depois Ele saiu ao encontro de pecadores e os fez pescadores de Homens. O Natal Solidário é uma oportunidade para reviver essa mensagem, um amor que não exclui ninguém, um amor que não se arrepende”, diz Juan Pedro Martínez Vargas, Chefe de Filial da Juventude Masculina de La Plata.

Diferentes histórias aparecem, tantas quantas as pessoas que encontramos

“As celebrações de fim de ano são momentos de encontro, especialmente o Natal, que é representado pela vinda do Menino Jesus”.

As famílias reúnem-se e partilham essa noite que as reúne à volta de uma mesa a todos os que podem, como raramente acontece ao longo do ano.

Depois do brinde, muitos jovens imitam isto, mas por sua vez saem para as ruas da cidade em busca daqueles que, por várias razões, estão sozinhos nesta data especial.

Diferentes histórias aparecem, tantas quantas as pessoas que encontramos. Cada palavra, conversa, gesto ou simples saudação pode transformar a noite para aqueles que desejam que essas horas passem o mais rápido possível.

Cada história te comove, te desafia e reafirma o necessário para estares com eles naquele momento.

Alguns estavam a trabalhar pela primeira vez nesta data e viam a indiferença das pessoas que passavam sem sequer lhes desejar um Feliz Natal! Outros estavam mais acostumados e preocupados com aqueles que não tinham trabalho e estavam na rua.

A entrada de um banco, de uma faculdade ou do lado de um edifício são lugares comuns para as pessoas que não têm uma casa para viver. Lá a realidade é difícil, mas é onde eles mais nos valorizam que passemos tempo com eles. A companhia e a conversa sobre o que quer que seja o tema permite que eles e nós esqueçamos tudo naquele momento.

O Natal Solidário é uma demonstração de dedicação e serviço que nos preenche, podendo ver Jesus nascer em cada pessoa que encontramos naquela noite”, diz Joaquin Morosi, Juventude Masculina de La Plata

Depois dos percursos, os grupos voltaram ao Santuário para partilhar o testemunho das suas experiências e participarem numa Missa de Acção de Graças, presidida pelo Bispo Auxiliar de La Plata, Mons. Alberto Bochatey (Ordem de Santo Agostinho), deixando cada encontro vivido durante a missão nas mãos de Deus.

A logística do “Natal Solidário” é organizada com um mês de antecedência e, além de incluir a coleta de alimentos para o percurso, também é preparada uma mensagem a ser transmitida.

 

 

Repercussão na imprensa:

El Día, La Plata: https://www.eldia.com/nota/2019-12-26-3-56-46-jovenes-catolicos-compartieron-la-navidad-solidaria-en-distintos-rincones-de-la-region-la-ciudad

La Nación, Buenos Aires: https://www.lanacion.com.ar/870185-una-navidad-solidaria-y-en-compania-en-la-plata

AICA: http://www.aica.org/42527-jovenes-platenses-realizaron-una-navidad-solidaria.html

Gente: https://www.gente.com.ar/actualidad/conoce-al-youtuber-que-festeja-navidad-con-quienes-menos-tienen/

Original: espanhol (26/12/2019). Tradução: Lena Castro Valente, Lisboa, Portugal

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